Escrever antes de dormir tem sido meu antídoto de sanidade, sem o qual estaria totalmente abandonado à solidão do meu próprio pensamento, pois tem sido extremamente difícil encontrar pessoas que estejam dispostas a especular e refletir mais profundamente os grandes temas, a existência, a sociedade, o mundo, o ser humano e outras questões que se relacionam com coisas que estão para além do discutir se o vizinho do facebook postou alguma imagem de um cãozinho dando indiretas imbecis ou piadinhas tortas. Questões que tratem não apenas de temas do cotidiano, porque já estou farto de discutir elementos que em nada irão contribuir para um pensamento que seja capaz de gerar uma mudança grandiosa, a longo ou médio prazo (o cotidiano é um ponto de partida, precisamos ir além disso, caso contrário ficaremos patinando nessa mesmice ridícula e entediante!)
Não se trata de um mero idealismo ou utopia individual, mas de relações integrais, de enxergar esta geração que agora envelhece e crianças que agora crescem em um mundo borbulhante e escorregadio, sem nenhuma perspectiva de projeto, destituídas totalmente de fundamentação ou valores nobres e grandes; entristeço-me o tempo todo por dialogar apenas comigo mesmo assuntos que muita gente considera secundariamente, como se refletir ou pensar fosse uma atitude não-humana, desprezível ou, convenientemente patológica!
Estes temas são secundários, sim, se cristalizarmos a mentalidade de que só o que temos é essa nossa rotina mesmídica e frívola, essa bolha diária que se perfaz de forma grotesca e se postura eterna e jovialmente nova como as mercadorias que não possuem, ao estilo melquisedequiano, nem origem, nem fim.
Reconheço que exercitar as regiões da mente que podem nos ajudar a evoluir como seres humanos (e, acredito, além-humanos) é extremamente incômodo, pois nessa viajem não há nada de muito estável, nada tão sólido que não possa sofrer mutações e, entretanto, reside nesse próprio elemento de mutação, mais precisamente de transmutação, a característica peculiar do movimento que o conhecimento pode promover, o caos a partir do qual é possível tudo, o caldeirão de onde todas as coisas podem surgir, nossas infinitas possibilidades, ou mais precisamente, nossa maior e mais brilhante nobreza.
A despeito de toda essa amplitude que temos à nossa disposição diante do contínuo movimentar das estruturas do conhecimento, historicamente a grande massa, a maior parte de todos os homens e mulheres prefere aprisionar-se, acomodar-se a tudo o que já foi padronizado, ao establishment, ao que já foi dado, às trilhas que já foram batidas pelos pés de outras pessoas.
Existem várias gratificações em andar o caminho que já está feito, não devemos desprezar isso de maneira alguma. Há segurança nestes velhos caminhos, algumas coisas e algumas consequências já são adequadamente previstas, há uma certa invariabilidade de reações e efeitos.
Por outro lado, a doença da modernidade é como uma grande inflamação que ocorreu por meio dessa incapacidade de dialogar com a realidade, com o movimento da história, ou da pretensão de acreditar que podemos colocar toda a realidade dentro de uma forma, quase como se fizéssemos dela uma massa modelável e controlável, tal como a de um grande bolo...
Aventurar-se em fazer e desbravar novos caminhos, conhecer e ter acesso a novos espaços, a novas perspectivas, ter a sensação de espreitar lugares (materiais ou não) completamente diversos daqueles que todos já sabem... Isso, definitivamente, não é para todos.
Isso não é para todos, não por pre-destinação, ou por que os outros não sejam capazes, pois se um é capaz, todos são, fazemos parte de uma mesma espécie, todos tem dedo opositor, todos andam eretos, todos pensam. Trata-se de um elemento de necessidade, de utilidade e também de gosto.
As pessoas não querem trilhar outros caminhos, porque já estão incluídos, já tem sentimento de pertencer a um grupo que também percorre nas mesmas direções; não é rentável; não é transitável e desgastaria muita energia, é mais fácil acumular energia (sim, porque o capitalismo não é apenas uma acumulação de dinheiro, mais do que isso, é uma acumulação dentro dos próprios trabalhadores com a intenção de focar a utilização de suas energias apenas para a produção de valor/capital); é gostoso estar em lugares conhecidos, é prazeroso o conforto da permanência.
O conhecimento traz um prazer que é fruto de persistência diante do movimento, ou seja, existe um atrito entre o sujeito que conhece e o próprio conhecimento, é um prazer que advém necessariamente da luta, do embate criador, das forças que vão se interpelando. Daí que possamos compreender porque motivos mais claros o conhecimento causa tanto sofrimento, pois surge das contradições, da luz que atinge os olhos que antes estavam acostumados à escuridão, ou da escuridão que aparece como o contrário da iluminação total, da luz extrema que também pode cegar. De uma ou de outra forma, o conhecimento é fruto de guerra, de jogos, de dunamis (aquilo que é dinâmico, dinamite, força), de agon (combate, luta, de onde surge também agonia, antagonico, protagonista, proto-agonista - primeiro combatente -, antagonista, anti-agonista - o combatente contrário).
O pensador, ou aquele que assume a postura de pensar, se constitui de forma diversa de todos os outros tipos, porque não pode fugir da agonia de sua intensa vontade de conhecer, muito pelo contrário, ele sabe que é a própria agonia que pode propiciar o conhecimento, é a agonia que lhe dará capacidade para avistar novas direções e os instrumentos necessários para construir um novo caminho!
Sinto-me angustiado diante de tudo isso! Na verdade, sinto-me agoniado! Entretanto, não dá para enquadrar essa sensação em termos de bom ou ruim, necessariamente porque é ambas as coisas, e aqui está o grande mistério de um pensamento agonizante.
Janelas são sedutoras Mas são apenas janelas A porta é a Morte.
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sábado, 8 de dezembro de 2012
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Declarações semi-otimistas
Escrever é, para mim, uma forma de libertar-me de minhas angústias, saber que existem pessoas que leem o que eu escrevo é um conforto... Se alguém irá me entender eu ficaria ainda mais satisfeito, por ter encontrado um igual, um que compartilhasse das mesmas dores e das mesmas alegrias; mas se não houver quem me entenda, contento-me apenas em saber que minhas angústias são amenizadas quando escrevo, mesmo se ninguém ler.
Não estou preocupado em agradar ou desagradar o leitor desse blog, estou interessado apenas em tornar público algo que me é tão particular quanto os órgãos que me mantém vivo. Porque o pensamento é também aquilo que diferencia pessoas de animais... Por isso eu acredito que os animais tem mais dignidade do que certas "pessoas", pois se assemelham mais ao ideal de humano que tenho em mente.
Por certo, animais não fazem conexões lógicas tão elaboradas quanto os humanos, mas são muito mais sensíveis, agradáveis e carinhosos. São muito mais sinceros que homens. Por este motivo, todos os meus cães possuem nome de gente, não nomes caninos, tais como: Totó, Lála, Bobó, Xixi, etc.
A infantilização mental não pertence propriamente às crianças com idade menor que 7 anos, mas a quase toda a civilização humana domesticada pelas mercadorias, pelas multidões de informações vazias, pelo Estado e pela mídia massificante.
Mas o assunto que me inspirou a escrever esse texto é bem mais complicado que isso, tem a ver com angústia, solidão e encarceramento.

Chorei longos momentos até que o sol raiasse hoje, até que a noite se dissipasse na janela. Minha cabeça estava sobremaneira atordoada com imagens e pensamentos.
Tudo isso é uma tragédia, eu pensava. Tudo isso é uma tragédia, tudo isso é uma tragédia... E isso se repetia irritavelmente na minha mente, nos meus rins, no meu coração e nos meus ossos.

Tudo isso? Tudo isso o quê? Tudo! Os prédios, as casas, as ruas vazias na madrugada, todas as pessoas dormindo, a sociedade toda é uma tragédia! Por quê? Porque estamos todos sozinhos! Não, não estamos sozinhos no Universo, o problema é bem mais cruel e apavorante! Estamos todos sozinhos entre nós mesmos, perdidos na nossa própria raça humana!

Estamos todos interligados pela internet, pelas avenidas, pelos corredores, trombamos aos solavancos com inúmeras pessoas. Mais de 6,5 bilhões de pessoas se entrecruzam todos os dias, todas as noites, todas as horas. Mas nunca estivemos tão solitários, tão abandonados, tão jogados quanto hoje!
E essa faísca de pensamento em mim se tornou uma grande queimada, um fogo que me consumiu, e todas as minhas angústias se aglomeraram em torno deste único foco: Estamos todos sozinhos e isolados uns dos outros.
A modernidade conseguiu aprimorar a técnica de isolar cada um em seu quadrado!

Não, não estou dizendo que não se pode lutar pela individualidade! Mesmo porque, defender a individualidade é reconhecer que eu tenho direito à liberdade, e reconhecer que todos à minha volta também possuem o mesmo direito.
O que eu detesto com todo o meu sistema biológico nesta sociedade é que não existe individualidade, só existe prisões individuais onde cada um deve ficar trancafiado sem contato algum com seus semelhantes.
As relações existentes não são naturais, são todas frutos da artificialidade de um mundo regado por livre competição, grupos, facções, raças etc.
Não, também não estou promovendo um tipo de amor cristão que é obrigado a amar a todos incondicionalmente. Eu amo quem eu amo, eu gosto de quem eu gosto, ninguém tem gostos e desejos iguais, cada qual deve amar e gostar de quem ou daquilo que lhe apraz.
Eu só sei que me soou tão falsa a estrutura das cidades, daquilo que chamamos urbano, de todas as metrópolis. Os carros respeitando os sinais, os semáforos, as faixas. Os pedestres atravessando quando se acende uma luz vermelha para os carros, os alarmes, a polícia... É tanta ordem, tanta ordem! Todos gritando por ordem, tudo deve estar no seu exato lugar na cidade! NÃO PISE NA GRAMA! NÃO FUME AQUI! NÃO ATRAVESSE ESSA PROPRIEDADE! ENTRADA PROIBIDA! NÃO TOQUE! NÃO CHEIRE! NÃO, NÃO, NÃO!

A cidade grita NÃO o tempo todo! As cidades querem controle e ordem, nada pode estar fora do lugar! É esquizofrênico, é doente, é anti-natural!
Isso tudo é uma tragédia, é uma tragédia!
E porquê é uma tragédia? É uma tragédia exatamente porque não temos outra estrutura, não conseguimos ir além disso, não podemos pensar em outra estrutura, em outra forma de resolver nossos problemas! É pecado, é crime... É LOUCURA! Tudo já está no seu lugar, tudo já está feito, tudo "já está consumado"!

E, nós, que não nos conformamos com essa estrutura maligna, cruel e atroz que criamos... E, nós, que desejamos ser libertos dessas grades... E, nós, que queremos aparecer sem máscaras, sem negar os instintos, os pensamentos, os ideais, sem negar nosso próprio corpo... Nós somos obrigados a olhar tudo isso e fingir que estamos bem, que está tudo correto.
Nâo podemos reclamar o tempo todo para que nossa angústia não seja banalizada!
Não podemos lutar contra isso, pois somos uma minoria ínfima!
Não podemos renunciar este sistema, porque ele domina todo este nosso planeta!
Não podemos fugir para a selva, porque já esquecemos o que os "primitivos" aprenderam com a Natureza!
Estamos castrados, amputados, amarrados, acorrentados, presos ao dia-a-dia trágico de um mundo que não é o que gostaríamos de viver.
E eles nos dizem: "São pessimistas! São anormais!"
Não é que não amemos a vida! Amamos tanto a vida que rejeitamos essa morte!
Amamos tanto a Natureza que nos entristecemos até a medula por não estarmos tão próximos dela quanto necessitamos.
Amamos tanto a vida que abominamos a sociedade modernamente primitiva!
Não estou preocupado em agradar ou desagradar o leitor desse blog, estou interessado apenas em tornar público algo que me é tão particular quanto os órgãos que me mantém vivo. Porque o pensamento é também aquilo que diferencia pessoas de animais... Por isso eu acredito que os animais tem mais dignidade do que certas "pessoas", pois se assemelham mais ao ideal de humano que tenho em mente.
Por certo, animais não fazem conexões lógicas tão elaboradas quanto os humanos, mas são muito mais sensíveis, agradáveis e carinhosos. São muito mais sinceros que homens. Por este motivo, todos os meus cães possuem nome de gente, não nomes caninos, tais como: Totó, Lála, Bobó, Xixi, etc.
A infantilização mental não pertence propriamente às crianças com idade menor que 7 anos, mas a quase toda a civilização humana domesticada pelas mercadorias, pelas multidões de informações vazias, pelo Estado e pela mídia massificante.
Mas o assunto que me inspirou a escrever esse texto é bem mais complicado que isso, tem a ver com angústia, solidão e encarceramento.

Chorei longos momentos até que o sol raiasse hoje, até que a noite se dissipasse na janela. Minha cabeça estava sobremaneira atordoada com imagens e pensamentos.
Tudo isso é uma tragédia, eu pensava. Tudo isso é uma tragédia, tudo isso é uma tragédia... E isso se repetia irritavelmente na minha mente, nos meus rins, no meu coração e nos meus ossos.

Tudo isso? Tudo isso o quê? Tudo! Os prédios, as casas, as ruas vazias na madrugada, todas as pessoas dormindo, a sociedade toda é uma tragédia! Por quê? Porque estamos todos sozinhos! Não, não estamos sozinhos no Universo, o problema é bem mais cruel e apavorante! Estamos todos sozinhos entre nós mesmos, perdidos na nossa própria raça humana!

Estamos todos interligados pela internet, pelas avenidas, pelos corredores, trombamos aos solavancos com inúmeras pessoas. Mais de 6,5 bilhões de pessoas se entrecruzam todos os dias, todas as noites, todas as horas. Mas nunca estivemos tão solitários, tão abandonados, tão jogados quanto hoje!
E essa faísca de pensamento em mim se tornou uma grande queimada, um fogo que me consumiu, e todas as minhas angústias se aglomeraram em torno deste único foco: Estamos todos sozinhos e isolados uns dos outros.
A modernidade conseguiu aprimorar a técnica de isolar cada um em seu quadrado!

Não, não estou dizendo que não se pode lutar pela individualidade! Mesmo porque, defender a individualidade é reconhecer que eu tenho direito à liberdade, e reconhecer que todos à minha volta também possuem o mesmo direito.
O que eu detesto com todo o meu sistema biológico nesta sociedade é que não existe individualidade, só existe prisões individuais onde cada um deve ficar trancafiado sem contato algum com seus semelhantes.
As relações existentes não são naturais, são todas frutos da artificialidade de um mundo regado por livre competição, grupos, facções, raças etc.
Não, também não estou promovendo um tipo de amor cristão que é obrigado a amar a todos incondicionalmente. Eu amo quem eu amo, eu gosto de quem eu gosto, ninguém tem gostos e desejos iguais, cada qual deve amar e gostar de quem ou daquilo que lhe apraz.
Eu só sei que me soou tão falsa a estrutura das cidades, daquilo que chamamos urbano, de todas as metrópolis. Os carros respeitando os sinais, os semáforos, as faixas. Os pedestres atravessando quando se acende uma luz vermelha para os carros, os alarmes, a polícia... É tanta ordem, tanta ordem! Todos gritando por ordem, tudo deve estar no seu exato lugar na cidade! NÃO PISE NA GRAMA! NÃO FUME AQUI! NÃO ATRAVESSE ESSA PROPRIEDADE! ENTRADA PROIBIDA! NÃO TOQUE! NÃO CHEIRE! NÃO, NÃO, NÃO!

A cidade grita NÃO o tempo todo! As cidades querem controle e ordem, nada pode estar fora do lugar! É esquizofrênico, é doente, é anti-natural!
Isso tudo é uma tragédia, é uma tragédia!
E porquê é uma tragédia? É uma tragédia exatamente porque não temos outra estrutura, não conseguimos ir além disso, não podemos pensar em outra estrutura, em outra forma de resolver nossos problemas! É pecado, é crime... É LOUCURA! Tudo já está no seu lugar, tudo já está feito, tudo "já está consumado"!


E, nós, que não nos conformamos com essa estrutura maligna, cruel e atroz que criamos... E, nós, que desejamos ser libertos dessas grades... E, nós, que queremos aparecer sem máscaras, sem negar os instintos, os pensamentos, os ideais, sem negar nosso próprio corpo... Nós somos obrigados a olhar tudo isso e fingir que estamos bem, que está tudo correto.
Nâo podemos reclamar o tempo todo para que nossa angústia não seja banalizada!
Não podemos lutar contra isso, pois somos uma minoria ínfima!
Não podemos renunciar este sistema, porque ele domina todo este nosso planeta!
Não podemos fugir para a selva, porque já esquecemos o que os "primitivos" aprenderam com a Natureza!
Estamos castrados, amputados, amarrados, acorrentados, presos ao dia-a-dia trágico de um mundo que não é o que gostaríamos de viver.
E eles nos dizem: "São pessimistas! São anormais!"
Não é que não amemos a vida! Amamos tanto a vida que rejeitamos essa morte!
Amamos tanto a Natureza que nos entristecemos até a medula por não estarmos tão próximos dela quanto necessitamos.

Amamos tanto a vida que abominamos a sociedade modernamente primitiva!
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