Janelas são sedutoras Mas são apenas janelas A porta é a Morte.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Fungos... Bactérias... Liberdade... Terra, demasiadamente terra!
Por que raios nós - estes seres tão arrogantemente colocados acima das outras animálias - nos nomeamos como HUMANOS?
A raiz de tudo (ou ao menos desta palavra) está ligada a HUMOS! Humos é uma palavra que está relacionada à terra, ao que provém da terra.
Assim é que passamos a ser chamados de humanos, ou: os que provém da terra, do humos. Ou: os que são feitos de terra!
Se contradizem, então, todos estes que afirmam que somos seres que devem povoar o céu, pois não somos seres do céu, somos seres "húmidos", somos seres da terra, somos SERES HUMANOS!
E eles deveriam saber disso, pois até na sua mitologia se diz que homem é ADÃO, que, na raiz hebraica, é terra!!!
No fim, somos todos fungos bacterianos úmidos e pensantes feitos de terra ! há há há!
A palavra HUMILDADE também tem a mesma fonte... HUMOS!!! E, ao contrário do que pregam os negadores da vida, a virtude da humildade nada tem que ver com aquela figura macabra de sofrimento, de decadência, de... rebaixamento. A terra é o único lugar que, até onde sabemos, possui vida! E vida é ascendência, a vida é um jogo de forças querendo viver, querendo dançar...
Humildade então deve estar relacionada, neste contexto, com a virtude de um guerreiro e não com a de um escravo, servo ou beato qualquer!
Tá bom, já vou explicar por quê!
Se um guerreiro tiver que escolher entre lutar até à morte ou se tornar escravo, escolherá lutar até morrer, pois não se afeiçoa à escravidão. Ser livre é uma questão de vida, jamais de morte. Enquanto há vida, há possibilidades de ascendência, de liberdade, de criação...
É assim também que morre a mosca que eu prendo dentro de um copo, que se desespera toda dentro do copo, que não se CONFORMA, que não aceita a forma do copo, que não aceita a limitação do copo, que não aceita ser presa.
Também os pássaros selvagens nas gaiolas que morrem debatendo-se. Esta é a virtude da vida, que é a virtude da terra, que é ascendência, que é vontade de viver, que é VONTADE DE POTÊNCIA! Que é Humildade e HUMOS!
Por que diabos o homem, chamado HUMANO, se deixa escravizar, se entrega ao carrasco, se dispõe à servidão? Mesmo que seja aprisionado e permaneça aprisionado... Não deveria ele se debater como as outras animálias - sobre as quais se diz superior - mesmo que isso lhe causasse a morte? Não pareceria ao verdadeiro HUMANO que apenas a expectativa de não ser livre lhe causaria tanto medo quanto a própria morte?
Para que haja a vida é necessário que haja um jogo de forças, uma luta contínua. Viver é a função de todo ser vivo, é o desejo de todo o ser que vive, viver é pulsão!
E todos os seres vivos da Terra vieram da terra!!
(tudo bem, alguns vieram da água! Ah, deixa de ser tesoura, vai? ... Você tem que considerar que a água também está na terra e que é elemento principal do humos, se não fosse assim também não conheceríamos a palavra UMIDADE! Há!)[pequena divagação]
Agora é que podemos dizer e pensar numa ética mais humana. Esta ética humana só pode estar relacionada à terra, às coisas terrenas (que para os rebanhos ovelhosos são coisas baixas possuidas de mal! - Claro, pois acreditam serem celestes, mesmo sendo fungos como nós. E não podemos esquecer que também a árvore cresce para o mal, quer dizer, para baixo...)
Aí é que eu desisto de todos estes congressos filosóficos sobre ética e teologia, ou de ética "teologal" que ficam propondo éticas espirituais, que mascaram esta idéia de que somos seres hierarquicamente dispostos acima dos demais seres, de que somos potencialmente maiores e melhores que eles, que somos o centro do universo, o umbigo do cosmos e que fomos criados para um propósito maior, e que o objetivo do humano é o céu, o além, o porvir!
NÃO!!! O destino do HUMANO é o HUMOS! O destino do humano é a terra.
Os braços da terra nos aguardam, é o destino de todos os que dela sairam!
Resta que cada um de nós decidamos agora se queremos aceitar nossa condição: este humano, demasiado humano... terra, demasiada terra!
(Apesar que... Uma pessoa pode alimentar a ilusão de que é um extraterrestre durante toda a sua existência. No final ela vai morrer e vai habitar a terra de onde todos nós viemos e para onde todos nós voltaremos!)
Há! Se fudeu!
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Nihil
Isso tudo me afoga, corrói o meu intestino e sinto minhas mãos atadas, amordaçado e vulnerável à máquina.
Meus atos? Pensamentos? Questionamentos? Memória? Recordação? Passar uma segunda e terceira vez no coração – eis o que é recordação! E eu revivo as dores do que se foi, encontro desespero no que há e espero, com a certeza da finitude, o sofrimento que poderá surgir.
Eu perdi o ânimo, perdi a alma; estou destroçado, desanimado, desalmado. Arrancaram de mim o meu equilíbrio e me deixaram pendurado como num filme de suspense; sim, estou suspenso, com os pés no chão, mas furtado do meu presente, este belo e gratuito presente imediato!
Não há reconstrução por enquanto. Há tragédia diante dos olhos. E eles enxergam a tragicidade do problema, um problema que se tornou monstro, fetiche e depois deus – um cadáver posto acima de todas as cabeças, um corpo-morto que, mesmo morto, fala demais.
Uma árvore cresce tanto para cima quanto para baixo. É pedido agora que se cresça, mas na direção dos pés, enraizando-se na terra, no humos (no humano)... crescendo, como diria Zaratustra, para baixo, para o mal... a região onde todos os nossos cães selvagens estão latindo e rindo do nosso desejo de abrir todas as prisões... Estes cães que se nomeiam "instintos".
Eu quero dormir, acordar, comer e beber, pois estas são as funções fundamentais da vida, simplesmente! Nada de existência curiosa, racionalidade ou pensamento! Quero ser consumido pelo vazio e rir-me dele, zombar do abismo e atirar uma corda frágil ao outro lado... Quero atingir o outro lado, mas é necessário que eu passe pelo vazio, pela ausência da luz e do BEM. Antes de transvalorar, antes de transformar todas as maldições do destino em ouro, é preciso passar pelo NADA: nihil!
Daniel Alabarce – 18/09/2009, às 22h59m (vento frio)
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
As Intermitências da Morte
É um livro absurdamente incrível, hilário e, ao mesmo tempo, profundo, intelectual e filosófico.
Saramago conta a história de um país que entra em choque, em colapso quando um dos personagens mais temíveis da história deixa de trabalhar: a Morte.
Na virada do ano, a Morte simplesmente decidi não trabalhar mais, não levar nem conduzir os moribundos até seu respectivo fim.
Por mais velhos, doentes ou acidentados que as pessoas possam estar... Elas continuam vivas, não morrem.
Saramago tem um jeito interessante de contar seu romance: ele começa com uma pequena pedrinha no alto de uma montanha, faz esta pedrinha rolar e rolar... Ela se transforma, aos poucos, em uma gigantesca bola de neve! Saramago explora todas as possíveis consequências de o que pode acontecer sem a presença da morte.
Realmente, a sociedade humana sem a morte entra em crise, passa por um desequilíbrio estratosférico.
Indico o livro a todos, é uma leitura viciante.
até mais!
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Pedaços de bolacha no chão...
Senti um sabor de melancolia no sol que brilhou hoje na janela, mas uma melancolia doce, agradável ao paladar.
Senti prazer em poder acordar, tomar café com meu tio à mesa, desejar um bom dia à minha família e ficar só por um tempo olhando minha mão que segurava uma bolacha com maionese.
Olhei tudo ao redor: As panelas, os copos, a mesa, o bule, as paredes, os vidros das janelas refletindo e deixando a luz solar atravessá-los...
Olhei tudo ao redor: As tragédias e desastres causados pelas chuvas, os desabrigados e mortos.
Olhei tudo ao redor: Meus amigos e inimigos, meus sonhos e os sonhos dos meus amigos... e também os sonhos dos inimigos.
E a melancolia doce/amarga se constituia em mim como a síntese de tudo isso aliado ao conhecimento de que tudo isso possa estar totalmente desprovido de um sentido, desprovido de finalidade.
A melancolia tornou-se silêncio, que tornou-se admiração e se transformou em espanto!
Olhando tudo ao redor: os pássaros cantando, meu cachorro me observando, os pedreiros barulhentos ao lado de casa trabalhando, a televisão ligada, o bule na mesa... e os pedacinhos de bolacha que eu havia deixado cair no chão.
Só por que não haja finalidade, não se pode concluir que nada deva ser feito.
Só por que não haja sentido, não se pode concluir que nada deve ser valorado.
Só por que não haja valores absolutos... Não significa que não possamos valorar coisas.
E só por que as moscas e ovelhas lutam desesperadamente para não abandonar as ilusões da régua ilusória transcendente... Isso não significa que nós não devamos criar e construir novas medidas, novas réguas, novos modos de ver, novas lentes, novos olhos!
E a boca fala... do que o coração está cheio!! E o mundo humano nasce e morre na boca do próprio humano!!
No caso do rebanho contra os espíritos livres, a sentença é: CULPADO!
domingo, 3 de janeiro de 2010
Olha a chuvaaaaa! NÃO É MENTIRAAA!
De acordo com o g1, , mais de 12 mil pessoas estão desabrigadas por causa das chuvas e suas consequências (http://g1.globo.com).
Em Angra dos Reis, segundo o site da folha (http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u674091.shtml), os mortos já passam de 44.
São tragédias, são catástrofes a que todos nós estamos sujeitos, não somente alguns.
A maior parte das mensagens de conforto dizem: "Só deus para ajudar", "que deus conforte os que estão desabrigados" ou "tal pessoa sobreviveu por um milagre", e ainda: "a casa de fulano não foi atingida por causa de um milagre"
E todos os outros que não tiveram acesso a esta "seleção de milagres"? Deus, então, estaria poupando alguns escolhidos (uma minoria incrível) em detrimento de uma maioria imensa?
Quem perdeu tudo não diz exatamente isso! É fácil para quem está de fora desta tragédia dizer que deus poupou alguns e aos outros restou a violência da natureza!
Por que ninguém ousa pensar na possibilidade de que deus também tenha causado esta catástrofe, já que ele pôde também "salvar" a alguns por "milagre"?
Sinceramente? Não há espaço para discutir questões em torno deste assunto! Resta apenas que uns ajudem os outros! Resta apenas a solidariedade! Deus simplesmente é questão para dentro das igrejas. A realidade testifica uma coisa bem mais urgente, bem mais importante: são humanos que estão sofrendo e que precisam de ajuda humana!
Se Deus realmente estivesse preocupado com alguma coisa, seria muito mais conveniente poupar a todos estes que estão sofrendo. Se ele pode fazer milagres, então por que não impedir que tudo isso acontecesse? Isso, porém, é tão banal, pois olhando toda a tragédia em sua totalidade, não há deus! Há, nesta visão aterradora, apenas a força da natureza! E cabe aos que estão bem ajudar os que perderam tudo!
A responsabilidade do que ocorre aqui não é de deus, é dos homens!
O problema é bem mais embaixo!
Diz respeito ao Estado, que não promoveu nem assegurou moradia digna para muitos; diz respeito também à pavimentação dos centros urbanos; diz respeito ao lixo; diz respeito ao aquecimento global que a própria sociedade provocou; diz respeito ao modo como subjulgamos a natureza aos nossos próprios interesses!
Não podemos ser hipócritas e tentar amenizar nossa culpa! Há, sim, o elemento de imprevisibilidade dos fenômenos naturais, mas não explica tudo! Há o elemento que diz respeito às consequências das ações humanas no planeta em que vivem!
Num momento como esse, a reflexão a ser feita é exatamente neste sentido, ou seja, até que ponto queremos continuar agimos como agimos em relação à natureza, tratando-a como coisa hierarquicamente abaixo de nós, podendo ser dominada e explorada? Ela testifica contra nós que não temos controle sobre ela!!
Até que ponto podemos defender um Estado corrupto que não cumpre com suas obrigações de defender e promover os direitos de seus cidadãos? E até que ponto vamos utilizar desculpas como "deus" para analisarmos catástofres naturais (e com fundo de culpa humana)?
Ou realmente achamos que este tipo de fenômeno é totalmente normal? Por que então já não ocorre com frequência há mais tempo? Por que está ocorrendo com mais frequência a poucos anos do que há anos atrás!?
Então, é isso! Quem pode ajudar com doações, ajude! Quem pode ser voluntário, seja voluntário! Mas rezar ou orar não vai resolver absolutamente NADA!
Uma mão trabalhando é mais eficaz do que duas orando!
E o capital? Capital que nada!!!
Existem problemas bem maiores que isso, meus caros!
-Tipo o quê?
Sei lá, meio ambiente, enchentes, desastres ecológicos!!!
-Mas... Não é exatamente por que o homem tratou a natureza apenas como um meio de produção social que agora ela está entregue ao seu próprio colapso? Quer dizer... A culpa de que haja uma mudança climática tão brusca e um desequilíbrio da natureza não é nossa?
Sim... quer dizer, não! Não sei como explicar isso, mas nós temos que pensar em meios de salvar o nosso meio ambiente, reduzindo a taxa de carbono liberada no ar, definindo metas pelas quais os países se obriguem mutamente a produzir menos para poluir menos, ou ao menos encontrar formas de produzir sem poluir!
-Há! Mas se para poluir menos é necessário produzir menos... Acho que não vai resolver nada definir meta alguma. Ninguém vai querer sair perdendo, ou vai?
Olha, é preciso respeito com a natureza, e já temos muitas fábricas que cuidam do meio ambiente, que investem neste sentido... sabe?
-Hum, sei! Mas por que é que ninguém questiona esse sistema? Por que sempre ficam tentando tapar os buracos das vestes com remendas e trapos ridículos, não seria mais fácil trocar as vestes?
-O quê? Você é louco? Isso é um absurdo!
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Sobre a morte ou: ixi, fudeu!
Desde que eu entrei no admirável mundo acadêmico (não é grande coisa...) eu já me preocupava com este TCC. Não tanto por ser um TCC, por meio do qual posso adquirir (depois de ter pago muita grana também) um diploma de bacharel. Isso não é tão importante assim. Mais importante era eu conseguir adentrar o mundo da filosofia com o pé esquerdo (marxista nenhum gostaria de entrar com o pé direito...)
Eu, antes mesmo da faculdade, já lia algumas coisas sobre filosofia, psicologia (o que não ajudou muito). Eu queria, então, pensar de forma original, com conteúdo e de forma correta. Queria (e quero) fazer minha história na filosofia. Queria que o tema que eu escolhesse para pesquisar no TCC fosse uma porta para que eu pudesse dar continuidade a um pensamento filosófico... Parece que eu consegui este tema.
A morte tem sido, em toda a história da filosofia, tratada apenas como coadjuvante... Mesmo que Sócrates tenha dito que o filósofo se prepara para a morte, sempre a morte é encarada como uma passagem, uma ponte para outra vida.
O pouco que se fala na morte, fala-se apenas nos aspectos mais espirituais. Não se considera que esta é apenas uma das hipóteses, não a única, não a correta.
Quis, então, me afastar de toda a espiritualização da morte. Quis encará-la como a natureza nos mostra. Schopenhauer diz que a natureza nos tem mostrado a morte sempre como um fim, um fim mesmo, não um outro começo.
Eu decidi encarar a morte, portanto, como sendo um dado final da existência dos que vivem.
Sei também que esta é também uma outra hipótese, outra conjectura! Mas... e daí? Vivemos sob a hipótese de que há vida após a morte desde que nos conhecemos por humanos... Qual o problema de olhar outros aspectos? Absolutamente nenhum! Muito pelo contrário, é saudável termos outros pontos de vista, pensarmos as possibilidades, posto que o ser humano tem lá poucas certezas... Mesmo a ciência moderna não pode ter tantas certezas. A mecânica quântica é um destes elementos que vieram para mostrar que no mundo atômico, no mundo dos prótons e dos neutrôns não há previsibilidade. E, sim, se deus existir, ele é chegado num joguinho de dados! ¬¬
A ciência é, como disse Nietzsche, embebida de decadência, pois pressupõe a existência de uma verdade. Recorta a realidade segundo seus métodos afiados e determinam sobre a realidade uma fórmula X, mas isso não significa que a realidade é toda controlável, nem que poderemos ter o conhecimento total das coisas.
Partindo, então, deste pressuposto de que a morte seja exatamente aquilo que todos temem que ela seja, o fim, eu iniciei minhas leituras, minhas observações e conversas com o pensamento de outras pessoas ( o que eu acho imprescindível para um bom pesquisador e filósofo).
E durante todo este tempo de observação, pesquisa, leitura e diálogos, tenho notado algumas coisas importantes para meu trabalho (como detesto a palavra trabalho...)
Num primeiro momento, o que ocorre com mais frequência é as pessoas se afastarem do assunto, tentarem mudar o tema da conversa, encontrar meios para fugir de falar na morte. A maior parte das pessoas, cada uma com suas próprias justificativas, dizem que este assunto é muito pesado e que não deveria ser discutido.
É claro que ninguém vai ficar falando sobre a morte num pique-nique. O problema, porém, não é esse, mas se trata de não falar sobre a morte nunca sob quaisquer aspectos que sejam!
E aí eu me perguntei, para problematizar a pesquisa, por quais motivos as pessoas se posturam de tal forma diante de um assunto tão certo, tão possível, tão iminente como a nossa morte?
E as conclusões foram muitas, várias, inúmeras. Tradição, superstição, medo, preguiça... e outros.
O que me interessou em tudo isso foi que, realmente, somos uma raça (a única) de seres vivos que sabem que vão morrer, mas que jamais se permitem pensar mais profundamente sobre isto.
Quer dizer, somos os únicos animais que sabemos que vamos morrer, mas fingimos que não sabemos de nada! Mascaramos nossos medos e pensamentos sobre a nossa morte, criamos subterfúgios aos milhares para escapar da iminência do fim; vivemos como se fossêmos imortais... e as religiões dão bastantes argumentos para que este sentimento de imortalidade permaneça.
O fato é que nenhum de nós sabemos se há ou não vida após a morte, não podemos ter certeza sobre isso. Os vivos só sabem que estão vivos, apenas os mortos conhecem a morte, ou seja, nenhum vivo pode experimentar a morte de forma total e completa!! Se isso acontecer deixará de ser vivo para tornar-se morto, oras!
Recorrendo à mitologia grega, podemos até ter algumas vivências parecidas com a morte, como o sono, por exemplo.
Na mitologia grega, Tânatos (a morte) era irmão gêmeo de Hipnos (o sono). O sono é semelhante à morte, também o é o desmaio e o esquecimento. E sob estes aspectos, todos nós sabemos algumas poucas coisas sobre como a morte poderia ser.
Schopenhauer ainda propõe outro elemento, a saber, a eternidade que passamos antes do nascimento. Isso é o mesmo que chamar a atenção de todos para pensar também naquele tempo em que ainda não existíamos, do qual não temos medo algum, no qual nem ousamos pensar. Ele propõe que esse desinteresse que sentimos em relação a este nosso tempo de inexistência antes do nascimento seja também dirigido em relação ao que pode ou não vir depois da morte, pois, segundo ele, o não-ser post mortem(após a morte) não pode ser tão diferente do não-ser antes do nascimento.
Sobre o sono e o desmaio, e também sobre o tempo antes do nascimento, há um elemento em comum entre eles com a morte que é o adormecimento da consciência. No sono profundo, no desmaio, no tempo antes do nascimento e também na morte não há resquício de consciência!
Nos primeiros elementos (sono, desmaio, tempo antes do nascimento) não sentimos dor, não sentimos tristeza, nem alegria, nem amor, nem ódio. Então, pergunta Schopenhauer... o que é que nos faz temer a morte de forma tão irracional?
O que nos faz temer a morte é exatamente o que nos faz lutar para viver, é o medo de perder o corpo, é o medo de que morra o nosso organismo. A mesma vontade de viver é também o medo de morrer, são duas faces da mesma moeda.
Para Schopenhauer, porém, o consolo que nós podemos ter em relação ao medo da morte é que do mesmo modo que saimos do seio da natureza (no caso, do seio da vontade que move o mundo e a natureza), por meio da morte retornamos a ela, é como se nos dissolvêssemos nela. Para a natureza, que é indiferente ao indivíduo, nós não significamos nada, o que permanece é esta vontade.
Já para Nietzsche, esta experiência da morte é vivenciada o tempo todo.
O homem não é dualismo como quer Platão (alma/corpo), ou trigonomia (como quer o cristianismo (corpo/alma/espirito), o homem só pode ser multiplicidade, pois nele há milhões de organismos vivos, de células, de forças que lutam entre si para que nós possamos continuar existindo. Ou seja, para que uma célula do meu corpo sobreviva, é necessário que outra morra, e isso ocorre continuamente. É o mesmo que dizer que morremos continuamente. Desta forma, a morte não é um fato distante, mas um fantasma totalmente presente, é uma sombra que jamais se afasta.
A morte, portanto, como a entendemos (num caixão, e sendo enterrado) é apenas mais uma de nossas mortes, porém uma que é completa e total, ou como disse Heiddeger: "o fim de todas as possibilidades".
Independente se nos dissolvemos na natureza ou não, como quis Shcopenhauer, o que importa é que quando um indivíduo morre, se desfaz também sua consciência! E para a consciência a morte se constitui um dos piores terrores.
A consciência funciona, como disse Feurbach, com tendência ao infinito (que isso não sirva de argumento para tentar provar a existência do infinito - só por que ela tenda ao infinito, não signifique que exista) Para entendermos melhor, sem confusão, basta pensar que o conhecimento, para que exista, necessita de uma consciência capaz de avançar, de se superar, ou seja, não há limite para o conhecer. SE vivêssemos imortalmente, sempre estaríamos conhecendo, cada vez mais! Só não podemos conhecer mais por que somos finitos, morremos.
Se a consciência tende ao infinito, nestas condições que consideramos acima, ela não pode, ela não é capaz de conceber a finitude, ou seja, a morte é um disparate, é um paradoxo dos mais absurdos para a consciência. E, tenho por mim, que esta é a melhor explicação para o por que de criarmos tantos subterfúgios, tantas máscaras para a morte. No fundo, tudo está relacionado a este absurdo que é a morte para a consciência humana.
O ser humano é o único que pensa, é o único que pode conhecer, que tem natureza cogniscitiva, que tem capacidade de acumular conhecimento, transformar e modificar o conhecimento adquirido. E nisto consiste o paradoxo, ou seja, que sua consciência, por causas de estrutura cognitiva, tende ao infinito, mas que seu organismo seja finito. Aqui também "jaz" a explicação do surgimento da dualidade corpo/alma e também da dualidade mundo sensível/mundo suprasensível! Já desde muito que o homem percebeu este paradoxo. O problema é que por mais paradoxal que seja, finito e infinito são elementos que, no homem, são... dialéticos. Não há como separá-los, a não ser por meio da morte, quando a consciência, junto com o corpo, cessa de existir. O corpo, na verdade, deixa de funcionar, ele permanece existindo ainda por um tempo, mas logo também, por causa da putrefação, deixará de existir. Quando digo que corpo e consciência deixam de existir, estou querendo dizer que corpo e consciência são uma e a mesma coisa, não há distinção, pois só há consciência enquanto há corpo. Até agora, pela experiência, o que sucede é que a consciência só existe, por que há todo o funcionamento do corpo, não se tem ainda nenhuma prova pela qual se possa dizer que a consciência possa funcionar sem o corpo. Concluo, assim, que consciência é parte do corpo, é também organismo partícipe do corpo, tal como é um rim, um coração ou o pâncreas. De fato, todo o conhecimento que temos é fruto de conexões neurais, que podem, inclusive ser modificado por estímulos elétricos em determinadas partes do cérebro. Quando, em casos de doenças mentais, parte do cérebro é afetado, é afetado também tal ou tal capacidade cognitiva, como o raciocínio lógico, a percepção tátil, a visão ou qualquer outro sentido pelos quais nós acessamos o mundo.
Qualquer hora dessas eu venho escrever mais!
Uma Carta...
Sonho, morte ou realidade?
“Para quem interessar”:
Não sei que dia é hoje, nem que horas devem ser ao certo. Sei que estou aqui, que estou respirando, vendo pessoas ao meu redor, ouvindo diversos timbres de vários instrumentos, e percebendo diferenças entre os sons musicais e o som das diversas vozes a conversar. Sei isto, por que meus sentidos enviam isto ao meu cérebro. Por alguma razão que desconheço eu acredito piamente que tudo é verdade. Talvez por tudo ter sido exatamente desta maneira desde que me recordo, desde que me conheço por gente: sinto, portanto existo!
Hoje, penso, parece um dia como qualquer outro: as gotas de chuva caem com leveza delicada sobre a terra, e esta exala um odor úmido e único. Mas há uma exceção, há uma fagulha de desconfiança que paira sobre a mente… E é justo a minha, a minha mente, como sempre, claro!
Não sei… Todavia… algo dentro de mim persiste em repetir uma mensagem, pelo menos é o que eu creio ser: uma mensagem. Como se em mim vivesse outro “eu”, um outro ser dentro de mim. Pode ser uma frase, um ideal, um conceito ou simplesmente… Uma mensagem. Pra ser sincero eu mesmo não consigo discernir, mas com freqüência estas estranhezas me ocorrem.
Este “outro eu” me desvendou um outro lado de tudo, um detalhe que eu ainda não percebera: “Porventura… Se… Será… que todos nós não estamos vivendo numa eterna e contínua utopia? Será que a vida, a morte… nós mesmos… não passamos de um breve sonho e na pior das hipóteses: um pesadelo?”.
Quando eu ainda era muito pequeno (apesar de que ainda o sou na estatura física), sempre, ao olhar o céu estrelado durante a noite, ficava imaginando se tinha possibilidade de existir outro ser, idêntico a mim, tanto na personalidade, quanto no temperamento, mas que reagisse de outra forma diante das mesmas circunstâncias que eu enfrentei aqui.
Talvez em um dos muitos planetas, universos ou galáxias o meu “eu verdadeiro” estivesse vivendo.
Fico observando como minha mente viaja tão longe, e perscruta idéias tão absurdas!
Se bem que agora, crescido e adulto, posso dizer que, na realidade, nada é mais absurdo do que a própria vida (e se este termo será levado para o bom ou o mal sentido, vai de cada um). Tanto as ilusões nas quais acredita uma criança, quanto as inúmeras idiotices gigantescas e grosseiramente loucas que nós, adultos, defendemos são um completo absurdo.
O problema é que… Se estes meus pensamentos são verdadeiros, (e temo extremamente por isso): que tudo e todos são apenas sonho…
Ponho-me em um divã (em verdade coloco este “eu” no divã) e pergunto a mim mesmo: se tudo é um sonho (ou um pesadelo), é certo que em algum lugar eu, no caso o meu “eu verdadeiro” esteja dormindo, ou talvez em coma, ou ainda esteja passando por uma experiência de “quase-morte”.Caso seja assim… Todos os meus vinte e cinco anos, minhas lembranças boas e más, meus amigos e inimigos não passam de montagens abstratas e randômicas do cérebro deste “eu verdadeiro” sobre a realidade verdadeira (já que a minha realidade é o sonho) enfrentada por ele, e que no momento está dormindo.
Uma coisa pelo menos me consola se estas loucuras forem verdade: posso confiar que nada deste sonho foi inventado, apenas modificado sem uma ordem prévia.
É complicado explicar isso pra você, pois eu nem sei quem você é e como está reagindo a esta carta. No entanto, eu escolhi você. Vai que eu tenha morrido e você esta lendo esta carta por que o destino quer que você me ajude a encontrar a luz? (…) Estou brincando, seu idiota!
Minhas pálpebras não se unem, e quando, vez por outra, isso acontece, logo os pulmões gritam e perdem o ar. Quando o pulmão está tranqüilo, o coração entra na era contemporânea musical, e sai do ritmo, sai do compasso, quebra o padrão. Vou me esvaindo, caindo em nenhuma direção.
Pense bem: como é que os homens podem afirmar que em um ponto determinado da Terra é o Norte, e em outro é o Sul (que uma parte é o alto, e outro é o baixo) se a Terra é redonda, e a uma circunferência não se encontra lado algum? E ainda: Como eles podem ter certeza que o Norte é para cima, se não sabemos onde é o teto do Universo? É exatamente por este motivo que eu caio indo pra lugar nenhum, por que eu não sei qual é o lugar de algo, ou se há mesmo um lugar!
Você está me compreendendo? (…) Não, né?
Bom, minha cabeça está estourando, não por estas questões complicadas, mas por sono mesmo. Estou com medo de dormir! E se na verdade o meu “eu verdadeiro” é quem está dormindo, e em seu sonho eu aqui estou sentindo sono só por que no sonho dele ele quer que seja desta forma? Concluo que todas as minhas necessidades não passam puramente de um sonho, e por isso são irreais. Posso, então, ficar sem dormir? Certamente que não, pois se eu agir assim vou adoecer. E adoecer também é um sonho! E morrer? Morrer? Morrer também é um sonho, oras! Só que se eu morrer no sonho do meu “eu verdadeiro”, nem por isso meu “eu verdadeiro” terá deixado de viver! Então ele tornará a me trazer à vida (mesmo que esta também seja um sonho) para me fazer viver novamente todas estas maravilhas (no pior sentido da palavra).
Apesar de não ter certeza de tudo (o que é muito anormal) disto eu não duvido: em algum lugar, sonhando ou não, eu, ou o meu “eu verdadeiro” estou (á) vivo.
Isso não muda nada. Não me afeta em nada.
Hã? Se afeta meu “eu verdadeiro”? Aí eu não sei. Você teria que perguntar para ele!
-Pode falar… Sim… Entendo…
Pois, que seja… Se tudo isso for realidade… A conclusão pode seguir dois caminhos,
primeira: eu estou realmente sem nada para fazer de proveitoso. Ou,
segundo: Eu estou realmente lesado e desequilibrado.
Mas o que importa? Eu duvido que exista alguém no mundo, vivo ou não, que possa afirmar alguma coisa acerca desta vida de interrogações.
Então… Qualquer tese, qualquer hipótese e teoria devem ser consideradas dignas de algum aprofundamento, inclusive esta minha tese absurda!
Tchau!
Daniel Vieira de Carvalho
09/04/2008
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Resenha do livro: Genealogia da Moral. Nietzsche, Fredrich. Col. Grandes Obras do Pensamento Universal – n°20. Ed. Escala. SP – SP.--
Todos os conceitos são construídos socialmente num processo histórico. Sendo desta forma, Nietzsche procura em quais lugares históricos do pensamento da humanidade a moral e ética nasceram. Analisa a criação de conceitos fundamentais para a eticidade atual dentro do contexto em que foram criados.
A noção de conceitos criados humanamente é já, em si mesma, uma crítica à filosofia platônico-socrática, a qual ensina que os conceitos e idéias não podem pertencer ao mundo sensível, posto que os sentidos são enganosos, e por isso ficam “flutuando” no mundo das idéias...
Nietzsche não está preocupado em descobrir se foi alguma divindade que ordenou ou não quais preceitos morais deverá seguir a humanidade, pois já chegou à conclusão de que os preceitos morais dizem respeito aos homens e mulheres apenas, logo não são transcendentes, porém, imanentes à natureza.
O livro se divide em tratados, a saber:
1. A origem de “bem e mal” e “bom e mau”;
2. Falta, má consciência e fenômenos;
3. O que significam ideais ascéticos?
Não há como negar que Nietzsche seja polêmico, dada a forma como ele escreve seus textos, que sempre estão acompanhados de uma boa “pitada” de crítica apimentada. Entretanto, não se pode desprezar o pensamento de uma pessoa só por contrariar o pensamento de uma maioria, pois nem sempre a maioria fala a verdade. Em verdade, temos grandes exemplos de grandes maiorias cometendo graves equívocos.
Escreve em forma de aforismos, que segundo o próprio Nietzsche, requer uma arte de interpretar, isto é, aforismos são pedras a serem lapidadas com calma. Para compreender bem seus aforismos é preciso ser quase vaca, é preciso ruminar.
No primeiro tratado, o filósofo separa moral em duas espécies: a moral de escravos e a moral de senhores.
Ele entende por nobre aquele em quem há uma afirmação positiva de si-mesmo, aqueles que eram os dominadores, os poderosos, os senhores; nobre é aquele que age positivamente na construção de seu si-mesmo por meio de si-mesmo. Difere-se do ressentido na medida em que para sentir-se feliz e bom precisa partir de si mesmo para tal, não de outrem.
O ressentido, por sua vez, é aquele que para construir sua felicidade, precisa comparar-se a um outro que lhe é diferente, um não-mesmo (um que não seja si-mesmo); este outro a quem se compara lhe é superior. Desta comparação nasce a inversão de valor “bom” e “mau”: “Bom sou eu, que sou inferior ao nobre (aquele que age) e mau é o nobre que, por ser superior a mim, me inferioriza”. Note-se que o ressentido sofre nesta comparação que ele mesmo faz, sente-se retraído, ofende-se. Ao comparar-se culpa o nobre (que lhe é superior) como causador de sua inferioridade. O ressentido, portanto, é aquele que sofre uma ação, e apenas por meio desta ação sofrida é que age, isto é, reage.
Essa moral ressentida é a moral de escravos que cria valores negativos em relação ao outro e ao próprio sujeito ressentido.
O sim que o nobre diz, diz a si-mesmo; o não que o fraco (ressentido) diz, não diz a si-mesmo, mas a um que não é si-mesmo, a um não-mesmo, negativiza o superior e o diferente de si. É exatamente sob este aspecto que surge o niilismo, que nada mais é do que todo este processo do ressentimento em negar, em dizer não à vida, à vontade de potência que é inerente à vida e à natureza.
No segundo tratado, o autor descreve a origem da má consciência, que é exposta como os instintos reprimidos que não se exteriorizaram e então se voltam para dentro, contra o homem mesmo que possui esses instintos; e da noção de dívida, proveniente das relações entre credor e devedor, é que surge a idéia de culpa.
No último tratado, sobre o ideal ascético, o filósofo batalha contra os negadores compulsivos, ou seja, aqueles que negam a vida, a natureza, os princípios básicos de vida.
Para resumir de forma simples, porém, contundente o que significam os ideais ascéticos para este homem, que eu considero, um dos mais ousados filósofos, podemos usar uma frase do próprio livro:
“O ideal ascético tem sua origem no instinto de proteção e de salvação própria a uma vida em degenerescência.”
Há muito o que se aprofundar nesta pequena frase e podemos seguir os mesmos caminhos de Nietzsche para entende-la.
O ideal ascético professa, direta ou indiretamente (mais indiretamente do que diretamente – os leitores de Nietzsche entenderão bem se eu falar em becos, valados e lugares escuros), que a vida não é um fim em si mesmo, porém apenas um meio para se chegar a uma outra vida que estaria no além. Explicando de outra forma, a vida é enxergada como uma ponte, um teste, uma passagem... A vida ascética é vida post-mortem.
Nas palavras de Friedrich:
“Um modo monstruoso de apreciar a vida não é um caso excepcional na história humana; constitui um dos estados, de fato, dos mais gerais e mais duradouros”.
Este ideal, portanto, foi visto pela sociedade como o único ideal possível de ser vivido. Não houve nenhum outro ideal que lhe servisse de oposição (pelo menos os que tentaram não conseguiram).
Nietzsche também critica os cientistas modernos como aqueles que possuem em seu interior a força propulsora do ideal ascético, pois acreditam ainda na existência da verdade, são seus defensores.
A gênese do ideal ascético se encontra justamente no ponto em que o homem sentiu necessidade de dar sentido para o sofrimento, como vemos:
“O homem, o animal mais corajoso e mais acostumado ao sofrimento não diz não ao sofrimento em si; ele quer, ele até o procura, supondo que lhe seja indicado, um sentido de que seja portador, um para além do sofrimento. É o vazio de sentido do sofrimento, não o sofrimento, que constituía a maldição que pesava sobre a humanidade até hoje – e o ideal ascético lhe oferecia um sentido!”
Traduzamos isso: Contra a falta de sentido, contra a falta de certeza, contra a natureza da mudança, presente na vida, nasce o asceticismo, dando um sentido ao “por quê” do sofrimento, retirando do homem o perigo do niilismo. Entretanto, as conseqüências são bem piores do que se imaginava, criou-se um homem ressentido em relação à vida... Poderia parecer melo-dramático, mas podemos usar até a palavra mágoa neste contexto. Esta mágoa, porém, é reativa, pois se trata de estar magoado profundamente com a vida, de tal maneira que a ação do homem agora converge para nega-la, e, tendo reagido assim, construir todo um ideal pós-morte, onde exista uma outra vida, mais digna, mais aceitável e sem... Sofrimento!
Concluindo a resenha, sinto necessidade de acender uma lamparina nesta escuridão e trazer para mim os olhares de todos os que criticam Nietzsche (os que leram comentários sobre ele e não suas obras mesmo). Por meio do perspectivismo proposto pelo autor, devemos levar em consideração todos os pontos de vista... Entretanto, quais seriam os pontos de vista mais aceitáveis? Respondo: Aqueles que não denigrem, nem pretendem destruir a beleza da natureza e da vida no aqui e no agora!
primeiras dúvidas (no começo da filosofia...)
29.07.2008
Por um bom tempo fiquei entre a cruz da fé e a espada da racionalidade extrema, bambeando e andando na linha de divisão entre ambas.
Minhas dúvidas, que já eram consideráveis, aumentaram de tamanho e duplicaram em número, torturando-me com tal freqüência e furor que até o sono em mim se foi.
Eu sempre soube da existência de Deus[1], entretanto, minhas dúvidas foram – e ainda são – a respeito de como se fala sobre este Deus, de como se criam sistemas morais severos em nome dele.[2]
Percebi que, de fato, não é possível conhecer a Deus, posto que não é corpo, não participa do tempo e, sendo espírito (como supomos[3]), não pode estar em lugar algum, pois estar em algum lugar (ocupar espaço) é condição de corpos materiais apenas. Como, então, afirmar que ele esteja acima ou embaixo? (...)
07.12.2008
Creio poder acrescentar mais argumentos ao escrito anterior e bem mais suscetíveis de acerto.
Neste pouco tempo ocorrido desde 29 de julho até hoje muitas coisas mudaram, p’ra não dizer tudo, inclusive Deus[4]! Sei que isso pode soar estranho aos ouvidos cristãos, mas... Por que não? Tudo o que dissermos sobre Deus serão sempre meras conjecturas, nada que seja concreto ou comprovável!
Quem foi que afirmou a imobilidade e imutabilidade de Deus? Homens? Platão, Aristóteles, Parmênides, (se bem que estes filósofos falaram do Ser, não de Deus)? Homens inspirados por Deus? E como se pode afirmar a veracidade de uma inspiração divina no homem, cujos sentidos nunca dão conta de dizer aquilo que é!? Apelando à Bíblia? Sinceramente, isso não basta!
Se assumirmos a premissa de que Deus seja Eterno e Infinito, não podemos negar como conseqüência desta afirmação que homens ou animais finitos e mortais (não-eternos) jamais poderão ter conhecimento deste Deus, abarcar o Todo que este implica!
Por questões de linguagem mesmo, partindo desta linha de pensamento, não podemos sequer dizê-lo.
As palavras são conceitos, que são generalizações, que são meios de delimitar, definir, traçar uma linha em torno de um determinado objeto ou coisa para conhecê-lo na consciência. Continuando nesta via crédula, temos que concordar que é impossível delimitar, medir ou definir Deus. Se alguém, mesmo na consciência, disser que Deus é Justo, por exemplo, está delimitando algo acerca de Deus, proferindo uma definição (do latim: de finire = dar um fim), o que é um absurdo. Qualquer adjetivo usado será uma forma de definição.
Lendo a Bíblia, no livro de Êxodo, encontramos algo interessante que, supostamente[5], Deus disse a Moisés, quando este lhe perguntava seu nome: “EU SOU O QUE SOU”. Sinceramente? Estas seriam as palavras certas para tentar dizer alguma coisa mínima sobre Deus, pois diz algo e nada ao mesmo tempo. Deus diz que é. E se alguém lhe perguntasse o que ele é, responderia, dizendo que é aquilo que é! Não há explicação, pois explicar seria o mesmo que delimitar! Não há como predicar este sujeito que é.[6]
Se quisermos extremar esta constatação, podemos pensar em Deus como sendo o Nada, aquilo que é indizível, improferível e impensável.[7] Para uma consciência limitada como a nossa, SER O QUE SE É é nada mais do que nada. É algo sem sentido. Das coisas (entes) podemos dizer se é uma ou outra coisa: eu sou um homem, isto é uma cadeira, aquilo é um carro. Aquilo é o quê? É um carro! De Deus, porém, não se pode acrescentar nada mais do que a sua qualidade de ser-o-que-é.
Dada esta grande impossibilidade (grande e inegável para qualquer cristão), não podemos fazer vista grossa a este fato! Este ato seria uma completa ignorância e imbecilidade e não uma atitude de fé.[8]
E, falando em fé, é bom frisar que os argumentos que estamos usando são de pessoas que pretendem afirmar a existência e a divindade do Sagrado. Podemos e temos tantos e bem fundamentados argumentos que falam sobre sua inexistência... Que devem ser considerados também. Prefiro desconstruir a imagem deste Deus deturpado à imagem e semelhança do homem com os próprios argumentos cristãos sobre ele.[9]
Tenho absoluta convicção de que o que estou escrevendo e pensando não irá agradar a todos. Mas... Que importa? Nietzsche também não agradou a todos, mas conseguiu influenciar a muitos, dos quais eu sou um deles.
Deixando de lado minhas próprias convicções (muito escassas pelo visto) é preciso olhar este assunto com um pouco mais de atenção. Ou, do contrário, continuaremos com este pensamento ridículo e imperdoável, niilista e desumanizante...
Pecado é não olhar para todos os valores caducos, princípios e crenças passadas para analisá-las mais cuidadosamente e, caso seja preciso, abandoná-las de uma vez por todas.
É uma atitude nobre e grandiosa, mas não simples. Só um espírito livre e humano conseguirá tal façanha.
A voz de Zaratustra continua ecoando nas nossas cidades![10]
Daniel Vieira de Carvalho
OBS: As notas de rodapé acrescentei no dia 26 de maio de 2009, pois relendo o texto senti grande necessidade de comentá-los... Pensei que seria desonesto se eu simplesmente “deletasse” este texto.
[1] Esta minha afirmação fora feita cedo demais. Hoje eu já não sei nada sobre este nada, pois sendo nada não necessita ser pensado, questionado ou dito. Deus é algo vago demais para ser considerado até mesmo como hipótese.
[2] Até aqui eu realmente acreditava na existência desse Deus e, desta forma, procurei alguma maneira de justificar minha crítica aos livros sagrados que dizem aquilo que é impossível dizer, ou seja, predicam um Ser, que se considera superior e infinito. Predicar Deus seria para mim, naquela época, algo inaceitável e impossível...
[3] “Supomos” está relacionado apenas aos que acreditam nisso.
[4] Reconheço aqui a influência hegeliana na concepção do espírito da história que está em contínuo movimento dialético. Aceitaria a possibilidade de Deus somente se fosse um que não fosse absoluto, imóvel. Um deus que dança...
[5] Hoje eu sei o quanto de falsidade há nestas suposições!
[6] Princípio de não-contradição da metafísica de Aristóteles: Uma coisa não pode ser e não-ser ao mesmo tempo e sob o mesmo contexto. É justamente aqui que encontro uma das principais mudanças no meu pensamento, pois agora eu posso dizer com mais certeza que é impossível que a realidade esteja embebida apenas de dualismos. Dizer o que é e o que não é torna-se complexo demais. E devemos muito a Platão, Sócrates, estóicos e cristãos pelas catástrofes que esta vontade de verdade nos trouxe.
[7] Note-se bem que o que eu pretendia dizer com este Nada: era que Deus, por ser infinito, não pode ser pronunciado, logo torna-se nada na linguagem e no pensamento das criaturas finitas. Entretanto, já me livrei desta praga virulenta. Entendo este Nada (Deus) como sendo a inexistência mesmo, o nada apenas no seu sentido mais literal... Apenas nada!
[8] Me dou os parabéns por ter pensado de tal forma com a ingenuidade filosófica de antes. Se me libertei da doença de crer, devo isto a meus questionamentos, os quais foram excluindo do menor para o maior tudo aquilo que me era prejudicial.
[9] Como eu sou mal! Por meio de argumentos bíblicamente cristãos... Sou muito pecador!
[10] O final do texto está todo em itálico, pois reconheço ser um texto a parte que escrevi em data diferente do anterior, porém me falha a memória.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Eu Juro Que Tento!
Propus-me a escrever diariamente ou semanalmente tudo o que eu lesse, mas de forma que eu pudesse ler e analisar capítulo por capítulo de uma determinada obra.
O "x" da questão é que fazendo a faculdade fica difícil dar continuidade em uma leitura que não seja a que eu deva fazer para conseguir nota!!!
Incrível, não? Não! É o imperativo categórico de Kant que assombra o ambiente acadêmico.
Espero poder fazer isso com calma e sem restrições depois que terminar a faculdade.
Enquanto isso, vou manter essa porra de blog desorganizado mesmo.
Vou escrever sobre as leituras que faço sim, entretanto não esperem (ninguém e alguém) alguma ordem ou sequência! Não pretendo trabalhar cartesianamente neste momento crucial da minha alegre vida! (ironia)
Vamos ver no que vai dar!
Obrigado ao Ninguém e ao Alguém... Alguém não vem aqui já faz um tempo, hein! Estou com saudades!
tchau!
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Crepúsculo dos ídolos: como filosofar com marteladas
É bom lembrar a todos que as postagens novas antecedem as antigas, para ler na ordem correta comece sempre pelas postagens lá de baixo (sempre das últimas para as primeiras)
Crepúsculo dos ídolosNietzsche
2° edição. Ed: Escala. Col. Grandes Obras do pensamento universal - 28
Comecei a ler e estudar este livro do meu querido amigo Nietzsche hoje.
Pretendo fazer uma leitura um pouco mais demorada e bem mastigada do que as outras, por que não é trabalho da faculdade e não tenho prazo nenhum de entrega, portanto estou livre. Leio um capítulo já anotando e riscando tudo o que me interessa e o que é mais importante, para depois ler uma segunda vez, fazendo, então, uma síntese de tudo o que entendi. Depois de lido e sintetizado todo o livro, quero ler uma terceira vez para melhor compreensão.
Pois que seja, depois da primeira leitura de cada capítulo virei aqui para escrever o que somente eu irei ler.
Se houverem leitores pacientes e dispostos a dizer algo sobre o que escrevi, ficarei feliz
Se não houver, não ficarei triste, pois tenho leitores pacientes e fiéis!
Paciência é uma coisa que Ninguém tem... e de sobra!
Por esta paciência tenho que, desde já, dar meu muito obrigado ao Ninguém, este indivíduo que se faz presente em todos os lugares em que Alguém não está, e que lê todas as coisas que eu escrevo!
Se um dia disserem que Ninguém leu meus escritos, só estarão confirmando o que eu já disse, pois este Ninguém é um leitor fiél e mui digno de meu respeito!
Ao Alguém, leitor não assíduo, devo também alguns agradecimentos, pois ele aparece apenas nos dias em que Ninguém não aparece (o que é muito raro!). Por isso sou feliz, sempre há Alguém para ler o que Ninguém, por algum motivo justo, não teve oportunidade de ler!
Capítulo 1 - O problema de Sócrates
Nietzsche critica a dialética, mas o que me parece é que ele critica mesmo é a finalidade com que a dialética foi utilizada por Sócrates, um instrumento do oprimido para refutar a vitória do maior, do mais forte (é o que ele diz).
Eu penso que a dialética seja um instrumento bom para entender a realidade, já que nada é como Parmênides disse: É ou não é! Tudo está em um processo contínuo de mudança, portanto, a dialética, neste sentido, seria a forma mais acertada de entender as mudanças.
Não estaria discordando de Nietzsche neste ponto, estaria? Acredito que não! Tomara! Apesar que se estiver agindo assim... Foda-se! Ele está morto mesmo! rsrsrsrs!
Nitzsche é mesmo o cara! Uma frase que sintetiza o que ele pensa sobre Sócrates e todos os seus discípulos doentes é:
"[...] Estar obrigado a lutar contra os instintos - essa é a fórmula da decadência: enquanto a vida é ascendente, felicidade e instinto são idênticos." p33
Sócrates fez com que todos recorressem à razão em detrimento dos instintos. Vejo que essa é a crítica essencial do primeiro capítulo do livro!
"Sócrates não é um médico, cochicha ele para si mesmo: a morte é o único médico aqui... Sócrates esteve somente doente por muito tempo." p33