A unicidade revela o complemento do múltiplo
e o múltiplo engendra o ponto-lemniscata
Tendo encontrado a trilha sombria
cabe ao louco enfrentá-la
Sabe-se pouco sobre o futuro
Mas o presente não lhe escapa
e o passado, como bagagem,
lhe serve apenas por bússola
manifesta-se a escavação em busca do profundo
do chumbo do mundo
e trava-se o drama concreto
de acessar o abismo interno
enfia as mãos na terra úmida
e os pés se arraigam no obscuro
básico mais abaixo...
mas o enraizamento é intencional
rasga-se o lombo
para preparar-se ao próximo destino
kether... Que tão longe jaz!
mas o herói procura com melindre seu esteio...
deve fundir-se como o sodio na matéria liquida
permitir-se fluir como o rio
ser ele mesmo a correnteza e movimento
Janelas são sedutoras Mas são apenas janelas A porta é a Morte.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
A sociedade da fantasmagoria
A sociedade da fantasmagoria
A sociedade atual sofre de um mal pleno, escravizados
por um mundo que nós mesmos construímos no processo de abstrair do concreto os
elementos que nos interessam e inventar categorias platônicas cujas formas mutilam a multiplicidade dos indivíduos e a
vasta gama de possibilidades da manifestação humana. Em verdade, temos medo
profundo do devir, do movimento que é
peculiar à natureza; temos medo de como a natureza se apresenta, crua e
friamente, indiferente à nossa espécie e aos nossos desejos.
O corpo é um dos pilares que promovem continuamente o
conflito entre a mente abstrata, idealista, utopista, pois ele é o vínculo com
a natureza, o corpo nos mostra que não há consciência sem corpo. Daí que o
corpo seja tratado de forma tão negativa e vedado com inúmeros tabus. A negação
do corpo, no entanto, é somente a parte aparente do problema, mais
profundamente não é apenas o corpo que queremos deixar de encarar, precisamos
desesperadamente negar o movimento de todo o universo (quiçá pensar na
possibilidade de que haja mesmo outros universos então...). Nosso orgulho é tão
grande e reflete a grandeza de toda nossa fraqueza diante da aparente opressão
que a vibração de todas as coisas revela. Nada está sob nosso controle, tudo
está em contínuo movimento.
É óbvio que esta negação ocorre em níveis
diversificados e em instâncias quase infinitas, cada indivíduo interfere no
mundo de forma peculiar, mas, em geral, o modelo coletivo continua o mesmo e
tem força exatamente por ter sido imposto e empurrado nas câmaras do
inconsciente coletivo como verdade irrevogável, por mais de 2.500 anos, a
partir do declínio do pensamento grego, mas mais pontualmente a partir de
Sócrates, Platão e Aristóteles – que, não obstante, guarda relações com o
contexto histórico da época destes grandes filósofos, com a decadência de
Atenas e também da influência da cultura romana, juntamente com toda a
deturpação da cultura e sabedoria helênica que se seguiu pelas mãos dos
primeiros padres da igreja, seguido da subordinação da filosofia ao cárcere da
teologia medieval (patrística e escolástica).
Esse modus
operandi cognitivo se cristalizou tão eficazmente na consciência e,
principalmente na cultura (responsável por perpetuar este modelo de
engessamento do Real) que o fenômeno é considerado como parte orgânica da
experiência de mundo, dos mecanismos cognitivos e das estruturas que sustentam
a produção social da vida. As pessoas ficaram imersas na plena abstração e
vivem apenas de pensamento (apesar de que este pensamento não significa necessariamente algum tipo de
inteligência...). O mundo real sequer é encarado enquanto tal, pelo contrário,
o mundo é analisado e experimentado a partir das categorias que nós construímos
para experimentá-lo, como se o mundo houvesse sido criado à nossa imagem e
semelhança, à imagem e semelhança da necessidade cognitiva de encontrar algo
estável no frenesi caótico do mundo.
A rotina toda é pautada em categorias abstratas de
pensamento, as ações morais não levam em consideração a existência dos corpos,
os nossos, os dos outros seres ou mesmo o das esferas que orbitam o Sol. Os
corpos humanos e os corpos de todos os outros objetos e seres se apresentam destituídos
de corporeidade, são fantasmas, resquícios de matéria. É como se vivêssemos o
mundo de Hades, perambulando como sombras desprovidas de vida – poderíamos também
analisar, neste ínterim, o modo como a mente domina, ou procura dominar, o
corpo de forma semelhante à brincadeira de marionetes.
Engana-se quem acredita que somos materialistas!
Engana-se profundamente! Nosso materialismo é, como se costuma dizer, “só pra
inglês ver”. Todo o aparato social de produção das mercadorias, do consumo, do
capital e tudo mais seguem uma teologia fantasmagórica extremamente racional.
Sim. Há uma lógica interna nesse mecanismo. A lógica do mundo ideal. Não o de
Platão, neste caso, mas o mundo idealizado pelo mercado.
Até mesmo o exibicionismo dos corpos malhados na
academia (quem dera as academias de hoje também se exercitassem nas questões
reais e humanas...) é um desdobramento lógico, um efeito colateral da dissociação
da mente que se isola do corpo. Quando se observa o corpo, tal perspectiva é
sempre realizada em terceira pessoa, na verdade o corpo foi proibido de ser vivenciado, quem lança o olhar sobre o corpo não é o corpo, mas a mente – e de forma metafísica a mente, posteriormente, se observa a si mesma. O corpo jamais deve ser experimentado em plenitude. E nisso a moral puritana, burlesca e provinciana continua a exercer sua drástica e pútrida influência, proibindo o prazer – ou, em casos mais urgentes, criando regras para que o prazer não escape ao controle da mente.
sempre realizada em terceira pessoa, na verdade o corpo foi proibido de ser vivenciado, quem lança o olhar sobre o corpo não é o corpo, mas a mente – e de forma metafísica a mente, posteriormente, se observa a si mesma. O corpo jamais deve ser experimentado em plenitude. E nisso a moral puritana, burlesca e provinciana continua a exercer sua drástica e pútrida influência, proibindo o prazer – ou, em casos mais urgentes, criando regras para que o prazer não escape ao controle da mente.
Mesmo as dores do corpo não servem sequer como sinais
de corporeidade, logo que surgem, percebam isso, devem ser imediatamente
controladas; no caso das dores com medicação e no caso dos prazeres com medidas
morais complexas que estimulam e promovem a culpa. Esta culpa serve como
dispositivo interno controlador do corpo que a mente sempre utiliza quando se
sente ameaçada. Logo, qualquer sintoma corporal deve ser devidamente tratado e
posto em ordem de acordo com os modelos imutáveis da racionalidade e da
fantasmagoria social.
A tecnologia, na relação que exerce entre os corpos, a
mente e o mundo, colabora para o surgimento de novos deslocamentos. Esses novos
deslocamentos são de caráter duplo (na verdade, seria triplo, levando em
consideração a primeira dissociação entre mente e corpo..., mas não queremos
tratar disto agora.). O primeiro é o deslocamento que a mente faz para fugir do
corpo, o segundo é o deslocamento de uma abstração para outra, uma viagem que a
mente faz para fugir de si mesma, já que o movimento que atordoa o mundo
atordoa também a mente. A mente foge para espaços mais abstratos, na
virtualidade – que não deixa de ser um mundo em contraparte do mundo real. A
primeira fuga é fuga do Real, a segunda fuga é fuga do mundo abstrato e do
pensamento. Em ambos espaços (ou não-espaços) o corpo, que permanece no mundo
que existe de fato, sofre profundamente desta esquizofrenia coletiva humana,
porque a mente é o corpo e vice-versa. Os deslocamentos, de fato, são autoengano,
ilusão e constituem mentira.
A mente, acreditando poder se afastar do corpo,
termina por crer ser forte o suficiente para negar as forças da natureza e,
exatamente nestes termos, acredita deixar de fazer parte da natureza, torna-se
uma anomalia. E é esta anomalia mental que procura dominar e subjugar a
natureza toda com a ilusão de poder. A nossa sociedade vive de abstração.
Fantasmagoria da fantasmagoria!
Daniel Vieira de Carvalho
sábado, 29 de agosto de 2015
Sobre a trave nos olhos
Os outros só são inferno quando há inferno nos olhos de quem olha os outros!
Daniel Alabarce
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Platão e a Preguiça Acadêmica
"Os homens não sabem que os verdadeiros filósofos trabalham durante toda sua vida na preparação de sua morte e para estar mortos; por ser assim, seria ridículo que, depois de ter perseguido este único fim, sem descanso, recuassem e tremessem diante da morte."
Trecho retirado do livro "Fédon", de Platão
Não é novidade que a cristandade tenha deturpado com tamanha destreza um dos filósofos mais importantes na História Ocidental - por isto mesmo faço questão de me abster em comentar tal façanha...
O problema é que não foram apenas os teólogos, tradutores e demais pensadores da Idade Média que se aproveitaram da sabedoria de Platão para seus próprios interesses, pervertendo-a a bel prazer, interpretando conforme critérios escusos, abordando suas obras inflamados pelos seus ideais particulares ou mesmo para justificar algum discurso mal construído e mal intencionado utilizando-o para tanto a autoridade platônica. Não é diferente o que acontece nas religiões de diversos níveis, quando usam o nome de seja lá qual for a divindade para corroborar algum extremismo, fanatismo, guerras santas e coisas parecidas.
Os eruditos, os acadêmicos, eles, em segunda instância foram responsáveis também pela má compreensão dos textos.
Por muito tempo eu fiquei titubeante em relação às inúmeras interpretações acerca de Platão (e, por consequência, de Sócrates)... E sejamos honestos! Quem sou eu para travar algum questionamento a estes grandes nomes, a estes grandes espíritos?
Mesmo assim, eu duvidei! Duvidei até agora que todo o sistema filosófico platônico fosse um completo absurdo, uma construção filosófica de negação à vida, tal como criticou Nietzsche em seus escritos anti-platônicos.
Mas o próprio Nietzsche foi também saboreado por paladares não educados e desprovidos de paciência, pois não é hábito de filósofos ou de qualquer pensador que seja ler um livro de filosofia!
Livros de filosofia não foram feitos para serem lidos! Deve-se vivê-los, experienciá-los, degustá-los, entregar-se à atitude do pensamento de maneira irrestrita, sem preconceito, como se aquele livro fosse o próprio autor, como se pudéssemos conversar com o filósofo enquanto tomamos um bom vinho, e isso pressupõe que quem tem em mãos algum livro de filosofia está plenamente consciente de que após esta ação de imersão no livro ele jamais será o mesmo e que se passar por outras linhas filosóficas, outras escolas de pensamentos, outros sistemas... Todos irão criar alguma ruptura, gerar uma fresta, abrir uma fenda na alma de quem se deixou entregar a tal aventura.
Ser filósofo não é ter um diploma na mão. Ser filósofo é ser passional no ato de pensar, na atitude da crítica, mas acima de tudo é ser desapegado da necessidade de utilidade que se tornou uma patologia social. Não se deve em hipótese alguma ter esperança no filosofar, isso é uma abominação! Não se deve ser interesseiro durante este relacionamento, tal como não é esperado que entre amigos exista uma amizade fundamentada apenas na utilidade dos amigos, como se fossem eles uma grande loja onde poderemos satisfazer nossos desejos e depois ir embora sem nenhum vínculo mais nobre. É preciso amar, é preciso desejar vorazmente o conhecimento, é preciso ser um bom amigo para ser um bom filósofo! E isto, definitivamente, a maioria dos acadêmicos não possui, muito menos os eruditos fartos que estão de sua erudição e refinamento, muito menos ainda os cristãos - pelo menos os que não se permitem ler nada além de seu livro sagrado...
De qualquer forma... Eu quis mergulhar novamente no pensamento de Platão e o que venho descobrindo é que há muito ainda que se explicar, há ainda muito que se estudar e muito que se debruçar prazerosamente sobre seus escritos - procurando, claro, no contexto e nas entrelinhas, o que não foi escrito, mas que está ali de alguma forma, espreitando nossos olhos, instigando e seduzindo.
Isto me fez pensar em mergulhar em todos os filósofos com quem já conversei alguma vez em minha vida. Afinal, depois de tantas mutações que me ocorreram levantar âncora para navegar estes imensos mares certamente me levará a lugares novos!
Fica o convite a quem quiser viajar comigo! E aos preguiçosos... Que continuem nos mesmos lugares tediosos que costumam habitar e que os vermes corroam suas putrefações mentais!
quinta-feira, 5 de março de 2015
Exaustão
Escrito em 19.04.2014 às 03h48m da madrugada.
31° Dia de minha Contagem
31° Dia de minha Contagem
Exausto!
Estou exausto.
Exausto de pensar, exausto de ler, exausto de escrever, de dormir, de acordar.
Exausto por lembrar e por esquecer, exausto de dor e de prazer.
Exausto até de me exaurir, uma estafa exaustiva de viver.
Nada que seja tão mal.
Nada, também, de extremo bem...
É apenas esta exaustão tediosa, seguida de ansiedade não nomeável.
Sinto cansaço até nos campos de energia, pois a exaustão transcendeu os limites do meu corpo.
É como se fosse dor metafísica, coceira extrassensorial, preguiça astral...
Exaustão!
Sim!
Sim e Não sob a mesma condição!
domingo, 13 de julho de 2014
Do medo da loucura, da culpa e da incomensurabilidade do universo
Nos últimos dois ou três semestres tenho me dedicado intensamente à uma busca peculiar. Após alguns anos pesquisando sobre a Morte, tanto na filosofia quanto em outras áreas do saber humano, agora vejo se desdobrando à minha frente novas aberturas de entendimento onde é impensável excluir qualquer ponderação, por mais absurda que ela possa parecer (seja no início ou no fim da consideração).
Sempre estive embrenhado nas vertentes religiosas de cunho cristão e minha história está repleta de experiências boas e ruins neste sentido. Nunca me proibi a nada e a nenhum conhecimento que me chegou às mãos deixei escapar mesmo que fosse numa tentativa estapafúrdia de abarcar algo que poderia estar para além das minhas forças.
Hoje, penso, transvalorei o sentido de religião e acredito que o mundo pode viver sem dogmas religiosos e até mesmo sem uma concepção da existência de um Deus à nossa imagem e semelhança...
Isso não significa que deixei de seguir minha alegre curiosidade intrínseca de abrir o mundo todo, por isso mesmo me deixo como legado o presente de deixar meu barco navegar onde os ventos quiserem me levar. Tenho uma propensão muito bem vinda de adentrar os templos, as academias, as casas ou cavernas alheias com a intenção própria de um viajante. Muita gente acha isso de uma repugnância e hostilidade heréticas, pois, como dizem: "como você pode não ter nada definido, nenhum limite, nenhum norte?"
No entanto, o que alguns consideram não possuir uma direção, eu defendo ser minha liberdade, e muito ao contrário do que dizem minha liberdade nunca foi ingênua, sem direção ou descabida de alguma intencionalidade... O problema reside apenas na tão famosa questão de perspectiva. Eu tenho minhas crenças, pois sou um ser humano, mas não fico preso a elas com tanta ganância. Se eu encontrar vivências que me movam para outras crenças, ou descrenças... Não me cercearei tal divertimento. E, claro, desejo estabilidade e um lugar de descanso, mas somente porque eu assim desejo não significa que o universo deixará de dançar ao meu bel prazer. Resta a mim, portanto, entrar na dança...
Olhando a história de alguns pensadores, homens e mulheres que se atreveram a ir além dos limites convencionados por uma cultura, grupo social ou paradigma, sempre me pegava amedrontado por ver que muitos deles, no final da vida, terminaram em manicômios, hospitais psiquiátricos ou em estados de loucura. Sem olhar mais profundamente se a causa da loucura deles foi algum fator bio-químico, neurológico ou pós-traumático, é facilmente constatado que eles foram colocados em um lugar escuso da sociedade por fugirem dos padrões mentais da normalidade. Houveram pensadores que não tiveram essa sina, mas de alguma outra forma foram tratados de modo diferenciado, ora por algum sistema religioso, ora por algum aparato de mecanismos de controle social do Estado, ora pelo próprio grupo social mais próximo em que estavam inseridos.
Não é de se espantar que entre os gregos (este povo que, de longe, em minha opinião, é de uma inteligência absurda) os discursos sobre a loucura eram bem diversos que os que temos hoje, principalmente depois do período em que o cristianismo romano se difundiu pelo mundo medieval. Naquela época a loucura poderia ser considerada, em algumas escolas de pensamento, uma manifestação da divindade.
Quando temos um insight, um momento de abertura intelectual, inspiração ou epifania, na verdade o que acontece é somente um desdobramento, um ponto de abertura que só foi possível por conta de um contexto em teia de relações que, se formos buscar sua origem primeira, se perde inclusive na história da própria humanidade. Este insight não é, nem a pau, um momento isolado, como acreditam os religiosos. Ele é fruto de uma construção que ultrapassa gerações inteiras e abarca também a nossa individualidade nesta existência, no momento do agora. E todos nós temos esses momentos de iluminação. Mas geralmente se convenciona que não se deve ter isso por muito tempo, ou que não se pode ficar pensando muito, pois pensar muito pode levar à loucura, que é diferente de ter um insight. Neste caso (o nosso caso), a loucura serve a propósitos ideológicos específicos e pode ser fruto de uma ação/intervenção social/coletiva de impedir que as pessoas pensem e tenham consciência de sua própria dimensão, de sua própria história, da história das relações e adquiram, deste modo, um certo controle de sua vida e, quem sabe, usufruam da possibilidade de transmutar seu próprio contexto, interagir e transvergir... transvalorar.
Não é à toa que eu, por algum tempo, tenha me preocupado pela minha sanidade... E tenho certeza que muitos dos que irão ler este texto e, em algum aspecto, reconheçam algo semelhante a isto já passaram por crivos deste tipo: "Será que estou ficando zureta?"
Hoje entendo que, como Einstein bem disse, a imaginação é muito mais importante que o conhecimento. Foi a imaginação o motor primeiro do conhecimento humano, não o inverso. É o caos e não a ordem que gera a linearidade. E isso não significa que caos é o mesmo que desordem. Atentem bem a este ponto!
Sou grato à Shiva, uma das entidades (arquétipos, formas-pensamento, crença ou como vocês preferirem chamar) a quem tenho focado minhas meditações nos últimos meses e que me tem sido uma referência muito interessante como convite para pensar os aspectos da destruição e da construção - e digo isso tanto em níveis densos, quanto sutis - , e a todos os amigos e amigas com quem pude conversar e aprofundar ou sutilizar elementos. No final, tudo isso é, de fato, um divertimento, uma forma de não se privar do ato criativo necessário à boa saúde mental, física e psíquica.
A ciência humana é imensa e tenho certeza de que ela pode aumentar ainda mais - não obstante, estou plenamente convicto de que, como espécie, estamos mais próximos de expurgar nossa história neste planeta do que construir algo novo e melhor...
Torno público, então, um medo e uma esperança que tenho, um texto que nasce como filho sagrado de minhas dores e sofrimento, mas que reflete meu prazer e vontade de potência...
---
Meu coração pulsa todo o tempo desde que fui concebido até o dia de minha morte e dedico-lhe pouco tempo para ouvi-lo. Geralmente o barulho do mundo é tão forte que abafa o som contínuo, ora em tempo, ora em contratempo. Mas ele está aqui e percute a música que me movimenta.
Quando medito e presto atenção especial à minha respiração e harmonizo o ritmo dos meus pulmões ao balançar do fluxo de sangue bombeado por todas as ramificações do meu corpo sou levado entender que, de fato, o que é para cima também é para baixo. O movimento dançante que me embala é o mesmo que, num giro freneticamente maior e de nível cósmico, destrói e constrói todo o universo.
E, tornando à consciência objetiva, esta que meus sentidos superficiais me oferecem, percebo um movimento semelhante e sou seduzido pelas luzes, primeiramente das estrelas no céu, fantasmagorias de seres celestes que podem já nem existir realmente, mas cuja manifestação demorou a chegar nas órbitas dos meus olhos... e segundamente, pelas luzes dos olhos dos meus próximos. Cada um é um universo inteiro e infinito para dentro e para fora.
Fico emocionado e confuso com tamanha grandiosidade e com a espantosa pequenez de tudo o que experimento. É paradoxal, mas nem por isso deixa de ter sentido, pois tudo isso já existia antes de mim... Eu, neste curto espaço de tempo tenho o privilégio existencial de nomear o mundo, referenciar meu olhar, mesmo que só por este ínfimo instante, um mínimo miraculoso momento de grandiosidade e riqueza que nada nem ninguém pode me retirar. O agora do meu acontecimento é único, tal como são únicos os pontos e traçados de um arabesco. E como é bonito saber, saber o gosto de uma fruta ou a cor de Vênus quando está diante do meu horizonte; saber a dor que tenho na coluna e as sinapses aceleradíssimas do meu cérebro; saber o prazer ou o sofrimento, saborear, ser sendo.
Toda a turbulência de pensamentos que enchem minha cabeça como maré puxada pelas correntes magnéticas lunares às vezes é tão assustadora que sinto medo de entrar em colapso, cair dentro de mim mesmo e me perder neste meu próprio abismo, como se vivenciasse um olhar misterioso e ultra permissivo que fosse capaz de me deixar absorto em minha liberdade mais poderosa de romper os limites da minha racionalidade. Por muitos anos me subjuguei à culpa, esta culpa que é a ilusão mais tosca e ridícula que o homem poderia se impor, a culpa da loucura, do pecado e da doença.
Agora, mesmo que receoso no canto de minhas têmporas, já não me apavoro com todas as tempestades criativas que minha imaginação me oferece, porque sei que a luz só se produz por um movimento lancinante e uma permissividade de vida total e ascendente, corajosa e ousada, forte o suficiente para aceitar e caminhar em direção de seu maior desgaste, de sua explosão mais intensa manifestando as cores mais belas, as nuances mais musicais e deixando fruir o mundo todo de seu espetáculo mais nobre. Somos mortais, pequenos e limitados e nosso conhecimento acerca do mundo, e nossa história como espécie na superfície deste planeta não nos garante nenhum direito para dar algum argumento suficientemente eficaz para estancar ou coagular os vetores da vida em sua manifestação cósmica. A Natureza nos é indiferente acerca deste assunto... E deveríamos ser um reflexo deste desapego... Deveríamos parar de nos importar tanto em justificar o Movimento ou compreender algo que nos é incompreensível. É muito mais honesto dizer o que não sabemos e nos alegrar com o que temos. Perambular toda essa magna gama de possibilidades que foi jogada na nossa cara como zumbis insensíveis ou como murmuradores resmungões é o mesmo que sentar diante de uma televisão e escorrer o cérebro comendo comida podre, ou perpetuar a burrice e a ignorância dos escravos, ou ainda manter o status quo do sacrilégio que nossa sociedade comete ao fechar os olhos para a gratuidade de ser e existir no aqui.
Preparar-se para a morte é o mesmo que preparar-se para resplandecer como uma estrela - se há algo para além ou aquém deste momento em que existo e experimento o mundo, tanto faz... Nem mesmo a existência de uma Entidade Universal Inteligente (Deus) me incomoda... O que vejo neste meu universo é lindo o suficiente para tornar a existência de tal Entidade uma conjectura incognoscível, uma hipótese incomensurável e um ponto de desgaste que se coloca como qualquer poeira interestelar onde eu só poderia chegar por meios que me fogem a própria usurpação do meu tenro irracionalismo fervilhante, apenas na completa destruição das minhas identidades, tão somente naquilo que os modernos tanto insistem em rotular como repugnante, anormal, fora do padrão: perder a razão.
E já nem me importo com o caráter poético do que escrevo, ou da cientificidade das possibilidades do que penso, pois pouco me importa diante desta imensidão cósmica uma linha teórica apenas, os dogmas, os mitos, os panteões e as religiões. Diante da velocidade da luz tudo se desintegra, tudo se desfaz e como filósofo tudo o que me espanta é tudo quanto me faz dançar. Tudo é movimento! Tudo isso me apraz... E a cada um cabe o seu destino e a sua escolha de se permitir dançar neste caos potencial, nesta poderosíssima expressão interna que somos e nesta magnífica obra de arte que nos tornamos!
Sempre estive embrenhado nas vertentes religiosas de cunho cristão e minha história está repleta de experiências boas e ruins neste sentido. Nunca me proibi a nada e a nenhum conhecimento que me chegou às mãos deixei escapar mesmo que fosse numa tentativa estapafúrdia de abarcar algo que poderia estar para além das minhas forças.
Hoje, penso, transvalorei o sentido de religião e acredito que o mundo pode viver sem dogmas religiosos e até mesmo sem uma concepção da existência de um Deus à nossa imagem e semelhança...
Isso não significa que deixei de seguir minha alegre curiosidade intrínseca de abrir o mundo todo, por isso mesmo me deixo como legado o presente de deixar meu barco navegar onde os ventos quiserem me levar. Tenho uma propensão muito bem vinda de adentrar os templos, as academias, as casas ou cavernas alheias com a intenção própria de um viajante. Muita gente acha isso de uma repugnância e hostilidade heréticas, pois, como dizem: "como você pode não ter nada definido, nenhum limite, nenhum norte?"
No entanto, o que alguns consideram não possuir uma direção, eu defendo ser minha liberdade, e muito ao contrário do que dizem minha liberdade nunca foi ingênua, sem direção ou descabida de alguma intencionalidade... O problema reside apenas na tão famosa questão de perspectiva. Eu tenho minhas crenças, pois sou um ser humano, mas não fico preso a elas com tanta ganância. Se eu encontrar vivências que me movam para outras crenças, ou descrenças... Não me cercearei tal divertimento. E, claro, desejo estabilidade e um lugar de descanso, mas somente porque eu assim desejo não significa que o universo deixará de dançar ao meu bel prazer. Resta a mim, portanto, entrar na dança...
Olhando a história de alguns pensadores, homens e mulheres que se atreveram a ir além dos limites convencionados por uma cultura, grupo social ou paradigma, sempre me pegava amedrontado por ver que muitos deles, no final da vida, terminaram em manicômios, hospitais psiquiátricos ou em estados de loucura. Sem olhar mais profundamente se a causa da loucura deles foi algum fator bio-químico, neurológico ou pós-traumático, é facilmente constatado que eles foram colocados em um lugar escuso da sociedade por fugirem dos padrões mentais da normalidade. Houveram pensadores que não tiveram essa sina, mas de alguma outra forma foram tratados de modo diferenciado, ora por algum sistema religioso, ora por algum aparato de mecanismos de controle social do Estado, ora pelo próprio grupo social mais próximo em que estavam inseridos.
Não é de se espantar que entre os gregos (este povo que, de longe, em minha opinião, é de uma inteligência absurda) os discursos sobre a loucura eram bem diversos que os que temos hoje, principalmente depois do período em que o cristianismo romano se difundiu pelo mundo medieval. Naquela época a loucura poderia ser considerada, em algumas escolas de pensamento, uma manifestação da divindade.
Quando temos um insight, um momento de abertura intelectual, inspiração ou epifania, na verdade o que acontece é somente um desdobramento, um ponto de abertura que só foi possível por conta de um contexto em teia de relações que, se formos buscar sua origem primeira, se perde inclusive na história da própria humanidade. Este insight não é, nem a pau, um momento isolado, como acreditam os religiosos. Ele é fruto de uma construção que ultrapassa gerações inteiras e abarca também a nossa individualidade nesta existência, no momento do agora. E todos nós temos esses momentos de iluminação. Mas geralmente se convenciona que não se deve ter isso por muito tempo, ou que não se pode ficar pensando muito, pois pensar muito pode levar à loucura, que é diferente de ter um insight. Neste caso (o nosso caso), a loucura serve a propósitos ideológicos específicos e pode ser fruto de uma ação/intervenção social/coletiva de impedir que as pessoas pensem e tenham consciência de sua própria dimensão, de sua própria história, da história das relações e adquiram, deste modo, um certo controle de sua vida e, quem sabe, usufruam da possibilidade de transmutar seu próprio contexto, interagir e transvergir... transvalorar.
Não é à toa que eu, por algum tempo, tenha me preocupado pela minha sanidade... E tenho certeza que muitos dos que irão ler este texto e, em algum aspecto, reconheçam algo semelhante a isto já passaram por crivos deste tipo: "Será que estou ficando zureta?"
Hoje entendo que, como Einstein bem disse, a imaginação é muito mais importante que o conhecimento. Foi a imaginação o motor primeiro do conhecimento humano, não o inverso. É o caos e não a ordem que gera a linearidade. E isso não significa que caos é o mesmo que desordem. Atentem bem a este ponto!
Sou grato à Shiva, uma das entidades (arquétipos, formas-pensamento, crença ou como vocês preferirem chamar) a quem tenho focado minhas meditações nos últimos meses e que me tem sido uma referência muito interessante como convite para pensar os aspectos da destruição e da construção - e digo isso tanto em níveis densos, quanto sutis - , e a todos os amigos e amigas com quem pude conversar e aprofundar ou sutilizar elementos. No final, tudo isso é, de fato, um divertimento, uma forma de não se privar do ato criativo necessário à boa saúde mental, física e psíquica.
A ciência humana é imensa e tenho certeza de que ela pode aumentar ainda mais - não obstante, estou plenamente convicto de que, como espécie, estamos mais próximos de expurgar nossa história neste planeta do que construir algo novo e melhor...
Torno público, então, um medo e uma esperança que tenho, um texto que nasce como filho sagrado de minhas dores e sofrimento, mas que reflete meu prazer e vontade de potência...
---
Meu coração pulsa todo o tempo desde que fui concebido até o dia de minha morte e dedico-lhe pouco tempo para ouvi-lo. Geralmente o barulho do mundo é tão forte que abafa o som contínuo, ora em tempo, ora em contratempo. Mas ele está aqui e percute a música que me movimenta.
Quando medito e presto atenção especial à minha respiração e harmonizo o ritmo dos meus pulmões ao balançar do fluxo de sangue bombeado por todas as ramificações do meu corpo sou levado entender que, de fato, o que é para cima também é para baixo. O movimento dançante que me embala é o mesmo que, num giro freneticamente maior e de nível cósmico, destrói e constrói todo o universo.
E, tornando à consciência objetiva, esta que meus sentidos superficiais me oferecem, percebo um movimento semelhante e sou seduzido pelas luzes, primeiramente das estrelas no céu, fantasmagorias de seres celestes que podem já nem existir realmente, mas cuja manifestação demorou a chegar nas órbitas dos meus olhos... e segundamente, pelas luzes dos olhos dos meus próximos. Cada um é um universo inteiro e infinito para dentro e para fora.
Fico emocionado e confuso com tamanha grandiosidade e com a espantosa pequenez de tudo o que experimento. É paradoxal, mas nem por isso deixa de ter sentido, pois tudo isso já existia antes de mim... Eu, neste curto espaço de tempo tenho o privilégio existencial de nomear o mundo, referenciar meu olhar, mesmo que só por este ínfimo instante, um mínimo miraculoso momento de grandiosidade e riqueza que nada nem ninguém pode me retirar. O agora do meu acontecimento é único, tal como são únicos os pontos e traçados de um arabesco. E como é bonito saber, saber o gosto de uma fruta ou a cor de Vênus quando está diante do meu horizonte; saber a dor que tenho na coluna e as sinapses aceleradíssimas do meu cérebro; saber o prazer ou o sofrimento, saborear, ser sendo.
Toda a turbulência de pensamentos que enchem minha cabeça como maré puxada pelas correntes magnéticas lunares às vezes é tão assustadora que sinto medo de entrar em colapso, cair dentro de mim mesmo e me perder neste meu próprio abismo, como se vivenciasse um olhar misterioso e ultra permissivo que fosse capaz de me deixar absorto em minha liberdade mais poderosa de romper os limites da minha racionalidade. Por muitos anos me subjuguei à culpa, esta culpa que é a ilusão mais tosca e ridícula que o homem poderia se impor, a culpa da loucura, do pecado e da doença.
Agora, mesmo que receoso no canto de minhas têmporas, já não me apavoro com todas as tempestades criativas que minha imaginação me oferece, porque sei que a luz só se produz por um movimento lancinante e uma permissividade de vida total e ascendente, corajosa e ousada, forte o suficiente para aceitar e caminhar em direção de seu maior desgaste, de sua explosão mais intensa manifestando as cores mais belas, as nuances mais musicais e deixando fruir o mundo todo de seu espetáculo mais nobre. Somos mortais, pequenos e limitados e nosso conhecimento acerca do mundo, e nossa história como espécie na superfície deste planeta não nos garante nenhum direito para dar algum argumento suficientemente eficaz para estancar ou coagular os vetores da vida em sua manifestação cósmica. A Natureza nos é indiferente acerca deste assunto... E deveríamos ser um reflexo deste desapego... Deveríamos parar de nos importar tanto em justificar o Movimento ou compreender algo que nos é incompreensível. É muito mais honesto dizer o que não sabemos e nos alegrar com o que temos. Perambular toda essa magna gama de possibilidades que foi jogada na nossa cara como zumbis insensíveis ou como murmuradores resmungões é o mesmo que sentar diante de uma televisão e escorrer o cérebro comendo comida podre, ou perpetuar a burrice e a ignorância dos escravos, ou ainda manter o status quo do sacrilégio que nossa sociedade comete ao fechar os olhos para a gratuidade de ser e existir no aqui.
Preparar-se para a morte é o mesmo que preparar-se para resplandecer como uma estrela - se há algo para além ou aquém deste momento em que existo e experimento o mundo, tanto faz... Nem mesmo a existência de uma Entidade Universal Inteligente (Deus) me incomoda... O que vejo neste meu universo é lindo o suficiente para tornar a existência de tal Entidade uma conjectura incognoscível, uma hipótese incomensurável e um ponto de desgaste que se coloca como qualquer poeira interestelar onde eu só poderia chegar por meios que me fogem a própria usurpação do meu tenro irracionalismo fervilhante, apenas na completa destruição das minhas identidades, tão somente naquilo que os modernos tanto insistem em rotular como repugnante, anormal, fora do padrão: perder a razão.
E já nem me importo com o caráter poético do que escrevo, ou da cientificidade das possibilidades do que penso, pois pouco me importa diante desta imensidão cósmica uma linha teórica apenas, os dogmas, os mitos, os panteões e as religiões. Diante da velocidade da luz tudo se desintegra, tudo se desfaz e como filósofo tudo o que me espanta é tudo quanto me faz dançar. Tudo é movimento! Tudo isso me apraz... E a cada um cabe o seu destino e a sua escolha de se permitir dançar neste caos potencial, nesta poderosíssima expressão interna que somos e nesta magnífica obra de arte que nos tornamos!
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Acontecimento no Campo de Centeio
Ela seduz e afasta
Assusta, espanta e maravilha
Me persegue desde a tenra infância
Desperta uma dor que fervilha
É semelhante à sombra
Que anda em sincronia
Projetada nos muros
Introjetada nos olhos
Absorvida na alma
Tragada nos dentes
Servida nas taças
Diluída nos sulcos
Dissolvida na terra
Absolvida na mente
Pendente...
Cainte...
Moída...
Sorte, fardo ou bem aventurança?
Da minha vida é ela o ponto
A vírgula
A letra
O verbo
O tempo
O ritmo
O pulso
A música...
Os jogos das crianças
As obras do artista
É Morte!
E é dura como aço
Fluida como o rio
Semelhante a mulheres...
um paradoxo!
É Morte!
A eterna questão que é meu norte
(em homenagem à Teresa , Alcimar e Eliane)
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Lua Negra
50° Dia da Minha Própria Contagem no Meu Caderno de Paradoxo.
(escrito em 27.06.2014 - 02h01)
Três furtivos e inesperados meteoritos rasgaram o céu de Tremembé, anunciando aos meus olhos a beleza e o perigo do universo lá fora. Uma noite fria em que me deito pensando a origem de um sentimento exaustivo de solidão que me descarregou o cenho e deixou uma forma suave de amortecimento nas têmporas.
Não consegui encontrar causa alguma deste leve sofrimento que de modo estranho me silenciava numa paz peculiar ao instante posterior à guerra ou ao som soberano de um trovão. O céu permanecia límpido acima do coronário e negro feito véu de açoite, uma cena fúnebre onde tanto já se chorou que ao coração resta apenas acalmar-se e sossegar.
A dama invisível redonda e negra se oculta na sombra penumbrosa do planeta e fita um olhar lancinante a todos os viventes desta parte de terra; sua face, terrível e assustadora, geria sedução e fascínio em seu útero abismal e prepara um espanto estético a seus seguidores noturnos, uma hecatombe de energia escura e poderosíssima.
Nós que dormitamos, então, sentimos penetrar inquietante seu canto sutil que se perfaz na alma de seus amantes... Obscura lua de três faces misteriosas cujos feitiços repousa calmamente sobre as planícies, cujos portais se abrem de quando em quando, revelando aos sussurros os arcanos solares e a magia superior das estrelas que caíram...
Porque eu estaria sentindo tamanha solidão?
Mal de poeta é querer nomear o inominável, por isso sofre.
Não sofre nem de amor, nem de esperança, nem de dor, sofre por letras, nomes e sangra palavras com paixão masoquista/sádica que apenas outros poetas sádicos/masoquistas compreendem.
No final tudo retorna. A lua negra na crescente e esta na cheia e tudo outra vez... ad infinitum. Nasce uma criança, cresce um jovem. Ri. Chora. Suspira. Morre.
E eles explodem planetas, colidem galáxias inteiras, mas também o divertimento dos deuses cessa e tudo é permeado por um imenso e mórbido silêncio...
E se olharmos o universo lá de fora parece-nos por um átimo de tempo que ele está imóvel, estático... Repentina e sorrateiramente percebemos, no entanto, que lá fora, ou num universo paralelo, ou na dimensão ou esfera mais alta é bem aqui onde estamos, o eterno Agora.
O séquito desta música me corteja e alucina a divisão que há entre a minha medula e minha alma, lugar onde apenas uma navalha microcósmica poderia adentrar, cindindo os bronquíolos das partículas de ar e das bolhas que o trepidar violento dos meus soluços provocou.
O vento leva a pluma onde quer, mas não sabe pra onde vai. O vento passa pelo meu corpo, bate em meu peito e me dá de presente um perfume de nostalgia. Quero tornar a voar como as gaivotas e nunca retornar.
O vento leva a pluma onde quer, mas o poeta, se souber, usa a pluma para voar em qualquer lugar, sua Vontade é seu Objetivo, sua meta é mergulhar dentro.
Recrudesce o três na linha e por tecelagem divina no um o dois se reduz... Corta-se tudo e fica este ponto.
Veja o ponto, este átomo, um mundo oculto que se distancia no archè dos nossos olhos escusos. Quantos destes pontos existem, pixels infratelúricos, intercósmicos, extramundos, supraexistentes repletos de seres, vivos e não-vivos, conscientes ou não...
Serpenteia dançante, lucífera e satanicamente, a linha acima deste ponto e eis que se faz a pergunta mais nobre, e eis que da escuridão mais intensa surgem as mais nobres perguntas, os mais belos pontos de interrogação.
Rogo internamente o abismo de todos para que sempre roguem cada qual sua própria profundidade.
(escrito em 27.06.2014 - 02h01)
Três furtivos e inesperados meteoritos rasgaram o céu de Tremembé, anunciando aos meus olhos a beleza e o perigo do universo lá fora. Uma noite fria em que me deito pensando a origem de um sentimento exaustivo de solidão que me descarregou o cenho e deixou uma forma suave de amortecimento nas têmporas.
Não consegui encontrar causa alguma deste leve sofrimento que de modo estranho me silenciava numa paz peculiar ao instante posterior à guerra ou ao som soberano de um trovão. O céu permanecia límpido acima do coronário e negro feito véu de açoite, uma cena fúnebre onde tanto já se chorou que ao coração resta apenas acalmar-se e sossegar.
A dama invisível redonda e negra se oculta na sombra penumbrosa do planeta e fita um olhar lancinante a todos os viventes desta parte de terra; sua face, terrível e assustadora, geria sedução e fascínio em seu útero abismal e prepara um espanto estético a seus seguidores noturnos, uma hecatombe de energia escura e poderosíssima.Nós que dormitamos, então, sentimos penetrar inquietante seu canto sutil que se perfaz na alma de seus amantes... Obscura lua de três faces misteriosas cujos feitiços repousa calmamente sobre as planícies, cujos portais se abrem de quando em quando, revelando aos sussurros os arcanos solares e a magia superior das estrelas que caíram...
Porque eu estaria sentindo tamanha solidão?
Mal de poeta é querer nomear o inominável, por isso sofre.
Não sofre nem de amor, nem de esperança, nem de dor, sofre por letras, nomes e sangra palavras com paixão masoquista/sádica que apenas outros poetas sádicos/masoquistas compreendem.
No final tudo retorna. A lua negra na crescente e esta na cheia e tudo outra vez... ad infinitum. Nasce uma criança, cresce um jovem. Ri. Chora. Suspira. Morre.
E eles explodem planetas, colidem galáxias inteiras, mas também o divertimento dos deuses cessa e tudo é permeado por um imenso e mórbido silêncio...
E se olharmos o universo lá de fora parece-nos por um átimo de tempo que ele está imóvel, estático... Repentina e sorrateiramente percebemos, no entanto, que lá fora, ou num universo paralelo, ou na dimensão ou esfera mais alta é bem aqui onde estamos, o eterno Agora.
O séquito desta música me corteja e alucina a divisão que há entre a minha medula e minha alma, lugar onde apenas uma navalha microcósmica poderia adentrar, cindindo os bronquíolos das partículas de ar e das bolhas que o trepidar violento dos meus soluços provocou.
O vento leva a pluma onde quer, mas não sabe pra onde vai. O vento passa pelo meu corpo, bate em meu peito e me dá de presente um perfume de nostalgia. Quero tornar a voar como as gaivotas e nunca retornar.
O vento leva a pluma onde quer, mas o poeta, se souber, usa a pluma para voar em qualquer lugar, sua Vontade é seu Objetivo, sua meta é mergulhar dentro.
Recrudesce o três na linha e por tecelagem divina no um o dois se reduz... Corta-se tudo e fica este ponto.
Veja o ponto, este átomo, um mundo oculto que se distancia no archè dos nossos olhos escusos. Quantos destes pontos existem, pixels infratelúricos, intercósmicos, extramundos, supraexistentes repletos de seres, vivos e não-vivos, conscientes ou não...
Serpenteia dançante, lucífera e satanicamente, a linha acima deste ponto e eis que se faz a pergunta mais nobre, e eis que da escuridão mais intensa surgem as mais nobres perguntas, os mais belos pontos de interrogação.
?
Rogo internamente o abismo de todos para que sempre roguem cada qual sua própria profundidade.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Pequena Reflexão sobre Educação e Messianismo Filosófico
Tal é o grave impasse
que nos encontramos. A sociedade moderna anda a passos largos de sua própria
ruína e o clamor pela vinda do Messias se torna cada vez mais retumbante! Todos nós, espíritos livres e nobres, já estamos vacinados historicamente contra o engano e a ilusão da culpa. Mas é bom alertar os desavisados sobre como funciona a lógica desse processo e de como a culpa, os desastres sociais e a necessidade de um salvador escondem uma forte conexão.
ENCONTRANDO UM BODE
Primeira etapa do processo
ENCONTRANDO UM BODE
Primeira etapa do processo
Sempre quando a sociedade passa por algum período crítico
de desconstrução, de colapso ou de transição começam a fervilhar grupos
parecidos com os da inquisição católica na idade média. Como não se tem o costume
de procurar encontrar a raiz primeira que originou o colapso e analisar
rigorosamente os desdobramentos que se foram formulando após este ponto de
origem, a lógica falaciosa subliminar que vai nos corroendo consiste em tentar
por todos os meios encontrar um bode expiatório, um ou mais culpados pelo mal
estar do momento.
CARIMBANDO A DOENÇA
Segunda etapa do processo
Floresce durante um período de crise se encontra quando o desespero é tão grande que os grupos científicos, sociais e políticos (e de todas as demais áreas, pois trata-se de um colapso simultâneo, apesar de aleatório) passam a exigir uma resposta imediata, um diagnóstico fast-food para pelo menos amenizar a sensação de destruição. Isso ocorre também, por exemplo, quando estamos doentes. A medicina avançou de modo tão maravilhoso que todos nós, ao ficarmos doentes, exigimos do médico um diagnóstico cirúrgico acerca do que sentimos, precisamos urgentemente dar um nome à doença...
- Ai, eu estou doente, médico, vou morrer! (chora copiosamente
-Fique tranquilo, isso é câncer maligno e já se alastrou por todos os órgãos do seu corpo
-Ufa! Agora estou mais tranquilo!
Esse comportamento de nomear a doença tem uma razão de ser, ela serve ao propósito de controlar a doença, pois nomeando a doença, nós delimitamos seus efeitos colaterais e temos a sensação (na maioria das vezes enganosa) de que conseguimos amenizá-la ou mesmo curá-la apenas por saber que tipo de doença é.
CARIMBANDO A DOENÇA
Segunda etapa do processo
Floresce durante um período de crise se encontra quando o desespero é tão grande que os grupos científicos, sociais e políticos (e de todas as demais áreas, pois trata-se de um colapso simultâneo, apesar de aleatório) passam a exigir uma resposta imediata, um diagnóstico fast-food para pelo menos amenizar a sensação de destruição. Isso ocorre também, por exemplo, quando estamos doentes. A medicina avançou de modo tão maravilhoso que todos nós, ao ficarmos doentes, exigimos do médico um diagnóstico cirúrgico acerca do que sentimos, precisamos urgentemente dar um nome à doença...
- Ai, eu estou doente, médico, vou morrer! (chora copiosamente
-Fique tranquilo, isso é câncer maligno e já se alastrou por todos os órgãos do seu corpo
-Ufa! Agora estou mais tranquilo!
Esse comportamento de nomear a doença tem uma razão de ser, ela serve ao propósito de controlar a doença, pois nomeando a doença, nós delimitamos seus efeitos colaterais e temos a sensação (na maioria das vezes enganosa) de que conseguimos amenizá-la ou mesmo curá-la apenas por saber que tipo de doença é.
Estamos num momento
parecido como o de um doente terminal, mas não queremos assumir nossa condição.
Filosofar, dentro desse
contexto perigosamente desagradável, se torna algo árido, e complicado, pois aceitamos o dogma de que a filosofia pode nos ajudar a encontrar um caminho para nossa
salvação.
A CHEGADA DO MESSIAS
Terceira Etapa do Processo
Esta é a terceira etapa do processo de culpabilização (que é a outra face da moeda... de um lado temos o bode expiatório, do outro o cordeiro... não sei... mas parece que eu estou tendo um deja vu)
A CHEGADA DO MESSIAS
Terceira Etapa do Processo
Esta é a terceira etapa do processo de culpabilização (que é a outra face da moeda... de um lado temos o bode expiatório, do outro o cordeiro... não sei... mas parece que eu estou tendo um deja vu)
Queremos algo do tipo
messiânico.
Ora vejam! Que espanto!
Acreditamos tanto na racionalidade que agora tornamos ao nosso vício religioso! Somos tão fanáticos quanto os carrascos da inquisição católica. Claro que de uma forma muito mais sutil. Mas eis aí nossa aflição por transformar a filosofia ou qualquer outra área do saber humano em um Messias.
De preferência um Messias no gerúndio!
Ele está chegando...
Ora vejam! Que espanto!
Acreditamos tanto na racionalidade que agora tornamos ao nosso vício religioso! Somos tão fanáticos quanto os carrascos da inquisição católica. Claro que de uma forma muito mais sutil. Mas eis aí nossa aflição por transformar a filosofia ou qualquer outra área do saber humano em um Messias.
De preferência um Messias no gerúndio!
Ele está chegando...
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