segunda-feira, 10 de março de 2014

Sobre o Sentimento de Pertencimento

Sobre o Sentimento de Pertencimento

Apenas as ovelhas sofrem desse mal. Os espíritos livres não pertencem a lugar algum, não têm título, não são de ninguém, enxergam os cercos e os limites apenas como impulso e sedução para ampliar sua própria liberdade, a liberdade de pertencerem a si mesmos.

Por muito tempo sofri e desgastei forças para ser admitido por grupos sociais, por ser aceito, por ser bem quisto. Agora eu vejo o engano de tal necessidade. Donde foi que tirei que eu precisava ser aceito? Não. Eu não preciso ser admitido em lugar algum, porque me admiti a mim mesmo, e que me lembro sempre me vi embrenhado em inúmeros bandos, partícipe de várias mesas de jantar, navegando, indo e vindo por aqui e por ali, reencontrando ou conhecendo pessoas de diversos tipos. O vento que me impeliu sempre foi este mesmo de saber internamente que o mundo todo é um tesouro a ser descoberto e que eu sou o descobridor.

Porque eu me impediria de alçar mais altos voos? Porque razão suficiente eu deveria me cercear o ímpeto de seguir o fluxo deste vento tão agradável e baixar as velas, ancorando meu navio, que é a minha própria vida, numa mesquinharia tão ofensiva ao meu próprio direito de devir?

Qual é o problema de estar no meio? Porque tanto me incomodava, e porque tanto incomoda que eu soasse em minha própria frequência? Seria, porventura, que eu, assim fazendo, não me subjugava a nenhum fardo que vós quereríeis colocar-me? Não, não carregarei fardo nenhum de vossa opressão. Não sou culpado por tamanha ignorância!

Para os espíritos livres cercos, linhas e formas são o vento que os empurra ao além. A única diferença que jaz entre uns e outros consiste na capacidade que alguns possuem de olhar para além do sentimento de posse, para além da mentalidade de bandos e para além de si mesmos. Sim, posto que ao encarar o próprio abismo interior é que se pode conhecer o outro - precisamente porque se permitiram olhar para além do próprio abismo interno.

Olha o abismo e ele te devolve o olhar.
Zaratustra! Oh Zaratustra, eis o meu próprio rio, o rio que somente eu posso atravessar.
Zaratustra! Oh Zaratustra, os navegantes são inumeráveis, mas a água é uma só.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Máquina de Moer Homens

Sabemos que todos morrem. Sofremos com a morte de nossos familiares, de amigos, de animais de estimação, e sofremos também quando vemos mais uma vez a grande máquina negra humana de aniquilar outros humanos, tal como o que ouvimos a respeito do governo de Assad quando trucidou mais de 11 mil presos (veja aqui

Ficamos horrorizados com as inúmeras manifestações do corpo orgânico social e de todos os sinais funestos de exaustão e decadência, das falanges extremistas que começam a retomar seus lugares no palco de vários países, incluindo o Brasil – apesar de pouco ou nada ser, de fato, discutido ou desvelado para as grandes massas. E nem estamos contabilizando as outras miríades de "números" que morrem nos âmbitos de trabalho, ou dos que caem nos campos modernos de concentração dos totalitarismos ocultos em escolas, empresas e em inúmeras instâncias de nosso mundo; sem contabilizar os que, mesmo que mantidos vivos, são oprimidos e tratados como escória e lixo não reciclável, tais como os moribundos, os velhos, os doentes terminais, os que possuem alguma debilitação mental grave, os mendigos etc.

Os economistas, empresários, líderes e governantes sabem perfeitamente bem da dimensão trágica pela qual passamos, metaforicamente como se fosse um grande umbral, literalmente a degenerescência e putrefação das estruturas de nossa civilização. Eles, porém, insistem num diálogo pacificador, moralista e piegas que escamoteia uma grande teia de informações e estatísticas que poderiam gerar, ou usando termos mais psicanalíticos e junguianos, que poderiam fazer emergir o mal estar e as sombras de uma doença interna que já nos estava corroendo lenta e sutilmente (nossas instituições, movimentos sociais, ONGs, ativismos políticos desarticulados e jovens se debatendo continuamente sem sequer possuírem uma centelha de luz a respeito do que realmente ocorre no núcleo fundamental desta crise social-geral que enfrentamos, e que são indicativos de que não somente estes órgãos entraram em colapso, mas o sistema todo que os mantinha em pleno funcionamento). Também eles, estes gestores do sistema (ainda que tal termo me incomode pelas conotações defasadas que possui, mas que é o que melhor serve à nossa reflexão), estão igualmente presos a esta grande teia de confluências funestas e temem, tanto quanto nós, um colapso que poderia expor a barbárie e a dissolução desta frágil e efêmera ordem social.

Sim, não se trata de pontos críticos isolados, desconexos e/ou aleatórios. Trata-se de manifestações interrelacionadas que apontam para um problema muito mais grave e que açoita toda a humanidade atual: a morte e a ruína das próprias estruturas de nossa civilização moderna. Esta crítica é radical exatamente neste sentido, porque aponta uma crise que é desdobramento consequencial de ações e paradigmas, de conceitos e estruturas natimorfas. Já estamos numa época em que tais apontamentos se fazem necessários, não podemos mais aceitar aquelas discussões estéreis e cansativas que tratam apenas dos efeitos, mas não das causas. Perdoem-nos os otimistas, mas trata-se de um momento histórico e todos nós fomos jogados na arena, todos, não há distinção nenhuma. Esquerda, Direita, Apolítico... isso já não importa mais. Ou tomamos consciência de que se trata de uma Humanidade total que está dando sinais de falecimento, ou estamos fadados ao susto daquela metáfora do "ladrão na noite"...

Não nos importamos se alguns nos ridicularizem, taxando-nos como profetas apocalípticos, ou se nos rotularem como loucos e termos parecidos ou mais gruturais, porque sabemos exatamente em que se baseia nossa crítica. Na verdade, bradamos aos quatro cantos que qualquer pessoa pode tomar consciência desta nossa condição se analisar com rigor, critério e coragem a lógica interna dos nossos modos de produção social, a produção social da própria loucura, a produção social de tumores sociais, a produção social da barbárie.

É preciso enfrentar as superfícies e descer um pouco mais aos infernos desta sociedade, mas não é preciso descer tanto, pois o câncer já se expandiu o suficiente para, como erupções cutâneas, jorrar pus e sangue, sangue por todos os lados, em nossas cidades, centros urbanos, áreas rurais, ilhas, países inteiros e que começa a assombrar todos os nossos continentes.


Talvez tudo isso soe em alguma frequência dramática e exagerada,  mas que podemos fazer diante da dor, a não ser recorrer à metáfora para, como um último esforço, alertar a todos disto que já não pode ser nomeado sequer como sono da ignorância(por mais que Hipnos seja irmão gêmeo de Thanatos), um esforço de escancarar que nossos paradigmas estruturais nos corromperam de tal forma que estamos todos prestes a morrer?

O Necrotério Filosófico se propõe analisar este grande corpo social atual, os sinais de sua falência e criar minimamente espaços de discussão, reflexão e possíveis intervenções. 
Mesmo que diante de um cadáver a intervenção última seja a de enterrá-lo...

Daniel Vieira de Carvalho
CEFIL - Taubaté/SP

Retirado de: http://necroteriofilosofico.blogspot.com.br/2014/01/a-maquina-de-moer-homens.html

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Necrotério Filosófico

Queridos leitores do blog,

Eu participo do Centro de Estudos Filosóficos (CEFIL) que tem apoio institucional da UFVJM e tenho o prazer de, junto com todos os pesquisadores e colaboradores, convidar a todos para o Necrotério Filosófico.

O evento será realizado no mês de maio deste ano, na cidade de Taubaté, no Solar da Viscondessa de Tremembé.

Estamos lutando para concretizar nosso sonho de estabelecer espaços para discussão, reflexão e crítica à nossa sociedade. Movimentos de resistência ou de atuação para algum tipo de reforma em nossa sociedade não resolverá nossos problemas, precisamos entender exatamente qual é o problema que nos atinge e qual nossa real condição neste emaranhado confuso e conflituoso que é a modernidade.

Temos uma página no site Catarse, e pedimos, a quem puder, doações para realizarmos este projeto que visa oferecer à cidade de Taubaté a oportunidade de refletirmos nossa condição social, pensarmos as inflexões, os desdobramentos e as relações que surgem diante de nós nestes tempos em que a linha que separa a civilização humana da barbárie se torna tão efêmera.

Temos grandes desafios a enfrentar, mas a grande maioria das pessoas sequer consegue pensar a gravidade de nossa situação social, política, cultural, espiritual.

Teremos apresentações artísticas, musicais, debates etc. Precisamos de dinheiro para gastos com os materiais básicos, , café, despesas com folhetos, cenário.

Ajudem-nos na divulgação e no patrocínio. Obrigado!

Para mais informações, acesse:

http://catarse.me/pt/necroteriofilosofico

domingo, 5 de janeiro de 2014

Réplica da Recusa Afirmativa Negativizada

Porquê?
Porque sentimos dor?
Porque penso que há uma justificação para a dor? Há uma justificação para tal coisa?
Quê é a dor?
Porquê?
Porque a vida permite a efervescência da dor?
Qual o motivo causal da Dor que dilacera
desde a raiz do corpo e vai até a medula da alma?
Porque a dor se apresenta como passado, presente e futuro?
E porque temos a impressão suspeitosa de que a dor seja
um elemento eterno?
Porque parir é dor? E porque a morte assombra-nos
com a fantasmagoria da dor?
Porquê?

Como? Como surge a dor?
De onde ela vem e para onde vai quando cessa?
Ela cessa realmente ou eu apenas a deixo de perceber?
Como a dor se transforma em prazer?
E até que ponto o prazer pela dor não é
um mero reflexo de compensação
do ódio pela dor e pela frustração
de não sabermos como lidar com o sofrimento?

Como? Como transcender a dor no corpo sem abdica-lo?
Preciso, então, transcender o corpo, não a dor?
Como realizar tal façanha
se é o corpo quem me propicia a vida que tenho?
Devo, portanto, conformar-me com a dor
e, assim, com meu corpo e também com a vida que me deu o corpo?
Deu-me-o apenas para sofrê-lo, um mediador para a dor como uma meta?
Como é possível ver o meu corpo
e a vida deste corpo como veículos da dor,
se também é pelo corpo que sinto prazer no pôr do sol,
se é ele o único meio para sorrir
a alegria de uma noite estrelada
e sentir o frescor do inverno?

O quê é a Dor? E a Vida? E o Corpo? Quê? (...)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Profusão aquática gradual

15.10.2013
04h06m

As gotas de chuva tardia
Após as horas abafadas matutinas
Galantes e tímidas festejam
Sapateando com doçura em meu telhado

O cheiro amarronzado de meu jardim
Se instaura nos cômodos de minha casa
E o vento em brisa fresca que me afaga
Entoam a música da solidão noturna

Solidão soturna dos que dormem
Despertar sutil de meus morcegos
E aranhas, e cães, e gatos
Que, tal como faço,
Saboreiam uma carícia do clarão do luar...

A dança gradativa
Intensifica a gostosa curvatura
Dos pingos d'água que morrem
No último aceno à vida de gota

Eu as observo e as experimento
Morrendo, algumas, em meu corpo
Penetrando minha epiderme e biogênese
Presenteando-me com o torpor de bem dormir

Sob o som estético do chover
Numa augusta e abafada noite
Em que apenas eu escrevo - e vivo -

Desejo-as, daqui de meu quarto,
profusas dentro de minh'alma
Gotejando com maior aceleração
Turbulentas e passionais até que me afogue...

Que me afogue no barulho aquático celeste
De sua origem distante e próxima
Um presente em forma de Chuva...
Agora, Torrencial!

Daniel Vieira de Carvalho
(o Alabarce)


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Indústria Cultural, Wagner e Nazismo

Estou assistindo o documentário "Arquitetura da Destruição"


e achei que é um vídeo que tem muito a ver com a discussão da indústria cultural, principalmente no que diz respeito à estética nazista da propaganda (e não apenas da propaganda, mas da própria estruturação do discurso anti-semita - que, devemos reiterar, não é fenômeno exclusivo de Hitler e do partido National Sozialistische Deutsche Arbeiterpartei)
No livro Mein Kampf pode-se intuir a genialidade e inteligência de Hitler. Se ele foi um gênio mal ou não, é tarefa da Ética tal predicação. Não seremos medíocres em desconsiderar a obra intelectual de Hitler, pois é inegável sua influência em todos os ramos de saberes,
As reverberações da existência de Hitler dizem respeito inclusive às tecnologias produzidas pelos Estados Unidos, que trouxeram para si os grandes cientistas da época e que pertenciam ao partido nazista alemão (o que nos dá uma amplitude também para compreensão mais acertada da própria Indústria Cultural - e também do  contexto do surgimento da Escola de Frankfurt e a tão conhecida linha filosófica da Teoria Crítica.) Também não somos ingênuos para desconsiderar o papel dos EUA após o fim da Segunda Guerra Mundial. Que não dizer também do filósofo Heidegger, também adepto do partido nazista, e um dos que se responsabilizaram pela retomada da principal questão filosófica - deixada às margens pelos filósofos contemporâneos, a questão da temporaneidade e do sentido de Ser, em sua obra Ser e Tempo?
Por hoje, porém, trataremos de questões estéticas.
A Estética da Indústria Cultural possui nítidas influências da massiva e ostensiva propaganda dos totalitarismos (incluímos, aqui, portanto, o nazismo alemão, a propaganda comunista, soviética, italiana etc., e a própria propaganda cristã sob os auspícios da inquisição, como exemplo distante, ou dos ataques constantes de facções pentecostais contra os homossexuais, como exemplo recente - podemos incluir, para efeito de pathos filosófico [o que se costuma chamar, nos fóruns virtuais de provocação filosófica...], a linha de comportamento do atual governo brasileiro trasvestido de uma democracia invertida e revestida de uma neo-direita estranha e muito peculiar. A Indústria Cultural é, em sua essência, ou para utilizar outros termos "em sua lógica interna", um Totalitarismo, sim, com Tesão, pois é o Totalitarismo da reificação, a expressão e a cristalização de uma sociedade mumificada pelo totalitarismo das mercadorias.
A associação entre os artistas e a política não é nova, desde nossas memórias ancestrais carregamos o pesado fardo de tratar a arte como um meio, principalmente, depois dos gregos (me refiro a Sócrates, neste caso), no âmbito político. (Agora, o problema da arte pela própria arte, ou seja, a finalidade da arte... deixemos para um dia de inverno, com um chá quentinho e uma pantufa nos pés)
Wagner, o compositor alemão, é um gênio da música e sua obra influencia e é, dialeticamente, influenciada pelo 'espírito' alemão nacionalista da época.  Nietzsche chegou mesmo a considerar Wagner como o grande helenista que traria mais uma vez a virtude grega trágica aos palcos da Alemanha, mas acabou percebendo que Wagner tinha intentos bem conflituosos com sua filosofia dos espíritos livres e terminou por deixar clara sua postura em relação a este compositor que (segundo fofocas) seria uma das paixões do tio Friedrich... Na verdade, um grande números de pensadores que aderiram ao nazismo, o fizeram justamente por acreditar nesse resgate dos valores gregos, da Arte e da Civilização ideal e não necessariamente nos inúmeros outros fatores que caracterizavam o partido.
Devemos atentar nossos olhos para Wagner, pois além de compor suas óperas (as mais belas entre todas as existentes, na minha opinião), escrevia os libretos, pensava o cenário, as cenas, o teatro (comenta-se – fofocas de bastidores – que ele também desenhava o figurino dos personagens, e se aproveitava de alguns...) ou seja, ele pensava as partes e a disposição exata de sua obra na totalidade de suas manifestações - daí que não seja tão difícil entender que houvessem reações catárticas no público. Wagner, como todo bom artista (e devemos ter cuidado para não acabar por macular a imagem dos artistas), sabia muito bem conduzir a experiência artística, a experimentação estética. Nesse sentido, nenhuma arte é desprovida de intencionalidade, toda arte é essencialmente teleológica, e no nosso caso, política. A influência da arte grega, principalmente aquela encontrada nos textos aristotélicos, foi a principal pedra de toque para o romantismo e nacionalismo alemão.
É interessante notar que já na estrutura harmônica que Wagner apresenta em suas composições é possível compreender a magnitude do pensamento que o inspirava , dos ideais que o impeliam em sua criação artística e que, não há como cometer equívocos, estava conectado também com todo o contexto alemão de sua época (isso, entretanto, não nos dá o direito de condenar a música de Wagner – assim como eu não posso me proibir de apreciar as obras de Hitler, no que diz respeito estritamente à sua genialidade estética e intelectual. Espero, de coração, que me entendam sem preconceitos, não estou defendendo o nazismo de forma alguma. Tal advertência serve também, como disse anteriormente, em relação a Heidegger, por exemplo, que mesmo sendo nazista, contribuiu de forma elegantíssima para a Filosofia, tendo sido um dos que se debruçaram sobre as obras de Nietzsche com a finalidade de torná-lo mais amplo em sua poderosa intervenção contra o niilismo moderno e colaborando para o desenvolvimento dos estudos na área de Fenomenologia.).
A música wagneriana é um marco de revolução morfológica e harmônica. Há um peculiar movimento tonal que sempre se abre, nunca retorna ao seu campo harmônico de origem e um cromatismo furioso que inaugura uma espécie de libertação sonora dentro da ópera que soa como fogos de artifício, e acaba se diferenciando de uma forma admirável da estética musical no classicismo, no canto gregoriano (onde, por mais melismas que existissem na melodia, sempre, ao final, se retornava à tônica, ou seja, a primeira e a última tonalidade eram as mesmas, como uma metáfora de duas colunas que apontavam o pensamento do equilíbrio racional, do mundo medido e criado por deus e estabilizado por leis universais etc.) ou no barroco etc. Wagner intentou unificar[1] todas as artes, pretendia e se recusava a aceitar a fragmentação das artes que ele observava em outras óperas e em outros compositores. Tal feitio só pode ser dito a respeito de um gênio... Esta forma de enxergar a arte também pode ser fruto do Idealismo alemão, encontrado principalmente em Fichte (mais precisamente na obra "Fenomenologia do Espírito" de Hegel.

A Indústria Cultural realizou um feito definitivamente admirável, pois foi assimilando tais inovações e as unindo em sua lógica interna de funcionamento, tal como propõe Adorno em seu livro “O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição”, e dá uma virada no jogo contra o próprio artista, isto é, contra o próprio produtor da obra de arte e, posteriormente, contra todos os que usufruem das obras de arte em geral. É uma sacada genial e, novamente, devemos ser rigorosos em deixar o dever da predicação aos predicadores... Retira do artista sua própria obra e a entrega à produção massificada, coisifica a criação artística e a transforma numa mercadoria. A partir daí, a obra de arte não é mais classificada pelo seu valor estético - a sua liberdade criativa -, será agora apenas uma mercadoria que terá como critério de avalização sua comercialização pura, ou seja, será avaliada de acordo com as normas de troca e consumo, procura e oferta. A obra de arte fica amputada e sujeita a uma economia morta.
O processo da imbecilização, ou se preferirem, de forma menos grotesca e mais frankfurtiana , a “degenerescência” cultural  que se foi instalando no que chamamos de Indústria Cultural, nada mais é que a consequência deste movimento próprio da sociedade de mercadorias e que tem por base todo o processo histórico que garantiu seu surgimento.




[1] Ver: http://www.analytica.inf.br/analytica/diagramados/179.pdf
acesso em 14 de outubro de 2013, 23h33m


Algumas pistas para meus colegas sobre o tema:

http://filosofiaocupada.blogspot.com.br/2011/06/download-e-book-colecao-os-pensadores_15.html


http://siaibib01.univali.br/pdf/Jefferson Antonione Rodrigues.pdf

(esse texto de Jefferson Antonione Rodrigues sugere com algumas dezenas ou centenas de pessoas que a ideologia por detrás da música wagneriana teria sido uma das causadoras do nazismo - algo parecido como "masturbação faz crescer pêlos nas mãos" ou "comer chocolate demais dá espinhas". Eu acho que é uma afirmação perigosa e penso que devemos manter a dúvida sempre. Frases como aquelas que Hitler pronunciou, tais como "Só entende o nazismo quem entende Wagner" são do mesmo tipo que afirmou, juntamente com a irmã de Nietzsche, que Nietzsche foi um precursor do pensamento nazista. Tais alegações, sabemos hoje com bastante solidez, não passam de uma grande e bem tramada jogatina do tipo foucaultiano em que os discursos são remodelados de acordo com a má-intenção de quem os interpreta. O texto  de Jefferson Antonione Rodrigues é muito interessante, uma pesquisa realmente intrigante e de uma fluidez de leitura deliciosa -quem souber a arte nietzscheana de mastigar os alimentos, leia-o!)

http://www.radioislam.org/historia/hitler/mkampf/pdf/por.pdf

http://pt.scribd.com/doc/17088147/Nietzsche-Caso-Wagner-Ecce-Homo

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Poema do Intestino Delgado de Saturno

Intestino Delgado de Saturno

“O arco é a vida; sua operação é morte.”
Heráclito

Eu quero
Mas não sei o que quero
Agora sei
E agora quero mais ainda
Já não quero mais

Agora é desejo
Eu desejo
Mas que desejo?
Desejo alguma coisa
Qualquer uma

E eis que eu consigo
Realizo minha plenificação
Meu desejo foi realizado
Diz, arrogante, o gênio

E que me resta
Senão este zumbido?

É uma mosca em meu entorno
É uma fantasmagoria de querer
De querer, alcançar e se entediar
E novamente querer ad ridiculum

Eu desejava morrer
Que grandiosa graça em tédio viver!
Mas agora o tédio se perfaz
Se desdobra sempre num infinito
Num desejo novo
Num nobre e belo querer
Do qual não poso abdicar!

Agora que percebo a gratuidade
De viver nesta desconstrução
Borbulhante e saturniana
Agora que vejo harmonia em viver
O arco da vida inicia seu ato:
A Morte!


Daniel Alabarce

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Poema do Triângulo Circular Cruzado

Poema do Triângulo Circular Cruzado
(R+C)

Um barco a vela para se navegar
Um espelho negro para aprofundar
Uma espada invertida para conquistar
Um desejo firme para transmutar:

Alcei a corda
Chamei as ondas
Lacei o mar
Com meu amor

Saiu o barco
Soprou o vento
Meu doce intento
De velejar

Morango em calda
Azeite em fios
Oceano azul
de sutil degustar

Degustar meu cheiro
Perfumar meu beijo
Encontrar um jeito
De em mim nadar

Viajei aos campos
Desejei meus cantos
A descer as serras
Para respirar

Eu ouvi teu toque
Eu toquei teus dedos
Suspirei teus olhos
Pra te re-encontrar

Afaguei teu peito
Que abrigou a carne
Que pulsou o sangue
Do amanhecer

Reclinou o sol
na escuridão da alma
que elevou a rosa
no anoitecer

E me trouxe vida
Que tornou-se ida
De um caminho belo
Para renascer

E agora rio
Do correr da água
Que molhou a pena
Vou, assim, voar

Voe, então comigo
Para o paraíso
Ao inferno frio
A qualquer lugar

Mas que seja leve
Como cai a neve
...E que seja eterno
Enquanto durar...

Daniel Alabarce

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Bildung e a Desculpabilização da Experiência de Voar

Cá estou a me perguntar acerca do barulho de todas as relações humanas e tento averiguar se há de fato algo que mereça ser ponderado.

O que eu teria de tão diverso? E se tiver, porque também não o teriam todos os demais?

Um prisma. Sim, a questão diz respeito a um prisma que sempre é original. Somos todos prismas, cada qual e a seu próprio modo, que permitem uma difusão variável e propiciam que a Luz seja emitida em infinitas nuances.

Mas que cinza podre é este que me transmitem?

Acaso algum é suficientemente forte para me fazer aceitar e me subjugar à estúpida balbúrdia dos homens!

Já não sei se sou eu quem alto demais voou ou se apenas acreditei demais em minhas asas. Que mal, porém, vos faço aqui de minhas próprias alturas? O máximo que alcanço realizar seria gritar a vos chamar ou deveria esperar que, assim como eu fiz, subam apenas a vosso tempo?
Eis aí minha crua resposta: Eu subi porque desejei subir, ninguém jamais teria conseguido, por melhor ou maior força, obrigar-me à elevação, pois a Sabedoria e a Liberdade lançam convites sutis aos homens e somente por livre vontade é possível passar a voar.

Deixai que cada um se realize e se plenifique a si próprio e por sua própria nobreza interna; nós, no entanto, aguardamos ansiosos por estender a mão...

O que me leva a possuir tão firme convicção? Por qual razão suficiente eu penso que minha perspectiva seja melhor? Por acaso não é boa também a visão alheia? E porventura os outros, igualmente, acreditam em sua verdade interna? E se é deste modo, porque só encontro tal emissão em tão poucos? Ou será que não é de minha alçada vasculhar luzes que não sejam aquelas que se encontram dentro de mim?

Continuo acreditando na luz dos homens, mas porque eles não a transpiram?

E que culpa tenho eu se, passando a ver luz em mim (após tão densas trevas), não possa mais compactuar com quem renegue a sua própria? Devo eu, então, tolher-me para lançar-me novamente na completa ignorância infame?
Jamais!

E porque, demônios das profundezas tartáreas, desejo tanto que me ouçam, ou que me faça por entendido se não é de interesse alheio ver perspectivas outras?
Afinal, eu mesmo me recuso a por meus olhos em qualquer prisma que me apresentem...

Entretanto, confesso, que uma grande parte de prismas eu já experimentei, e foi exatamente por me permitir ampliar minha degustação de olhares que agora posso dizer quais me elevam e quais me sujam!

Sim! E não tornarei a olhar o mundo como olha um escravo, pois a preço mui caro tenho desvelado minha liberdade.
Agora! Este é meu momento de conhecer-me. Julguem-me se assim desejarem, já não me envergonharei mais do que, sendo, me torno.

No final das contas, que tenho eu a perder se para voar tive que morrer? E que tenho eu a temer se morrendo, já me encontro enterrado no seio de meu próprio inferno?

Resta agora, ressurrecto em minha ínfima glória, aceitar meu destino novo e eterno: a Vida!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Eureka - problematizar o problema

A grande maioria das pessoas enxerga apenas com dois olhos e se esquece que temos um aparato quase infinito e recursos admiráveis na degustação da realidade.
A despeito de todos os problemas filosóficos que podemos encontrar diante desta questão, tais como se é possível acessar a realidade-em-si ou se tudo o que podemos obter das coisas que estão fora de nós mesmos não passa de uma interpretação realizada a posteriori de dados captados pelos nossos sentidos, penso que seja de suma importância, como introdução ou base inicial fundante, ter, pelo menos, a noção de que o mundo existe e a realidade está aí independente de poder ser pensada por alguma espécie (no caso, a nossa).

Tendo dito isso, acho que podemos enfiar nossa língua em terras mais profundas ou alçarmos voos mais altos, não importa se para cima ou para baixo, pois estamos agora pensando para além das direções norte, sul, leste, oeste e suas subdenominações.

Há um imbricamento de sistemas, que seguem em seu curso criativo e transformativo que realiza um tipo de conexão sutil entre todas as coisas, podemos chamar isto que dá adesão a tudo pelo nome que quisermos, e corremos mesmo o perigo de esbarrar em questões parecidas com as dos primeiros filósofos escolásticos que se debatiam por descobrir se os universais eram nomes ou entidades realmente existentes.

Esta pedra metafórica, este elemento que subjaz, esta alquimia impossível a que somos convidados, este convite por decifrar o indecifrável, navegar um não-lugar oceânico em sua imensidão de variações infinitas dentro de um barco furado pela incapacidade da densidade que não pode, por necessidade lógica, atingir o alvo. Voar sem asas, mergulhar sem guelras ou máscaras de oxigênio, aprofundar sem ter pás, se dissolver no absurdo que nossa consciência jamais poderia aceitar... a não ser que de algum modo pudesse intuir seu poder de superar o insuperável...

Neste momento específico em que escrevo tais linhas já não consigo sequer pensar o que tais elucubrações signifiquem, porque penso ter chegado naquele ponto em que o abismo se coloca com tamanha veemência que melhor é evitar até o esforço de respirar para, por algum motivo espantoso, não acabar sendo tragado pela escuridão sedutora.

Fato é que o ponto de interrogação nunca se me apresentou com tamanha pompa e com uma graciosidade tão elegante e suave que chega a botar medo a qualquer filósofo ou buscador.

Não consigo pensar em linha reta por enquanto, só o que experiencio é um borbulhar de lapsos que, caótico, começa a estender os braços em direção a outros lapsos, construindo uma gigantesca teia nervosa...

Como poderei dar um salto se não tenho instrumentos para tanto? Sabendo da limitação da palavra, dos signos, das imagens... seria possível inventar algo para além? Como expressar uma compreensão que, no meu interior se apresenta tão nítida, mas que não encontra formas para subir à língua? (E será mesmo que é preciso dizer, definir, cercear um entendimento livre e gratuito que está a se perfazer e que eleva não apenas a mim mas a todos que estão ao redor?) Quê será isso que comigo se comunica sem se comunicar e que, olhando-me, interpela-me sem nada dizer? Como interagir com o irracional que agora se faz presente em sua abertura infinita que ultrapassa a objetividade cognitiva da razão?

O que resta é apenas uma fumaça que serpenteia acima de um ponto, como se dançasse por sobre o ponto, zombeteira, rindo porque se recusa fechar-se na delimitação: "?"

sábado, 7 de setembro de 2013

Indicação de Filme: Jet Boy

De repente... Um garoto de treze anos comprando heroína pra sua mãe que estava ocupada demais com sua orgia particular. Era seu aniversário, mas não dava para contar as velas do bolo, pois não havia bolo e ele fez, como parte da tradição, um pedido, inocente pedido que terminou por se realizar. De repente... Uma mulher ali na cama, usando heroína, acaba de morrer de overdose e, de repente, um garoto está sozinho, completamente jogado à sua própria sorte, a metáfora do presente mais precioso que lhe poderiam oferecer: o destino.
Um garoto como esse jamais seria como um garoto qualquer que joga, que brinca, que corre. Para sobreviver a única coisa que tinha era seu próprio corpo, e a única referência era sua mãe.
A história tecida em Jet Boy é a história de muitos garotos anônimos e de muitos adultos que foram obrigados, na infância, a sacrificarem seu próprio direito de sorrir por sua subsistência num mundo cruel e traiçoeiro como o nosso.
Como todo bom filme, e como toda boa obra de arte, precisamos de uma catarse, de hybris, necessitamos ver a realidade pintada, a verdade transeunte que é purificada pelas máscaras dionisíacas, o véu que encobre sem jamais esconder totalmente, a sutil nuance de sombra que transforma a vida trágica em drama existencial que procura sempre resgatar nosso olhar objetivo e decepcionado com o peso sufocante de estarmos todos jogados no palco e cutucar, com certa audácia, as nossas costelas a fim de encontrar algum riso, mesmo que forçado, ou alguma esperança, mesmo que amarela.
Temos a arte para não morrer da verdade, diria Nietzsche, o velho. E com tamanha maestria não poderia dizer melhor.
Após ter perdido sua mãe, Nathan passa a correr em direção ao oeste, mas acaba encontrando um companheiro de estrada indo para o leste e passa a descobrir a figura de um pai que nunca teve em um estranho que nunca havia visto antes, igualmente perdido em suas próprias crises, igualmente carregado de cicatrizes, mas igualmente solitário e correndo em alguma direção.
A vontade é sempre vontade de vida, mesmo a pulsão de morte é só a outra face da mesma moeda que pede, que implora por ascender, que luta pelo desejo irracional que o impele para cima, a força, o poder que ultrapassa o limite do absurdo, dos abismos, aquilo que insiste em estender a corda, construir pontes e ir além...



Filme: Jet Boy
Direção: David Schultz
Produção: Nancy Laing
Música: Byron Foster / Greg Graffin
Fotografia: Brian Whittred
País: Canadá
Ano: 2001

Gênero: Drama

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Irreversibilidade da Degenerescência Musical

Sinto tanta falta de grandes obras como esta (concerto de piano n° 27 em Si bemol maior, k 595, de Mozart), e por vezes temo sempre ter de retornar aos antigos para sentir uma coerência musical acontecendo de forma tão sofisticada, sim, pois é assustador a antecipação de um futuro em que não existam mais condições mentais de criação musical em níveis mais altos.

É como se toda construção da harmonia houvesse ruido sem que houvesse qualquer meio de evitar a decadência, não apenas do gosto (ou da degenerescência da audição, tal como fala Theodor Adorno, em "O Fetiche da Música"), mas da música como um todo, um todo orgânico*.

A música atual não passa de um reflexo crasso de uma sociedade morta, em que a máxima "Gott ist Tot" nada mais é que a consumação de uma profecia que desvelou a auto-eutanásia social, a podridão de uma cultura que se perfaz cadavericamente e vive, aos frangalhos, comendo o resto, as migalhas dos grandes de outrora...

Estou consciente de minha nostalgia saudosista e de minha relutância em aceitar os padrões musicais que sejam alternativos, mas que posso fazer diante de um defunto que fede? A reação é sintomática: tapo as narinas e quero logo enterrar essa putrefação torpe!

Quero vida, quero espírito na música! Quero música na vida e vida na música!

E quando digo espírito, é porque não consigo mais reconhecer vitalidade na música que é oferecida de forma muito parecida com o que presenciamos no âmbito gastronômico de uma cultura fast-food, onde nada pode durar mais que 5' a 8' minutos, pois quer se evitar a fadiga, ou numa hipótese mais crua, se quer evitar que o pensamento debruce por mais tempo diante de algo que o torne grande, sabedor de sua própria sapiência, de alguma coisa que toque o sujeito e o seduza a olhar para dentro, a se dobrar ante sua condição e degustar-se com um pouco mais de demora. Oras, e não é isso mesmo  que eu chamo de um pseudo-movimento heraclitiano, um movimento de heraclitianismo do povo (aproveitando o trocadilho nietzscheano)?

A rapidez e frugalidade invertida do tempo, o escorrimento espetacular de pessoas em frenesi desesperadas por atitude, sedentas por ação, que sofrem a ansiedade, que anseiam projetar-se sempre e de forma tão escancarada que beira o ridículo estapafúrdio... Se quisermos recorrer ao arcabouço freudiano ou junguiano provavelmente cometeríamos um desperdício de esforço, pois é óbvio e se apresenta como uma condição nua que tal desejo desenfreado por movimento seja a externalização da incapacidade que se produziu, nos meandros da lógica de nossa civilização, de gerar e criar indivíduos que se auto-cultivem (bildung alemão, ou paidéia grega), que saibam compreender os ciclos de expansão e retração necessárias à saúde harmônica da vida que ascende, da vida que quer, da Vontade que se manifesta como polaridade e como possibilidade de superação, ou de outra forma, da potência infinita que cada homem dispõe para construir seu próprio campo de atuação, seu próprio mundo, sua libertação ou realização efetiva.

Diante de uma obra como o concerto n° 27 de Mozart e uma interpretação como a de Maria João Pires, eu simplesmente fico sem argumento, não há como não sentir vida, não há como ficar inerte à aspectação do belo que ali se faz presente de forma intensa.
E já que estamos falando em degustação, espero que meus leitores não sejam displicentes a respeito de nossa maior falta, isto é, o prazer de usufruir com calma e tranquilidade, de saborear um bom vinho:



Como pianista e filósofo eu sempre me questiono se ainda é possível interpretar algo hoje e faço tal questionamento a todos quanto sabem apreciar, pois as condições materiais (entendam materiais no sentido mais profundo e menos caricatural, peço-vos) que nos são oferecidas no modo de produção social são completamente contrárias a alguma coisa que se demore, demorar-se para comer é um pecado! Nós somos selvagens, devemos comer tudo depressa, como se não fosse possível outra refeição amanhã, e desta forma não são apenas moedas ou lucros que acumulamos, nós somos acumuladores de gordura, de energia, de tudo quanto se coloque em nossas mãos. A tudo devoramos sem respeito e sem escrúpulo, comida, dinheiro, mercadorias, pessoas.

Minha nostalgia se aquece ainda mais porque ao olhar para trás eu sempre re-afirmo e con-firmo minha intuição-observadora de que muito dificilmente poderemos encontrar por aqui intérpretes, tais como Elis Regina, Maysa, Bethania, Edith Piaf, Elvis ou qualquer outro que faça parte da frequência à qual me refiro. Não se trata de não haver mais indivíduos capazes de tal façanha magnífica, pelo contrário, meu pessimismo degustativo consiste em apreender e constatar que o fluxo social aponta especificamente para uma espécie de irreversibilidade da degenerescência dos aparatos de apreciação estética que é uma consequência apodítica e necessária da lógica interna e estrutural da própria sociedade em que vivemos.



*O que não significa, de forma alguma, que sejamos puristas e defendamos um anti-modernismo da arte e uma consideração do tipo romântica demasiada em relação à música mais antiga. Quando me refiro a um todo orgânico faço alusão, também, a uma complexidade peculiar da atividade criadora própria do artista que consegue captar e expor algo que é inteiramente dele e que, não obstante, o ultrapasse porque é completamente aberto, tal como o dasein (como diria Heidegger), ou como um devir dionisíaco.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Primavera Antecipada

27.08.2013

O que é isto que eu sinto nas vozes do vento
e que ouço nos poros de minha pele?
um fresco e meio gélido ar em movimento
que a todas as folhas na árvore faz dançar...
uma calma interessante que se faz presente nas pontas e nas beiradas das nuvens
uma espécie de lembrança ou reminiscência
que ativa o sabor de minha tenra infância
um quadro magnífico pintado pelo anúncio antecipado da primavera

Que paz é esta que eu degusto na boca noturna
na brisa matutina e no clima da madrugada?
O séquito de um presságio que se descortina
uma promessa arraigada de uma presença
a visão do eterno na janela do devir...

Quão doce aura e sutil
das borboletas que farfalham e borbulham entre as árvores
refletindo a luz suave de um sol dourado
num ciclo de vida que sempre se repete
em meio às noites negras da alma.

É um momento que não pode durar tanto
pois é sofisticado e leve demais para tédio se tornar
Melhor então experimentá-lo sempre que surgir
e, assim, evitar que se perca algum sabor

Quadro das árvores ao vento
Daniel Alabarce

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

KOYAANISQATSI - um filme para quem tem estômago forte e sensibilidade aguçada

12.08.2013
Koyaanisqatsi

ORIGINAL:Koyaanisqatsi (1982)

SIGNIFICADO DO TÍTULO DO FILME:"Vida fora de equilíbrio...Se nós tirarmos coisas preciosas da terra, convidaremos o desastre..."
DIRETOR:Godfrey Reggio
ROTEIRISTA:Ron Fricke, Godfrey Reggio, Michael Hoenig, Alton Walpole
TRILHA:Philip Glass
(quem quiser baixar, tente neste link http://www.downloadcult.com/2011/08/12/0706-koyaanisqatsi-1983/ )

Particularmente é um dos filmes que mais me agradaram estéticamente e musicalmente, degustei o filme como degusto um vinho ou uma cerveja alemã ou norueguesa.
Cada acorde, e cada sequência de notas, os intervalos de 5° utilizadas sempre quando as imagens eram gigantes e potentosas, repletas de admirável gigantidade, os arpejos mais largos para cenas circulares, e os sons contínuos com a intenção de compelir o expectador à exaustão diante daquilo que é a realidade crua sendo apresentada, mas ainda com o véu da arte para amenizar o choque.
Heráclito dizia que tudo é movimento, e o diretor do filme levou isso a sério quando quis captar e acelerar ou deixar muito lento os frames e construir uma obra prima de arte que deu conta de fazer a fusão da música com o fluir das cenas.
Phillip Glass é um gênio em ter conseguido captar o Zeitgeist, mais ainda por ter conseguido apresentar passo a passo, ao bom expectador, um prisma completamente verossímil de nossa mais nua realidade: a realidade de uma civilização que está fora de equilíbrio, que exige que os indivíduos sejam equilibrados, mas cuja força motriz fundante se boicota por possuir como base de sua subsistência o paradoxo da auto-destruição.
Coloco minha mão à boca e minha reação é dúbia, pois ao mesmo tempo que tenho plena consciência da vertiginosa koyaanisqatsi em que vivemos como seres esquizofrênicos num movimento que, de fato, é um pseudo movimento de coisas, já que a mudança ocorre apenas a nível superficial, mantendo as estruturas mortas de nossa civilização, e me sinto satisfeito por conseguir enxergar a condição trágica em que nos encontramos... por outro lado... isso espanta de tal forma, que sinto um mal estar contínuo por saber que não Há esperança, a não ser a de enterrar esta aura da morte, este entorpecimento social, dar fim às conexões e começar a construir outras, novas (que poderão nos levar também ao destino da paranóia, mas preferencialmente será uma nova paranóia...
A beleza da natureza é suprema, oceânica, e a construção humana é apoteótica, gigantesca, mas beira o ridículo e a estapafúrdia de um desespero insano por mais, sem nem mesmo saber o que se deseja, apenas se deseja e segue o fluxo contínuo para frente, sem saber também se o rumo correto é pra frente... ninguém olha pra cima, nem para baixo, e todos estão entregues a se debater violentamente e se contorcer angustiosamente procurando em algum lugar alguma coisa que não se sabe o que é...
 Há muita beleza, arte, poesia, existe muitas idealizações, mas o real nos oprime e nos coloca diante de nós mesmos o tempo todo e nos aponta nossa finitude e pequenez diante do universo...
Quem somos nesse raio ululante que rasga os ouvidos com o assombro das máquinas e do enfileiramento febril rumo a campos de concentração modernos, cuja sina é dobrar papéis, cortar papéis e ferros, e apertar botões e vigiar para que os botões apertados sejam os corretos...
que bom que ainda há diretores e compositores e artistas em geral que se comprometem em fazer um tipo de arte revolucionária que incomode furtivamente, que desmascare o que é podre, mas que está escondido, escamoteado nos hábitos cortesãos dos cidadão de nariz levantado cuja arrogância moralista os cega de perceber o rumo funesto que nossa sociedade assimila organicamente: a destruição própria, a morte absoluta da civilização moderna!



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Narcísico Peoma do Triângulo Conservador, Libertário e Resignado

(coloque este vídeo para ler o poema)
https://www.youtube.com/watch?v=xKnWPZT78vw

Canso de falar em voz alta
Porque o som das vozes me soa...
Cenicamente falso
Musicalmente indigno
Tragicamente oco
Fundamentalmente vazio

Canso de me obrigar a não rir meu riso
Porque tudo que se apresenta sério demais...
é falsamente verdadeiro
intensamente equivocado
pretensiosamente cênico
profundamente rasteiro

Canso de dialogar solitário em meus pensamentos
Mas em quase ninguém encontro necessária leveza e me sinto...
Extremamente livre
Completamente alegre
Contraditoriamente triste
Resignadamente sozinho

08.08.2013
Daniel Alabarce

sábado, 3 de agosto de 2013

Brain Storm - ou: Da Balbúrdia

Brain Storm
ou: Da Balbúrdia
25.05.2013

(Em homenagem aos amigos que transcendem o conceito de amigos: Atanásio Mykonios (grego), e Cristina Pimentel (Julieta))

Flores que dançam no luar
Em torno do antigo vulcão
A todos destroem...

Ritual macabro da meia noite
Ao som e ruídos de parafusos e botões
Um andamento funesto com velas de plástico
E sacerdotes calçando crocs negros e jaquetas de couro

Lá se encontram todos os nossos irmãos
Seduzidos pelas piras acesas de tudo quanto é supérfluo
O fogo da balbúrdia que entorpece a matéria morta
Dos corpos enfileirados em rapina
Seguidos pela altivez do hábito de digerir
Vermes em massa!

Há um clima de podridão próximo ao caldeirão central
Que exala um perfume de sangue e homicídio
Mulheres banhadas em gordura dos seus rebentos natimorfos
Matres de pedra e incapazes de chorar
Tão mortas quanto sua prole

Oh, Carnificina Abominável do Frívolo
O umbral está repleto de cadáveres
E corta-nos um frio pavoroso
Sombreado pela doença que nos açoita
A doença maldita de tudo quanto é mediano
medíocridade de tudo quanto é morno.

Salvai-nos os deuses antigos
Salvai-nos de nossa tragédia moderna
Estamos fartos de viver da miséria do desejo
Dá-nos o maná que alimenta por inteiro
Porque o silêncio desta máquina de produzir imbecilidade
Ensurdece todos os nossos sentidos profundos...

(...)
Subi no alto de uma árvore
procurando ar puro
Mas só entendi sua força
Ao olhar as raízes enterradas para baixo
Ocultando sua verdadeira vida aos olhos profanos
Que jamais conseguirão compreender
Que da boca central do planeta
E do âmago interno vulcânico,
Lá onde reside a corja toda de nossos próprios demônios,
É de onde surge a luz que alumia nosso mundo...

Não há mais como escapar
Herói bom é herói lutando
Rumo ao labirinto, eia, pois, avante!

E aí descobrimos, como que por uma grave e processual epifania
Que enfrentar Si Mesmo é o verdadeiro desafio
O Minotauro é apenas uma unha encravada
A Sombra Negra e Turva nunca dorme
Dragão terrível de pura ilusão...

Em pleno e heróico brado
Fazemos agora soar nosso canto
Sair do inferno é sorrir do abismo
Caso contrário, a morte espreita todo aventureiro...
Eis a virtude de um herói:
Por fora é um nobre guerreiro

Por dentro é um menestrel!

terça-feira, 30 de julho de 2013

Pressupostos de Uma Tragédia II - ou: Da Sabedoria das Máscaras

Da Sabedoria das Máscaras

Reconhecer minhas trevas interiores, tornar a olhar para o buraco mais profundo de mim mesmo e encontrar a minha própria tumba, meu sarcófago putrefato e pavoroso; desvelar a desordem e a loucura que jaziam (e principalmente o caos que subjazia)... Sentir forte nos lábios e em todos os órgãos palatares (tudo quanto há de sensciente em minha integralidade total) o gosto, os cheiros, os vórtices de nuances de claridade e escuridão, as cores (em sua grande parte monocromática)... Conferir cada parte de meu vômito, procurando compreender a alquimia de minha digestão mais secreta, analisando e separando, unindo, sintetizando e retomando os elementos que ainda poderiam contribuir para algum novo antídoto, considerando que alguns venenos, se invertidos, podem gerar cura... Passo a passo, sentindo os medos mais violentos, mas sem conseguir deixar de caminhar para frente, degrau por degrau, tateando tal como um cego, farejando como cachorro, serpenteando como um dragão e sibilando como uma ouroboros... Apoiando-me e sendo apoiado, dando respaldo ou sendo canalizado como guia de outrem... Lançando para frente os meus sons, tal como os morcegos, esperando a reverberação do som que pudesse devolver-me alguma confiança de qualquer coisa concreta mais adiante (e esperando, ainda assim, a possibilidade irrecusável de obter como resposta o oco abismal do além-homem...); ruminando, como a vaca, cada letra da sapiência de tudo quanto me foi apresentado e deixando que a fluidez do sophos realizasse a condução mefistotélica da luz rarefeita do sage que em minha gruta habita... Agindo como um louco para provar os julgamentos mais cruéis ou deixando de receber qualquer ajuda para sofrer inteiramente sozinho os próprios muros (das quais grande parte eu mesmo ergui); curioso ao ponto de ficar em péssimos lençóis, sem ter como fugir, nem como alçar a voz nas alturas e pedir socorro, ou caindo das alturas por falta de oxigênio, ou esquivando-me das esferas de luz por ter degustado as esferas da dor nesta jornada tão misteriosa que é viver ex, de existir...  Sem saber ao certo se a linguagem poderia colaborar de alguma forma para expressar um entendimento que não foi adquirido apenas por meio de linguagem, ou de racionalidade, ou de recursos lógicos e formais... Foi mais ou menos assim que lancei a primeiríssima pedra de minha própria morada.
Olho para o mundo tal como um viandante que se admira e se assusta quando está posto diante de sua jornada, tal como aquele que olha para o caminho, mas não é capaz de enxergar detalhes, nem prever as felicidades e as tristezas que o aguardam. Olho para o mundo sabendo que o mundo mesmo não há, e que as linhas colocadas em frente servem apenas como setas e sombras, como metáforas que apontam para lugares que não são lugares, para objetos que não são objetos, para entes que não são entes e para conceitos que não são conceitos, mas que também não é o Nada!
Olho fixamente para a morte, porque a morte é quem me aguarda em seu seio, mas fitá-la por muito tempo gela a alma... E aí eu crio meus meios, as intermediações, as telas artísticas, a arte mais vergonhosa e mais necessária de quem vive, a hipocrisia de persona, a máscara dos ditirambos...

O herói nunca se deixa desanimar diante de seu destino agourento, e que é o destino de um herói senão a morte? Mas o herói é o maior dos hipócritas, e em sua maior hipocrisia é ele o mais verdadeiro entre todos, pois re-conhece seu próprio medo, experimenta sua sina todo o tempo, e ainda assim não recrudesce, não definha e não se fecha... O segredo do herói não está em desviar os olhos da morte... Ele jamais seria herói se assim agisse... O segredo do herói é a tragédia... O segredo está em saber o modo correto de utilizar as máscaras...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Discurso Cínico da Sombra Intestinal

Discurso Cínico da Sombra Intestinal
16.04.2013

Sou ao simples
como louco
Sou ao louco
como idêntico
Sou ao médico
como doente
Ao cidadão
como uma vergonha
como homens e mulheres,
pois a ninguém rotulo
Degusto o mundo inteiro
digerindo-o em doses.

Minha sombra
é meu reflexo
minha sombra
é quem eu sempre quis ser
pois sendo minha sombra
ninguém jamais diria
que sou outro além de mim
Mas toda a algazarra do mundo
é de quem projeta a sombra
o sol do desbunde
e as luzes frenéticas

-Não sou destrutível como tu,
pedaço de carne falante,
Sou sombra sutil multiforme
que serve apenas ao meu próprio divertimento
Teu ódio pela sombra
é o teu desejo secreto
de deflorar-me sexualmente
numa auto-antropofagia deliciosa

Lambe teu próprio cú, oh homem!
Experimenta tua merda,
pois o que seria a Ouroboros
se não fosse seu desprezo pelo higienicamente correto?
A pedra filosofal é o que você transmuta,
seu próprio esterco!

Enfia tua língua
no interstício final
do intestino:
delgado,
doce e sagrado
experimenta a alquimia de tua bosta
descubra a composição de tua merda.

Deixa atrás o pudor
E se o pudor se excitar
Chupe-o até o fim
Deixe as bundas moles à tua frente
e enterre teu falo
cria tua própria fertilidade!



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Catedral da Nota em Bolha


11.07.2013


No limiar da nota em bolha,
O bordão suave ecoa
Como um cristal que soa
Um nirvana musical

Uma onda que estoura
No ápice de uma frase
Delineando melodicamente
O caminho místico harmônico
Que conduz como a um vento
Um sutil lamber do orvalho
Que escorre gentilmente nos meus dedos
E afunda a tecla no piano, intenso

O topo exprimível em palavras
De forma doentia
Acaba recrudescendo a sensação
Não há como verbalizar a música
Daí que eu não goste de músicas e poesia unidas
Apenas os sons, e somente a relação entre eles
São suficientemente capazes de apontar o eterno
De apresentar da maneira mais sublime
A harmonia de várias vozes, e de várias pessoas
Que dançam a vida do Tudo é Movimento
Apenas os sons são eficazes na Arte Heraclitiana
A arte de experimentar a vida por meio do som
Que reverbera na teia da existência,
Cujos fios as moiras, afoitas, desejam atacar!

Eu atingi o nirvana, mas fui trazido com uma mó de atafona nos pés
E fiquei preso mais uma vez no cotidiano banal do mundo
Desejoso por contar a todos e fazer todos os esforços
Para apresentar a possibilidade infinita de que todos voem
Voem para alturas de ares não viciados
Mas eles estão todos viciados, tenho poucos amigos...
Tenho poucos que me compreendem nessa angústia
Angústia altruísta, de desejar que todos sejam livres
E ver que o real desejo destes pobres pequenos
É comer o pão, beber a água e tudo fazer com agilidade
Esbarrando aqui e ali nas colunas do mundo
Como cegos e surdos... mudos eles não são,
Pois reclamam da “vida” todo tempo
A culpa é o argumento preferencialmente nobre a todos estes
Culpada é a vida de não ter me oferecidos condições para voar

Eu vou voar,
Vou voar a trajetória toda de um som
Vibrar como um raio das minhas próprias cordas musicais
E fazer ressoar a música da minha existência inteira
Como um agradecimento ao complexo emaranhado de variáveis
Variáveis infinitas que colaboraram para ser quem sou
O artista de mim mesmo
Crio, pois, meu mundo, crio o mundo inteiro que sou eu
Crio minha paz e minha beleza mais pura,
Minha liberdade de digerir o mundo sem malícia
Minha ferocidade infantil por rir do abismo
E minha mansidão de ter o direito de mudar de idéia

Eu sou um som
E juntos podemos ser uma sinfonia inteira
As dissonâncias e consonâncias
Estas serão as ferramentas, não para destruir,
Mas para edificar um castelo feito de acordes
Notas e todos os sons mais diversos

A catedral da deusa mais predileta de todas as nações, povos e raças: a Música!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Frequência do Não-Ser

Uma linha que me guia
E me estende ao céu
Prendendo-me a ti
Terra lapidar e cemiterial

Traga-me a imensidão de tudo quanto é grande
Devora-me e digere-me tudo quanto é extenso
Universo Infinito que revela a semente sutil
Da expansão fundamental do que parece vil

Avança o tempo
Apodrece ao vento
As cãs em movimento
Cai pedra, cai folha
Cai a gota no telhado
E permanece esta freqüência
Do Inaudito e Inalcançável
Da imensurável frequência vibratória
Da entropia murmurante do Não-Ser

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Piano Agridoce ao Curry e NagChampa


04.07.2013


Cada noite sentado ao piano e todas as vezes em que, perto da janela, sentia uma dor pulsar nas mãos por tanto ficar estudando valeu a pena. Cada professor que tive, todas as lições que apreendi se constituíram para mim em sabedoria para uma vida inteira – e quem sabe para todas as próximas. As gargalhadas, as lágrimas e os perfumes, as grandes e pequenas audições, as palmas de agradecimento ou os olhares de desapontamento das pessoas que sempre souberam do meu potencial, nada foi em vão. As marcas, as cicatrizes, as seqüelas, as memórias, a nostalgia meio-alegre do tipo agridoce, tudo agora se apresenta diante de mim como suaves instantes efêmeros que, a despeito de sua rapidez assombrosa, me impressionaram eternamente, e re-cordo com um carinho especial todas estas coisas silenciosamente e com um sorriso furtivo no canto da boca, satisfeito por ter sido tempestuoso em tudo que fiz, exagerado na minha forma de comer o mundo inteiro por meio da arte, intensamente ébrio do cálice de tontear da Música das esferas, dos cubos e das formas sem linhas limítrofes – a estas, principalmente, ao disforme, ao dionisíaco, ao estranhamente agradável, sim, essencialmente a esta multiforme luz caótica que me rasgou por inteiro é que sou grato por hoje poder ter dado início à minha transvaloração e à minha paz, sorrateiramente inquieta e inquiridora em sua sede, mas profunda.

terça-feira, 18 de junho de 2013

A verdade dos meus olhos

18.06.2013
A verdade dos meus olhos

Por tanto tempo eu me dediquei aos livros, aos meus pensamentos escritos no papel, nas linhas e curvas das letras, assimilando as curvas de cada montanha como lençol solto no ar... Que acabei por despreocupar-me com a saúde dos meus olhos. Ler à luz de velas, como se estivesse na época das catedrais, carruagens passando lá nas ruas estreitas com o odor fétido de uma sociedade sem encanamento e aquele fervilhar de galinhas, carneiros e porcos exalando toda sua medievalidade. Cá fiquei eu, tão distante da balbúrdia camponesa, dos problemas menores e das preocupações cotidianas, que, por mais fundamentais que fossem, me pareciam sempre minúsculas demais para serem consideradas em minhas altas apreciações estéticas ou filosóficas. Eis aqui, diante de mim, o meu corpo a reclamar que por mais longe que eu possa ir, que por mais profundo que seja o mar, ele é minha sombra por todo o tempo em que aqui me encontrar... O meu corpo gritou de tal forma que não pude mais me dar ao luxo da indiferença, fui obrigado a colocar os pés no chão, como aquele anjo apocalíptico que tem um pé no mar, outro na terra e a cabeça nas alturas...
Eu me sentia muito poderoso em minha altivez e ufania utópica, e vejam só como o simples é eficaz. O orgulho precede a queda, oh, rei de Tiro... Pensava piamente (e pensar é uma das várias formas de se acreditar) que o mal, todo tipo de mal, pudesse ser destruído com grandes invocações, com atos espetaculares de amor ensandecido, mas tudo isso não passa de encenação simbólica de uma verdade que é muito mais ínfima, pequena, como um grão de mostarda. É o simples que tem por função nobre afastar o mal do mundo, é o comum, o cotidiano que nos protege.
Mas fiquei entre a cruz e o punhal... como eu poderia me permitir fazer parte desta roda tenebrosa do frívolo, do corriqueiro? Eu que já fui tão longe, explorando planetas e galáxias, tendo visto toda a imensidão do universo, sabendo da incrível beleza da infinitude do Real... Descobridor das Américas... Oh! Não, não posso participar desse teatro, eu pensava... E quem disse que isso é um teatro estava muito equivocado, porque o sofrimento não é uma peça, nem é a dor uma interpretação... o sofrimento dói de verdade e a dor atordoa até mesmo o grande Aquiles... Não, isso não é um jogo, muito menos uma guerra. Eu, de fato, não sei exatamente o que é a vida, mas tenho plena convicção de que só iremos conseguir rotular vida, quando conseguirmos enlatar a morte... A ilusão moderna nos faz acreditar que a morte virou sardinha, mas a nua e crua fealdade do verdadeiro nos aponta o terror que a todos penetra: somos finitos morreremos.
E por mais que eu deseje os grandes arcanos, lançar as colunas sétimas de um tabernáculo à imagem e semelhança de Salomão, é crucial, antes mesmo de projetar a arquitetura de um sonho, lançar a pedra fundamental. Nenhum grande prédio resistirá se não possuir um seixo bem no centro estrutural de sua base... Casa na areia é levada pelas ondas!
O simples não é simplório, o simples esconde a riqueza do mundo inteiro, como uma pérola que está escondida numa concha... uma concha que só um mergulhador profissional poderia descobrir. Todos os peixes passam pela concha, mas nunca prestaram atenção...
Sempre enxerguei o lado ruim das coisas boas, mas agora estou equilibrando a balança para ver quanto de bom há no ruim, precisamente quanto de força há no péssimo, para forjar a transmutação do chumbo em ouro e, como sempre, eu quis desde o início transmutar esterco... No alto da montanha russa não dá mais pra fugir (claro, porque se fosse montanha brasileira dá um jeitinho e se joga do carrinho), e geralmente nos buracos mais fundos existe petróleo, de qualquer forma não é uma viagem em vão.
Meus olhos doem, minha cabeça pulsa, e começo a degustar beleza do mundo sem os olhos... Quantas matizes, quantas nuances sonoras, que riqueza é o mundo ao meu redor. Na minha imaginação eu sou livre, posso derramar um pinguinho de tinta no papel e fazer um guarda chuva com o chifre de um mamute, e todo o tempo eu rio de mim mesmo, rio com prazer por sempre retornar à minha criança interior, zombeteira, de olhar curioso e sentindo o vento acariciar meu rosto enquanto eu estou sentado no alto de montanha, sozinho, feliz por estar perto de tantas árvores, grama, formigas, cachorros, lagos e um horizonte que aguarda ansiosamente o retorno de seu maior amor, aquele que no finzinho de tarde se revela de escarlate e sangue de fertilidade.
Minhas lágrimas correm, não por causa da dor apenas, mas porque estou impedido de dialogar, por meio do livro, com os grandes espíritos mortos, triste por não poder ficar olhando as estrela magníficas da noite com a lua adornada de um dourado pálido e obscuro como se quisesse vir me beijar lentamente ao som enebriante das gotas de orvalho que soam como um abraço materno e de ter de abster (não de carne, nem de gordura) mas de contemplar tudo quanto eu vejo de belo, uma lesminha numa árvore que pleiteia com imensa coragem em sua escalada pela parede, na aranha que faz sua teia dentro dos átrios internos do templo sem ser autorizado, ou de me emocionar com o cheiro da terra molhada e sentir que as plantas estão dançando com todas as criaturas, a dança da conexão total de todos os tem capacidade de sofrer (amar é a outra face desta mesma moeda).
É passageiro, tudo passa, alegria, tristeza, raiva, amor, e tudo volta ao início. Os ciclos parecem ser infinitos, um eterno retornar, por isso é que tudo flui, coagula e se dissolve... ad absurdum!
O alma minha, porque estás tão abatida, não sabes que somos livres? Não temos mais bolha alguma a nos prender, podemos voar ou pegar carona num cometa e viajar pra qualquer outro lugar do universo inteiro, já fizemos isso uma vez, teremos outras, sejamos firmes como o osso e resistentes como os cabelos que, no crânio, demoram anos para apodrecer.
Estou escrevendo pelo notebook, com os olhos vendados, porque a luz está machucando meus olhos, literalmente; 4 dias sem poder sequer ler uma poesia, sem sequer poder cristalizar um pensamento, uma musica, porque tem que usar este tampão. Eu quero ser normal de novo (que já não era tão normal assim, confesso!), mas não é viável, já estou mais pro meio da caminhada, e seu voltar, então teria completado com as mesmas pernadas minha chegada do outro lado, estou preferindo ser producente... Só o que resta agora é descer as montanhas e fazer uma exploração e procurar quem quer nos ouvir, caso contrário, eu irei me afogar no simples, um dia eu conseguirei me fundir aos simples, eu serei ensinado por eles, e eu os ajudarei com o que estiver ao meu alcance.
Ler livros é muito gostoso, escrever é o meu dom, mais que música e filosofia, faz parte de mim desde que tinha 2 anos, é como se eu estivesse cuidando de um filho, e de repente tiram eles de mim e os levam para a casa da tia chata que vai passar as férias em Can-Cun...!
Somos frágeis, corrompidos no corpo, carregamos um cadáver o tempo todo, o descanso à sete palmos que merecemos só pode ocorrer depois da foice que a morte afiou aqui nos fundos de minha casa... Ela me disse que começaria por vizinhos, depois familares e depois amigos, como eu emprestei a ela o instrumento para afiar... Então vou ter certos privilégios, claro.
Sei que o universo atingiu meu calcanhar “de Aquiles”, mas sei que é o meu próprio corpo quem me convida a dar atenção pro simples, pois só aí é que se semeia grandes homens, heróis e cavaleiros.


sábado, 8 de junho de 2013

Da Guerra

Da Guerra
08.06.2013

Olhai os resquícios de uma triunfante tempestade que arrastou após si uma multidão de casebres de mofo, deixando um rastro de destruição...
Olhai os lírios do campo de guerra, estendidos como pedaços dos sacrifícios de apaziguamento da ira do dragão que se elevou, altivo, sobre nossas armas vis.
Olhai as mãos lentas que dançam tristemente a gesticulação do assombro e da rouquidão, do choro silencioso e dos soluços que anunciam a paz...
Olhai para o céu que agora, tranqüilo, se reconstrói na luz imarcessível de Ra, lançando as colunas da esperança do nosso eterno hoje.
Olhai e vede como é bom sentir o vácuo que, como véu ou séquito de realeza, passou... E dos estalos das folhas secas que, caídas, se revelam corajosas todas diante dos vermes que as irão devorar...
Olhai e vede quão pequena e forte a morte que copula com a vida, produzindo a cósmica tensão que ressoa o mundo todo na vibração do diapasão de deus...
Olhai e experimentai como é bela a promessa quieta que nos olhos de remela de uma criança revela o amor que é mais forte que o desespero de qualquer guerra...
Olhai e vede quão saborosa é a vida, apesar de suas imperfeições, imperfeitamente admirável!
Olhai e vede a vida como flor que nasce, cresce e já não é mais.
Olhai a outra rosa que agora nasce, e a próxima, e a de outrora

Escutai! Todo o resto numa nota se desfaz!