sábado, 12 de abril de 2014

Ensaios Sobre o Amor Fluído

Ensaio sobre amor fluído
12 de abril de 2014
Daniel Alabarce

Eu sou igual a todos os outros, em quase nada vejo diferenças tão dissonantes. Diante da morte, da dor e do sofrimento somos todos iguais, não consigo encontrar algum argumento que falseabilize (nos termos popperianos) esta constatação. Talvez eles, me refiro aos outros que não são eu, não vejam da mesma forma – e como poderiam, já que somente eu sou eu?
Não estou preocupado com isso, entretanto, tenho vontade de entender essa maldita crise de identidade em que me meti nos últimos meses.
Sou homem, inicialmente hétero, bissexual por um bom tempo, e  agora percebi que minha cota para mulheres acabou  - mas não descarto a hipótese de, num momento de loucura abrir exceções... (sinto muito por elas, porque, modéstia parte, sou aberto a vários tipos de degustação sexual).

Meu grande problema diz respeito a uma contradição interna. Eu quero estabilidade. Algo como um porto seguro onde eu possa viver sempre e até o fim desta existência onde possa exercer minha mais honesta lealdade (mea culpa, sou um romântico...), mas este porto seguro se assemelha mais a um cais, onde meu barco possa fazer viagens em busca de alguma coisa nova, lugares diversos e viagens solitárias (pois sou defensor árduo de que minha solidão, grande parte das vezes, me dá condições de apreciar a natureza, a música ou apenas minhas próprias divagações filosóficas, místicas ou de qualquer outro tema. Mas, como bom viajante, quero sempre retornar ao meu lugar de origem. Essa metáfora não é a melhor, porque não leva em consideração a justeza de meu pensamento. Se eu necessito de liberdade de navegação, então penso que o meu companheiro de viagem deva ter os mesmos direitos de degustação e ampliação, para quem sabe, talvez, ancorar um ou mais barcos ao nosso cais original... Se houver consenso e vontade... Porque não? Tudo depende do grau de liberdade e de lealdade que pode haver entre um casal (de duas ou mais pessoas). Minha utopia, porém, consiste em que eu encontre alguém que se aventure ao meu lado, que seja um bom degustador, como nos velhos contos de cavalaria, indo pelas montanhas afora, pelos bosques adentro, sendo acolhidos ou mal recebidos, e rindo ou chorando à beira de uma fogueira.

Já faz algum tempo penso em outra analogia.
Eu, como pianista, desde meus 11 ou 12 anos, experimentei um número imenso de pianos, macios, metálicos, aveludados, amadeirados, alguns mais brilhantes, outros de timbre escuro e um pouco mais grave, outros estridentes, e muitos desafinados e abandonados aos cupins. Mas eu tenho o meu piano favorito, aquele com o qual eu converso, literalmente, e me abro (e abro também sua tampa) e degusto de seus harmônicos por longos tempos, a aderência dos meus dedos nele é gostosa, o pedal responde, há uma comunicação leal e recíproca, somos namorados eternamente enquanto durar. É um Essenfelder, bem velhinho, meio deixado de lado, mas que me atrai sempre, a despeito de algumas teclas que afundam e demoram a retornar, e da mecânica que não permite executar peças musicais um pouco mais virtuosas (e estou considerando também, de peito aberto, que estou plenamente cônscio de minha não-virtualidade – e não tenho interesse nenhum em ser um pirotecnista do piano, muito menos um concertista, sei bem de minhas limitações, minhas intenções com este piano é de um amor leal, fluido, saudável e sem ciúmes – o que não significa um desleixo de minha parte ou que eu não vá cuidá-lo com carinho e um profundo respeito pela longa história que tivemos).

Amor livre... Porque é preciso tantas fórmulas mágicas de amor? Tantas prescrições e diagnósticos. O Rio corre seu curso e ponto, contorna obstáculos e sempre deságua no mar, que importa se ele dobrou largas curvas e se encontrou pelo caminho quedas maiores ou menores, seu rumo sempre foi o Mar, e este é seu destino. Porque existem tantas amarras em torno do amor? Se ele é um conceito universal, e se é tão bonita a obra prima da natureza, porque raios ele deve ser amordaçado, torturado e ainda ter de agir com artimanhas de culpabilidade tão defasadas? Porque amar é o mesmo que amar apenas uma pessoa sob uma só perspectiva? Seria isso uma herança da lógica aristotélica ou apenas um desdobramento da moral de padres capados da Idade Média que foi se alastrando clandestinamente, principalmente durante a época vitoriana e depois com os vários tipos endurecidos de um protestantismo moralista da pior estirpe possível.

Sinceramente, eu gostaria de ter nascido na época em que os bodes sacrificados a Dionísio eram o ápice de um festival que durava meses, de caráter puramente ritualístico com o objetivo simples de celebrar a Vida em sua formosura de Liberdade. É claro que existiam pontos de exageros. Mas por isso mesmo lá estava Apolo com suas belas coxas e suas lindas musas, um dos deuses mais enrustidos que já conheci (e por quem tenho uma admiração intensa), para harmonizar a loucura deliciosa de Dionísio... Deuses complementares, opostos em alguns aspectos, apenas alguns, unidos pela força do Belo.
Talvez eu esteja sendo romântico em relação às orgias gregas ou romanas, e isto também não me importa, porque o que tenho em mente não é de fato algo impossível, pois já presenciei várias obras de arte dentro do mundo undergroud da sexualidade humana.
Eu não me considero um voraz ou um selvagem, sexualmente sou conservador, talvez um pouco tradicional, e já não me importo, neste atual momento de minha vida, em transar incansavelmente com tantas pessoas que brotarem da terra ou colocar em prática todas as posições do kamasutra (algumas são definitivamente impossíveis). Eu almejo um tipo de sexo que abranja outras instâncias complementares, uma degustação que se inicie com uma boa conversa, um bom vinho, talvez um bom filme e que, quando a atração sexual acontecer do modo fluído e natural, aí sim o sexo me seria prazeroso.

A impressão que venho analisando ultimamente tem ficado cada vez mais forte. Já logo aviso que não sou um puritano - quem me conhece tem certeza disso - mas depois de algum tempo eu entendi que a libido sexual de uns 100 anos para cá, tem se canalizado especificamente no ato do coito. Quando, na verdade, a libido, que é uma força sexual, é muito mais que apenas o coito. Ela tem profundas relações com o desejo, em todas as suas expressões, seja no desejo pelo delineamento das curvas de uma bunda, de seios volumosos ou mais endurecidos, na textura aveludada de uma pele cheirosa, na distância existente entre as sobrancelhas, nos dedos da mão ou nos tornozelos (e há tanta expressões mais estranhas, que prefiro não comentar...), mas o desejo pode se manifestar em outras formas... como no timbre da voz, nos trejeitos de andar, nos olhos, na dicção e na pronúncia das palavras, na inteligência que seduz apenas por que a pessoa tem a nobre habilidade de articular uma boa conversa sem ser desagradável, ou mesmo apenas pelo silêncio... Bom... no caso do silêncio, eu raramente encontrei alguém que se excitasse nesse tipo de troca sublime, porque não é qualquer tipo de silêncio, é aquele silêncio onde as partes ouvem o próprio ato do desejo, a carne, mas não somente a carne, borbulhando em desejo, os corpos se atraindo, ou se preferirem.... o magnetismo áurico de frequências em processo de sincronização. (é, talvez eu precise me aprofundar mais no Tantra...)

Também não estou mais tão preocupado com o ápice do gozo, a ejaculação, pois descobri que durante o sexo existem técnicas quase infinitas de sentir prazer sem ter necessidade de ejaculação. O corpo humano (e todas as esferas que o envolvem no campo da sensibilidade física) são tão complexos, que é possível ter um orgasmo apenas com utilização de determinados toques, respirações, sussurros e ‘pegadas’. A mulher, diga-se de passagem, é um abismo de prazer, e, se tiver mente aberta... pode ter múltiplos orgasmos numa mesma transa.Os homens, meio burros, meio estúpidos e meio escrotos, se esquecem que essa possibilidade pra eles também existe, mas que não foi explorada por puro cagaço, por puro medo de ser mal falado. E vejo nesse comportamento masculino uma primitividade tão imatura que apenas algumas décadas de experimentações mais libertinas  tal covardia poderá ser dissipada.

Para mim, portanto, o conceito de orgasmo está muito menos limitado a apenas uma ejaculação rápida, apesar de intensa, confesso, mas está relacionada também a todos os tipos de prazeres possíveis durante, antes e depois do ato sexual.
Como admiro os hinduístas e orientais pela sua tranquilidade em enxergar, inclusive, um modo de transcendência de prazeres por meio do sexo. A sedução e o erotismo sofisticado de seus ensinamentos são de extrema beleza... E como quero me aprofundar nestes estudos, pois a prática deve ser muito mais tesuda que a teoria...
E agora, cá estou, com estes pensamentos, a procura de um homem que aceite essa aventura. Sim, pois quero estar com alguém que também se permita tais desejos e que também me permita ser livre (já que também quero livre quem estiver comigo.


Quero ter uma casa, um lar, acordar com café da manhã na cama e toda aquela parafernália de um romance comum, mas isso não basta, quero ser completo, quero cultura, arte, música, poesia, viagens, e, principalmente, espaço para ser quem eu sou sem que me normatizem, sem que estabeleçam regras morais, sem que hierarquizem o amor. Exatamente porque o “Amor” é um conceito tão geral, e que pode expressar tantas coisas, que me recuso a acorrentá-lo a apenas esta forma-padrão de papai-mamãe-filhinho e uma doença oculta, de que todos sofrem, por mero convencionalismo teatral! A Sociedade moderna é uma das mais retrógradas e conservadoras na História da Sexualidade... Uma pena... Duas, três... Sei lá... É um desperdício de energia pra discutir e se encolerizar. Relaxa e goza!

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O pequeno príncipe, o Grande Filósofo



“Responderam-me: ‘Por que um chapéu daria medo?’
Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jiboia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, a fim de que as pessoas grandes pudessem entender melhor. Elas têm sempre necessidade de explicações detalhadas. [...] Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma promissora carreira de pintor.” p. 8 (EXUPÉRY, 2009)

Assim começa um dos livros infantis mais divertidos e intrigantes que eu já li. Do mesmo modo que Robert Schuman, quando compôs suas Kinderszenen, não exatamente para crianças, mas para adultos que haviam perdido o elemento lúdico de sua infância, que foram sequestradas do direito da brincadeira sagrada da criatividade livre e da imaginação, o livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry apresenta uma deliciosa refeição para a alma crua do mundo dos números.

Um adulto, piloto, cujo avião fica sem combustível, está sozinho no seu próprio deserto, sem perspectiva alguma no horizonte. Como em todas as fábulas do deserto, os mitos das grandes religiões e, principalmente, nos contos árabes, é ali, naquela aparente infertilidade da terra que o adulto, desiludido, passa a reencontrar sua alma de artista, sua liberdade infantil, sua salvação na figura de um estranho e pequeno príncipe que alega ter vindo de um planeta distante, uma criança meio misteriosa, cheia de sabedoria, uma sabedoria metafórica do tipo zaratustriana, que vai conduzindo o exausto piloto à riqueza de tudo quanto é simples.

A história nada mais é do que uma forma de resgate interior, com uma sofisticação peculiar a todos os escritores franceses e que esconde na sua forma leve e fluida aquilo que, sabemos, constitui originalmente a principal meta de todo filósofo: conhecer a si mesmo.

O mundo dos adultos é frio, cinzento, e o pequeno príncipe, apesar de morar num planeta pequeníssimo, tem um coração gigantesco, uma alma de viajante, de buscador. O próprio piloto, ao narrar sua aventura, com muito pesar diz que gostaria de poder contá-la tal como nos contos de fada, mas que se assim fizesse os adultos não o compreenderiam, pois não entendem nada do mundo das crianças. Uma de suas frases é bem parecida e, certamente, tem influência nietzscheana:

“As crianças têm que ter muita paciência com as pessoas grandes. Mas, com certeza, para nós, que compreendemos o significado da vida, os números não têm tanta importância! Gostaria de ter começado esta história como nos contos de fada. Gostaria de ter começado assim: ‘Era uma vez um pequeno príncipe que habitava um planeta pouco maior que ele, e que precisava de um amigo...’ Para aqueles que compreendem a vida, isso pareceria, sem dúvida, muito mais verdadeiro. [...] É triste esquecer um amigo.Nem todo mundo tem um amigo. E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes que só se interessam por números. Foi por isso que comprei um estojo de aquarelas e alguns lápis.” p. 18 (EXUPÉRY, 2009)

Também para Nietzsche a filosofia, neste caso, a nobre aventura da vontade afirmativa, a existência dos espíritos livres, pertence apenas aos artistas e às crianças, os únicos capazes de sempre construir sentidos novos a partir do niilismo que o movimento ascendente da Vida coloca diante de nós. O pequeno príncipe, em seu pequeno planeta, certa feita, viu o sol se pôr umas quarenta e quatro vezes (p. 25) - se quisermos, podemos até criar uma ponte deste trecho poético com a doutrina do Eterno Retorno. Passou por inúmeros planetas antes de encontrar o adulto que teve de abandonar sua carreira de pintor, e em cada lugar que passava aprendia algo novo. Amor facti, diria Nietzsche. 

O Pequeno Príncipe é antes de tudo um Grande Filósofo, pois sua existência não lhe era um peso, e tudo quanto sofria, fosse bom ou ruim, lhe parecia belo, merecia ser degustado. Assim é que ele se apaixonou pela rosa com quem conviveu por tanto tempo em seu planeta distante, mas que o aborrecia sempre com suas exigências. Assim é que, tendo conhecido o seu adulto interior em pleno deserto do Saara, como num espelho, percebeu o quão valiosa lhe era a amizade da rosa e se tornou responsável por aquilo que ele cultivou.

Uma história tão simplesmente rica como essa se torna agradável e reveladora a cada nova leitura, pois nos ajuda a manter o equilíbrio entre o adulto e a criança, entre o dionisíaco e o apolíneo, o diálogo constante entre vida e morte, construção e desconstrução, a eterna estabilidade paradoxal do movimento heraclitiano...

SAINT-EXUPEÉRY, Antoine De. O Pequeno Príncipe.

48° ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009