terça-feira, 30 de julho de 2013

Pressupostos de Uma Tragédia II - ou: Da Sabedoria das Máscaras

Da Sabedoria das Máscaras

Reconhecer minhas trevas interiores, tornar a olhar para o buraco mais profundo de mim mesmo e encontrar a minha própria tumba, meu sarcófago putrefato e pavoroso; desvelar a desordem e a loucura que jaziam (e principalmente o caos que subjazia)... Sentir forte nos lábios e em todos os órgãos palatares (tudo quanto há de sensciente em minha integralidade total) o gosto, os cheiros, os vórtices de nuances de claridade e escuridão, as cores (em sua grande parte monocromática)... Conferir cada parte de meu vômito, procurando compreender a alquimia de minha digestão mais secreta, analisando e separando, unindo, sintetizando e retomando os elementos que ainda poderiam contribuir para algum novo antídoto, considerando que alguns venenos, se invertidos, podem gerar cura... Passo a passo, sentindo os medos mais violentos, mas sem conseguir deixar de caminhar para frente, degrau por degrau, tateando tal como um cego, farejando como cachorro, serpenteando como um dragão e sibilando como uma ouroboros... Apoiando-me e sendo apoiado, dando respaldo ou sendo canalizado como guia de outrem... Lançando para frente os meus sons, tal como os morcegos, esperando a reverberação do som que pudesse devolver-me alguma confiança de qualquer coisa concreta mais adiante (e esperando, ainda assim, a possibilidade irrecusável de obter como resposta o oco abismal do além-homem...); ruminando, como a vaca, cada letra da sapiência de tudo quanto me foi apresentado e deixando que a fluidez do sophos realizasse a condução mefistotélica da luz rarefeita do sage que em minha gruta habita... Agindo como um louco para provar os julgamentos mais cruéis ou deixando de receber qualquer ajuda para sofrer inteiramente sozinho os próprios muros (das quais grande parte eu mesmo ergui); curioso ao ponto de ficar em péssimos lençóis, sem ter como fugir, nem como alçar a voz nas alturas e pedir socorro, ou caindo das alturas por falta de oxigênio, ou esquivando-me das esferas de luz por ter degustado as esferas da dor nesta jornada tão misteriosa que é viver ex, de existir...  Sem saber ao certo se a linguagem poderia colaborar de alguma forma para expressar um entendimento que não foi adquirido apenas por meio de linguagem, ou de racionalidade, ou de recursos lógicos e formais... Foi mais ou menos assim que lancei a primeiríssima pedra de minha própria morada.
Olho para o mundo tal como um viandante que se admira e se assusta quando está posto diante de sua jornada, tal como aquele que olha para o caminho, mas não é capaz de enxergar detalhes, nem prever as felicidades e as tristezas que o aguardam. Olho para o mundo sabendo que o mundo mesmo não há, e que as linhas colocadas em frente servem apenas como setas e sombras, como metáforas que apontam para lugares que não são lugares, para objetos que não são objetos, para entes que não são entes e para conceitos que não são conceitos, mas que também não é o Nada!
Olho fixamente para a morte, porque a morte é quem me aguarda em seu seio, mas fitá-la por muito tempo gela a alma... E aí eu crio meus meios, as intermediações, as telas artísticas, a arte mais vergonhosa e mais necessária de quem vive, a hipocrisia de persona, a máscara dos ditirambos...

O herói nunca se deixa desanimar diante de seu destino agourento, e que é o destino de um herói senão a morte? Mas o herói é o maior dos hipócritas, e em sua maior hipocrisia é ele o mais verdadeiro entre todos, pois re-conhece seu próprio medo, experimenta sua sina todo o tempo, e ainda assim não recrudesce, não definha e não se fecha... O segredo do herói não está em desviar os olhos da morte... Ele jamais seria herói se assim agisse... O segredo do herói é a tragédia... O segredo está em saber o modo correto de utilizar as máscaras...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Discurso Cínico da Sombra Intestinal

Discurso Cínico da Sombra Intestinal
16.04.2013

Sou ao simples
como louco
Sou ao louco
como idêntico
Sou ao médico
como doente
Ao cidadão
como uma vergonha
como homens e mulheres,
pois a ninguém rotulo
Degusto o mundo inteiro
digerindo-o em doses.

Minha sombra
é meu reflexo
minha sombra
é quem eu sempre quis ser
pois sendo minha sombra
ninguém jamais diria
que sou outro além de mim
Mas toda a algazarra do mundo
é de quem projeta a sombra
o sol do desbunde
e as luzes frenéticas

-Não sou destrutível como tu,
pedaço de carne falante,
Sou sombra sutil multiforme
que serve apenas ao meu próprio divertimento
Teu ódio pela sombra
é o teu desejo secreto
de deflorar-me sexualmente
numa auto-antropofagia deliciosa

Lambe teu próprio cú, oh homem!
Experimenta tua merda,
pois o que seria a Ouroboros
se não fosse seu desprezo pelo higienicamente correto?
A pedra filosofal é o que você transmuta,
seu próprio esterco!

Enfia tua língua
no interstício final
do intestino:
delgado,
doce e sagrado
experimenta a alquimia de tua bosta
descubra a composição de tua merda.

Deixa atrás o pudor
E se o pudor se excitar
Chupe-o até o fim
Deixe as bundas moles à tua frente
e enterre teu falo
cria tua própria fertilidade!



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Catedral da Nota em Bolha


11.07.2013


No limiar da nota em bolha,
O bordão suave ecoa
Como um cristal que soa
Um nirvana musical

Uma onda que estoura
No ápice de uma frase
Delineando melodicamente
O caminho místico harmônico
Que conduz como a um vento
Um sutil lamber do orvalho
Que escorre gentilmente nos meus dedos
E afunda a tecla no piano, intenso

O topo exprimível em palavras
De forma doentia
Acaba recrudescendo a sensação
Não há como verbalizar a música
Daí que eu não goste de músicas e poesia unidas
Apenas os sons, e somente a relação entre eles
São suficientemente capazes de apontar o eterno
De apresentar da maneira mais sublime
A harmonia de várias vozes, e de várias pessoas
Que dançam a vida do Tudo é Movimento
Apenas os sons são eficazes na Arte Heraclitiana
A arte de experimentar a vida por meio do som
Que reverbera na teia da existência,
Cujos fios as moiras, afoitas, desejam atacar!

Eu atingi o nirvana, mas fui trazido com uma mó de atafona nos pés
E fiquei preso mais uma vez no cotidiano banal do mundo
Desejoso por contar a todos e fazer todos os esforços
Para apresentar a possibilidade infinita de que todos voem
Voem para alturas de ares não viciados
Mas eles estão todos viciados, tenho poucos amigos...
Tenho poucos que me compreendem nessa angústia
Angústia altruísta, de desejar que todos sejam livres
E ver que o real desejo destes pobres pequenos
É comer o pão, beber a água e tudo fazer com agilidade
Esbarrando aqui e ali nas colunas do mundo
Como cegos e surdos... mudos eles não são,
Pois reclamam da “vida” todo tempo
A culpa é o argumento preferencialmente nobre a todos estes
Culpada é a vida de não ter me oferecidos condições para voar

Eu vou voar,
Vou voar a trajetória toda de um som
Vibrar como um raio das minhas próprias cordas musicais
E fazer ressoar a música da minha existência inteira
Como um agradecimento ao complexo emaranhado de variáveis
Variáveis infinitas que colaboraram para ser quem sou
O artista de mim mesmo
Crio, pois, meu mundo, crio o mundo inteiro que sou eu
Crio minha paz e minha beleza mais pura,
Minha liberdade de digerir o mundo sem malícia
Minha ferocidade infantil por rir do abismo
E minha mansidão de ter o direito de mudar de idéia

Eu sou um som
E juntos podemos ser uma sinfonia inteira
As dissonâncias e consonâncias
Estas serão as ferramentas, não para destruir,
Mas para edificar um castelo feito de acordes
Notas e todos os sons mais diversos

A catedral da deusa mais predileta de todas as nações, povos e raças: a Música!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Frequência do Não-Ser

Uma linha que me guia
E me estende ao céu
Prendendo-me a ti
Terra lapidar e cemiterial

Traga-me a imensidão de tudo quanto é grande
Devora-me e digere-me tudo quanto é extenso
Universo Infinito que revela a semente sutil
Da expansão fundamental do que parece vil

Avança o tempo
Apodrece ao vento
As cãs em movimento
Cai pedra, cai folha
Cai a gota no telhado
E permanece esta freqüência
Do Inaudito e Inalcançável
Da imensurável frequência vibratória
Da entropia murmurante do Não-Ser

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Piano Agridoce ao Curry e NagChampa


04.07.2013


Cada noite sentado ao piano e todas as vezes em que, perto da janela, sentia uma dor pulsar nas mãos por tanto ficar estudando valeu a pena. Cada professor que tive, todas as lições que apreendi se constituíram para mim em sabedoria para uma vida inteira – e quem sabe para todas as próximas. As gargalhadas, as lágrimas e os perfumes, as grandes e pequenas audições, as palmas de agradecimento ou os olhares de desapontamento das pessoas que sempre souberam do meu potencial, nada foi em vão. As marcas, as cicatrizes, as seqüelas, as memórias, a nostalgia meio-alegre do tipo agridoce, tudo agora se apresenta diante de mim como suaves instantes efêmeros que, a despeito de sua rapidez assombrosa, me impressionaram eternamente, e re-cordo com um carinho especial todas estas coisas silenciosamente e com um sorriso furtivo no canto da boca, satisfeito por ter sido tempestuoso em tudo que fiz, exagerado na minha forma de comer o mundo inteiro por meio da arte, intensamente ébrio do cálice de tontear da Música das esferas, dos cubos e das formas sem linhas limítrofes – a estas, principalmente, ao disforme, ao dionisíaco, ao estranhamente agradável, sim, essencialmente a esta multiforme luz caótica que me rasgou por inteiro é que sou grato por hoje poder ter dado início à minha transvaloração e à minha paz, sorrateiramente inquieta e inquiridora em sua sede, mas profunda.

terça-feira, 18 de junho de 2013

A verdade dos meus olhos

18.06.2013
A verdade dos meus olhos

Por tanto tempo eu me dediquei aos livros, aos meus pensamentos escritos no papel, nas linhas e curvas das letras, assimilando as curvas de cada montanha como lençol solto no ar... Que acabei por despreocupar-me com a saúde dos meus olhos. Ler à luz de velas, como se estivesse na época das catedrais, carruagens passando lá nas ruas estreitas com o odor fétido de uma sociedade sem encanamento e aquele fervilhar de galinhas, carneiros e porcos exalando toda sua medievalidade. Cá fiquei eu, tão distante da balbúrdia camponesa, dos problemas menores e das preocupações cotidianas, que, por mais fundamentais que fossem, me pareciam sempre minúsculas demais para serem consideradas em minhas altas apreciações estéticas ou filosóficas. Eis aqui, diante de mim, o meu corpo a reclamar que por mais longe que eu possa ir, que por mais profundo que seja o mar, ele é minha sombra por todo o tempo em que aqui me encontrar... O meu corpo gritou de tal forma que não pude mais me dar ao luxo da indiferença, fui obrigado a colocar os pés no chão, como aquele anjo apocalíptico que tem um pé no mar, outro na terra e a cabeça nas alturas...
Eu me sentia muito poderoso em minha altivez e ufania utópica, e vejam só como o simples é eficaz. O orgulho precede a queda, oh, rei de Tiro... Pensava piamente (e pensar é uma das várias formas de se acreditar) que o mal, todo tipo de mal, pudesse ser destruído com grandes invocações, com atos espetaculares de amor ensandecido, mas tudo isso não passa de encenação simbólica de uma verdade que é muito mais ínfima, pequena, como um grão de mostarda. É o simples que tem por função nobre afastar o mal do mundo, é o comum, o cotidiano que nos protege.
Mas fiquei entre a cruz e o punhal... como eu poderia me permitir fazer parte desta roda tenebrosa do frívolo, do corriqueiro? Eu que já fui tão longe, explorando planetas e galáxias, tendo visto toda a imensidão do universo, sabendo da incrível beleza da infinitude do Real... Descobridor das Américas... Oh! Não, não posso participar desse teatro, eu pensava... E quem disse que isso é um teatro estava muito equivocado, porque o sofrimento não é uma peça, nem é a dor uma interpretação... o sofrimento dói de verdade e a dor atordoa até mesmo o grande Aquiles... Não, isso não é um jogo, muito menos uma guerra. Eu, de fato, não sei exatamente o que é a vida, mas tenho plena convicção de que só iremos conseguir rotular vida, quando conseguirmos enlatar a morte... A ilusão moderna nos faz acreditar que a morte virou sardinha, mas a nua e crua fealdade do verdadeiro nos aponta o terror que a todos penetra: somos finitos morreremos.
E por mais que eu deseje os grandes arcanos, lançar as colunas sétimas de um tabernáculo à imagem e semelhança de Salomão, é crucial, antes mesmo de projetar a arquitetura de um sonho, lançar a pedra fundamental. Nenhum grande prédio resistirá se não possuir um seixo bem no centro estrutural de sua base... Casa na areia é levada pelas ondas!
O simples não é simplório, o simples esconde a riqueza do mundo inteiro, como uma pérola que está escondida numa concha... uma concha que só um mergulhador profissional poderia descobrir. Todos os peixes passam pela concha, mas nunca prestaram atenção...
Sempre enxerguei o lado ruim das coisas boas, mas agora estou equilibrando a balança para ver quanto de bom há no ruim, precisamente quanto de força há no péssimo, para forjar a transmutação do chumbo em ouro e, como sempre, eu quis desde o início transmutar esterco... No alto da montanha russa não dá mais pra fugir (claro, porque se fosse montanha brasileira dá um jeitinho e se joga do carrinho), e geralmente nos buracos mais fundos existe petróleo, de qualquer forma não é uma viagem em vão.
Meus olhos doem, minha cabeça pulsa, e começo a degustar beleza do mundo sem os olhos... Quantas matizes, quantas nuances sonoras, que riqueza é o mundo ao meu redor. Na minha imaginação eu sou livre, posso derramar um pinguinho de tinta no papel e fazer um guarda chuva com o chifre de um mamute, e todo o tempo eu rio de mim mesmo, rio com prazer por sempre retornar à minha criança interior, zombeteira, de olhar curioso e sentindo o vento acariciar meu rosto enquanto eu estou sentado no alto de montanha, sozinho, feliz por estar perto de tantas árvores, grama, formigas, cachorros, lagos e um horizonte que aguarda ansiosamente o retorno de seu maior amor, aquele que no finzinho de tarde se revela de escarlate e sangue de fertilidade.
Minhas lágrimas correm, não por causa da dor apenas, mas porque estou impedido de dialogar, por meio do livro, com os grandes espíritos mortos, triste por não poder ficar olhando as estrela magníficas da noite com a lua adornada de um dourado pálido e obscuro como se quisesse vir me beijar lentamente ao som enebriante das gotas de orvalho que soam como um abraço materno e de ter de abster (não de carne, nem de gordura) mas de contemplar tudo quanto eu vejo de belo, uma lesminha numa árvore que pleiteia com imensa coragem em sua escalada pela parede, na aranha que faz sua teia dentro dos átrios internos do templo sem ser autorizado, ou de me emocionar com o cheiro da terra molhada e sentir que as plantas estão dançando com todas as criaturas, a dança da conexão total de todos os tem capacidade de sofrer (amar é a outra face desta mesma moeda).
É passageiro, tudo passa, alegria, tristeza, raiva, amor, e tudo volta ao início. Os ciclos parecem ser infinitos, um eterno retornar, por isso é que tudo flui, coagula e se dissolve... ad absurdum!
O alma minha, porque estás tão abatida, não sabes que somos livres? Não temos mais bolha alguma a nos prender, podemos voar ou pegar carona num cometa e viajar pra qualquer outro lugar do universo inteiro, já fizemos isso uma vez, teremos outras, sejamos firmes como o osso e resistentes como os cabelos que, no crânio, demoram anos para apodrecer.
Estou escrevendo pelo notebook, com os olhos vendados, porque a luz está machucando meus olhos, literalmente; 4 dias sem poder sequer ler uma poesia, sem sequer poder cristalizar um pensamento, uma musica, porque tem que usar este tampão. Eu quero ser normal de novo (que já não era tão normal assim, confesso!), mas não é viável, já estou mais pro meio da caminhada, e seu voltar, então teria completado com as mesmas pernadas minha chegada do outro lado, estou preferindo ser producente... Só o que resta agora é descer as montanhas e fazer uma exploração e procurar quem quer nos ouvir, caso contrário, eu irei me afogar no simples, um dia eu conseguirei me fundir aos simples, eu serei ensinado por eles, e eu os ajudarei com o que estiver ao meu alcance.
Ler livros é muito gostoso, escrever é o meu dom, mais que música e filosofia, faz parte de mim desde que tinha 2 anos, é como se eu estivesse cuidando de um filho, e de repente tiram eles de mim e os levam para a casa da tia chata que vai passar as férias em Can-Cun...!
Somos frágeis, corrompidos no corpo, carregamos um cadáver o tempo todo, o descanso à sete palmos que merecemos só pode ocorrer depois da foice que a morte afiou aqui nos fundos de minha casa... Ela me disse que começaria por vizinhos, depois familares e depois amigos, como eu emprestei a ela o instrumento para afiar... Então vou ter certos privilégios, claro.
Sei que o universo atingiu meu calcanhar “de Aquiles”, mas sei que é o meu próprio corpo quem me convida a dar atenção pro simples, pois só aí é que se semeia grandes homens, heróis e cavaleiros.


sábado, 8 de junho de 2013

Da Guerra

Da Guerra
08.06.2013

Olhai os resquícios de uma triunfante tempestade que arrastou após si uma multidão de casebres de mofo, deixando um rastro de destruição...
Olhai os lírios do campo de guerra, estendidos como pedaços dos sacrifícios de apaziguamento da ira do dragão que se elevou, altivo, sobre nossas armas vis.
Olhai as mãos lentas que dançam tristemente a gesticulação do assombro e da rouquidão, do choro silencioso e dos soluços que anunciam a paz...
Olhai para o céu que agora, tranqüilo, se reconstrói na luz imarcessível de Ra, lançando as colunas da esperança do nosso eterno hoje.
Olhai e vede como é bom sentir o vácuo que, como véu ou séquito de realeza, passou... E dos estalos das folhas secas que, caídas, se revelam corajosas todas diante dos vermes que as irão devorar...
Olhai e vede quão pequena e forte a morte que copula com a vida, produzindo a cósmica tensão que ressoa o mundo todo na vibração do diapasão de deus...
Olhai e experimentai como é bela a promessa quieta que nos olhos de remela de uma criança revela o amor que é mais forte que o desespero de qualquer guerra...
Olhai e vede quão saborosa é a vida, apesar de suas imperfeições, imperfeitamente admirável!
Olhai e vede a vida como flor que nasce, cresce e já não é mais.
Olhai a outra rosa que agora nasce, e a próxima, e a de outrora

Escutai! Todo o resto numa nota se desfaz!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Música artesanal

Desde criança nunca gostei de manter uma posição distante demais dos filmes, das peças de teatro, das músicas ou de qualquer outra forma de expressão artística (natural ou humana). Sempre me entrego à apreciação estética.
Depois de adulto a gente perde um pouco a capacidade de ser impressionado, fica mais duro e mais resistente. O problema é que quanto maior a resistência, maior é a força da pancada que a gente leva. Se não há flexibilidade, então uma força concentrada na ponta de uma faca pode ser perigosa para esta casca de pedra que a gente constrói ao redor...

Sou suspeito pra falar da música. E eu suspeitaria mesmo, por exemplo, se um artesão falasse bem de suas esculturas... Cada um puxa a sardinha pro seu lado.
De qualquer forma, justamente por eu ser apaixonado por música e por procurar o tempo todo novas formas de degustar os sons, penso que esta minha busca co-incide com as percepções de muitas pessoas.

Hoje publicaram este vídeo no facebook: http://www.youtube.com/watch?v=QQcSay2TFc8

Pra quem é fã de seriado, principalmente deste em que quase todos os personagens principais morrem já na primeira temporada (^^), sabe o quão importante é a música de abertura.
Quem nunca sentiu um orgasmo musical ouvindo o jingle da Warner Bros, da Universal Movies, da Columbia Tristar? (tomara que eu não seja o único, seria muito estranho...)
Ou quem nunca sentiu uma profunda revolta pela música comercial e por aquela maldita música de abertura da novela Salve Jorge sendo tocada ad infernus infinitum?

No caso do GOT (Game Of Thrones) - também sou suspeito pra comentar esse seriado - a música de abertura é típica, simples, mas profundamente marcante e perfeita para o estilo da história! (ufa, quase tive outro orgasmo...) E alguém especial, do tipo zombeteiramente interessante e divertido, teve a ótima idéia de trocar a música tema do seriado pela música tema do Castelo Ra-Tim-Bum (suspeitoso mais uma vez).

A idéia é realmente tentadora, e me sinto impelido a trocar tantas aberturas quanto puder! (eu costumo sempre pegar algumas músicas felizes - parabéns pra você, por exemplo - e tocá-las em tonalidade menor. Hoje mesmo, no coral onde sou co-repetidor, fizemos o tema da 9° sinfonia de Beethoven em tonalidade menor (que ele nos perdoe, mas depois de 578 vezes tocando isso, cometer um sacrilégio musical é crucial para a saúde mental!).

Fiquei pensando seriamente (depois de rir muito alto) sobre como a música tem um poder artesanal, ou seja, como ela, assim como a água, consegue tornar os materiais maleáveis, flexíveis e mais facilmente moldáveis. Há muito, de fato, que se pensar sobre isso.
Todo bom cineasta, ator (que se preze), ou publicitários em geral (que se prezam até demais na arte da maleabilidade da ignorância musical das grandes massas) sabe, direta ou indiretamente, o poder da música (para o bem, para o mal, ou para além...).

Infelizmente não são todos que se beneficiam da música como poderoso instrumento para transmutação de seus próprios valores... Talvez porque a capacidade de apreciação estética tenha se reduzido a dois ou três acordes vazios... Suspeito...

Mas fico feliz por ver que a ironia de um vídeo como este que foi postado é tão eficaz para dizer a todos os bobos da corte (todos os que amam o espírito santo da vida e zombam da morte na sociedade atual) que ainda existem bons ouvidos, nobres degustadores da Música (sim, a música que é feita em um nível mais profundo - neste caso, 3 acordes são um poço de possibilidades totais - ao contrário das que nos são enfiadas nos tímpanos)

terça-feira, 23 de abril de 2013

O "problema" dos filósofos vivos...

O problema de fazer filosofia com pessoas vivas é que elas sempre estão a mudar de opinião!
Não me esqueço dessa frase, que na época do meu 'espanto' filosófico se iniciou, pronunciada pela estimada professora Adriana Cintra, numa aula de produção de textos (as mais divertidas que eu já tive).

Sempre tenho um dia que eu separo para revisitar meus textos, minhas anotações, que incluem informações sobre o clima do dia, a sensação que eu experimentava, o horário e algumas coisas que dizem respeito à minha recreação solitariamente feliz.

Enquanto revisito as pessoas, as memórias, as cenas (boas, ruins, neutras, etc), as músicas, as partituras, os sons, cheiros... Tenho certeza de que todos nós vivenciamos estes momentos de nostalgia gostosa. Uma brisa que faz recordar um dia no campo, ou um perfume que nos obriga naturalmente a viajar na eternidade de um amor que já não dura mais, ou mesmo um tique-taquear de relógio que aponta a finitude de todos os que nós amamos (que nos sussurra levemente nossa própria morte - que para um filósofo é o auge de toda a sua vida... sua preparação contínua).

O aparente problema de fazer filosofia viva é exatamente este! A filosofia viva não é cristalizada, não é estática, não está morta! Filosofar a partir de Heráclito é fácil, neste sentido, pois ele está morto, não pode mais (pelo menos não nestas instâncias...) mudar aquilo que ele disse na concretude de sua vida. O difícil é fazer filosofia com o Devir do Movimento!

Nós às vezes nos ocupamos tanto em olhar para o passado que esquecemos da configuração exata da vida: o presente! Este ínfimo e fugaz instante onde o Total perpassa no abrir e fechar de olhos.
Esta pequena janela que é eterna enquanto dura... E que é rarefeita como a morte depois que passa.

Se déssemos a devida atenção para este ponto em que, no grande anel do Eterno Retorno, acontece todo o tempo, esta maravilhosa e (a nossos olhos) absurda ignorância do entendimento do Real... Se nos fosse possível manter os olhos abertos fora da linearidade do tempo embrutecido e fabril... E se ao invés de olharmos no plano cartesiano de X e Y, fizéssemos um esforço a mais para ir além, enxergar e tocar, de fato, o amor fati, estender a visão fora (ou para dentro)... Então poderíamos ser capazes de transvalorar, de fazer a Vida acontecer, de matar a morte!

Não perco as esperanças nesse aspecto inaudito da filosofia, não a filosofia morta, é claro. Kant realmente tinha razão ao dizer que não é possível ensinar a filosofar. E daí que, na Filosofia, um diploma conquistado não seja, em verdade, o mesmo que ser filósofo. A academia desaprendeu o que é filosofar! Filosofar é viver a Filosofia, é o Paradoxo da Construção e Desconstrução do Mundo. É o que Hegel dizia sabiamente: "A Filosofia surge na ruína de um mundo real"

E - mantendo o respeito e o mérito a estes grandes espíritos - preciso acrescentar que o mundo real que precisa ruir é também todo o mundo real da filosofia morta do passado! Isso não significa matar a filosofia antiga e negá-la, muito pelo contrário, é a partir de toda esta ruína ter a humildade de reconhecer que o Real dos filósofos antigos não é o Real que o Presente nos apresenta: precisamos superar o medo dos fantasmas das grandes mansões abandonadas e construir novos lugares, novos espaços, tecer novas redes, assumir as novas conexões, ampliar a tenda...

Felizmente ou infelizmente... Estar à frente (ou pensar "fora da caixa" como diz o jargão) é quase - note-se bem - é quase o mesmo que estar sozinho. Alguém precisa enfiar a mão na lama, ou como Descartes diria, alguém precisa trilhar um novo caminho onde só se vê mato selvagem, caso contrário continuaremos andando em fila nos mesmos passos de outrora.

É válido seguir o caminho já traçado, mas provavelmente a aventura de dar início a um caminho diferente, mais amplo, com espaço para que possamos andar, correr, dançar... Bom, sinto que precisamos de ar puro.
E apesar de árduo trabalho, e não obstante todos os animais peçonhentos que iremos encontrar, ou das paisagens mais encantadoras que poderemos experimentar, suspeito que desejar algo tão grande também não é um erro!

Afinal, ainda estamos vivos!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Poema da terra

Criança pequenina,
na palma de sua mão
o invisível se oculta

Um índio que fala
Na rodoviária
Sorriso compreendido
Na mezza-voce da Monalisa

Uma planta que dança
Sob a lua crescente
Um estalo de boas vindas
Ao irmão que da terra brota

Caminhos que se cruzam adiante
Linhas paralelas, retilíneas, transversais
Oblongas ou ondulantes
No vento de melodia
Escrito na partitura
Da folha esverdeada
Das árvores distantes

O sentido interno dos sons
Na externalidade da Música Total
No jazz alucinante
De Hermeto Pascoal

A soma ou subtração
Dos interstícios todos
Do sumo do suco da laranja
Ou da átimo de tempo
da semifusa frenética

O silêncio se cristaliza
Emudecendo o tolo
Naturalmente...
Cala-te e flua como um Rio!



quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Filosofia, a Práxis e a Baderna


E no princípio disse Marx:

"Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo."

E sem considerar o contexto em que Marx escreve tal tese (11° Tese sobre Feurbach), vejo como é importante pensarmos um pouco mais sobre a conclamação repetitiva que vem sendo feita por parte de vários movimentos, grupos, ongs e diversas classes de profissionais sobre o dever de todo o cidadão em agir.
Dizem que a voz do povo é a voz de Deus...
Eu sempre desconfiei disso, e permaneço a desconfiar de tudo quanto me soa descarado demais, revelado demais, pois também dizem que nem tudo quanto reluz é ouro!

E como bom leitor de Nietzsche e Schopenhauer, desconfio dos provérbios e máximas da cultura moderna! (Às vezes suspeito até da própria desconfiança... Oras, um amante do saber não desiste enquanto não encontrar o "ponto G", o ápice orgasmático do conhecimento! Sim, e quanto prazer, a despeito de toda a dor contínua que sofro, posso encontrar na luz de sófos)

Desconfio também, portanto, que nunca vimos tantas barbáries ocorrendo na história do ocidente e com tanta veemência quanto por meio dessa afirmação da práxis, deste imperativo categórico kantiano deturpado pela voz das massas sedentas por vingança... ops, quer dizer, justiça!

Digo isto, e explico, porque o equívoco ocorreu exatamente na interpretação do imperativo de sair da teoria infrutífera e de produzir frutos concretos para evolução da sociedade como um todo.

Neste aspecto estrito é que eu penso ser importantíssimo tomarmos certos cuidados e não repetirmos a história. Como diria a hipótese comunista:

"A história surge primeiro como tragédia e depois como farsa". (indico aqui um livro de Slavoj Zizek , que tem como título tal hipótese) 


Diante de um bombardeio frenético de 'informações' (que é bem diverso de 'conhecimento') de corrupção, de notícias bombásticas do facebook (percebam quão importante é isso...), mobilizações e protestos em vários lugares do mundo, crise econômica mundial, ameaça e rumores de guerra e somando a isto a característica dissociativa e esquizofrênica própria do mal-estar da modernidade (do qual nos alerta Freud), as ações, ou seja, a prática acaba se pautando por estes estímulos ao invés de procurar compreender qual é realmente o cerne, o eixo crucial de onde surge tamanha problemática.

As relações possíveis, os intercambiamentos existentes e subjacentes a este borbulhar de fenômenos, contudo, não são terríveis quanto a própria verdade oculta na podridão de backstage, nas entrelinhas do jornalismo popularesco e nas estatísticas a priori apresentadas como fatos incontestáveis, pois um bom filósofo, um filósofo de fato, consegue compreender e assimilar todas essas informações e ver o que está além desse murmúrio do cotidiano, dessa balbúrdia da sociedade tanatológica (reitero aqui que filósofo é o que ama o sófos, não um diploma e um lugar ao sol na academia).

A filosofia autêntica não deve se dar ao luxo de seguir tal fluxo irrefletido e puramente instintivo. Receio que, por mais difícil que seja, devemos resistir a reduzir o exercício filosófico (e aqui deixo bem claro que me refiro ao papel da filosofia, não da pedagogia) a uma práxis que tem por fundamento a ação em detrimento do próprio pensar.

A sociedade atual padece exatamente pela doença do pensamento, isto é, por agir sem pensar, ou (como alguém possa sugerir) por acreditar realmente que a filosofia faça parte de um conglomerado de saberes que nada tem a ver com a Realidade, com o Concreto, com o mundo mesmo. É pontualmente o contrário. A história da filosofia (e, portanto, a história do ocidente) nos mostra de modo inequívoco que todas as grandes revoluções históricas importantes para a evolução humana devem grande parte de mérito à filosofia.

O discurso da ação urgente, do tipo que Marx e Engels promoveram ao conclamar os trabalhadores para o destronamento dos senhores burgueses e da instauração das mazelas do capital dentro da produção social, é bem recente (e que também foi difundida cá na América Latina pela teologia da libertação - o que explica a mentalidade da Igreja Católica ser tão preocupada com os movimentos sociais [o que não torna os movimentos sociais inválidos]).

{Mais uma vez, faz-se necessário aos estúpidos que se abram os parênteses, as chaves, as aspas e todos os recursos disponíveis para explicar que ao se interpretar um texto deve-se procurar sempre discernir o que exatamente o autor gostaria que o leitor entendesse e não o que o leitor, em seu orgulhoso eruditismo gostaria de entender (há uma diferença bem grande nisso) - O que Marx realmente quis dizer na tese citada no início deste texto? }

Cabe a nós, então, distinguir onde devemos iniciar a prática. De um outro foco, precisamos estar realmente certos acerca de qual tipo de prática iremos propor. Ainda de uma outra maneira, em quais pontos nosso discurso sobre a prática é realmente filosófica ou se estamos ainda, como diria Nietzsche, fazendo filosofia para o povo...

quinta-feira, 28 de março de 2013

Sobre Portas e Janelas



28.03.2013

Às vezes sinto o tamanho do Universo
É uma sensação mesmo
Quase como se toda a minha pele
Por meio do tato, fosse pressionada
Por toda a força titânica e dantesca
Por todos os lados possíveis

É belo o mundo
E digo do mundo em sua imensa e infinita totalidade
Incluindo sua multiplicidade de possibilidades
Mesmo as menos coerentes
Mesmo as mais fantásticas

O Universo, não sei,
Já não parece tão Uno
Pelo menos não agora
Porque apesar de no meu pensamento
O Uno ser extremamente racional
O que sinto não se pode enquadrar

É de dentro, mas também é de fora
E da direita e da esquerda
E um pouco mais para além dessas direções

O Belo é imenso demais para ser dito
E intenso demais para ser degustado
Talvez essa sensação de abandono que sinto
Seja o reflexo invertido do acolhimento completo
Que de tão pleno se faz opressivo

Sinto-me esmagado pela existência
E por mais aterrorizante que seja essa metáfora
Paradoxalmente é sedutora como um orgasmo
Um orgasmo eterno

É eterno no instante
No interstício de um pequeno momento
Tal como se o tempo deixasse de ser contado
E uma janela de agulha se abrisse
Permitindo um vislumbre rápido e fugaz
Uma olhadela curiosa e... apenas isso!

É sedutor olhar pela janela
Mas a janela é isso mesmo
Apenas uma janela
A porta é a morte...

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sobre LIBRAS, e sobre o paradoxo da inclusão social numa sociedade excludente.



Depois de ouvir tantos rumores criados entre os educadores, em sua grande maioria otimistas demais diante de uma realidade extremamente podre, fico pensando se deveríamos manter essa posição "nhe nhe nhe" demais, do tipo Mario Sérgio Cortela!
Suspeito que precisamos localizar alguns problemas marginais para compreender tal assunto, e hoje estou postando uma ponderação inicial a respeito do bilinguismo dentro das escolas como meio de se fazer a inclusão social da cultura dos surdos e que é um tema de importância seríssima a se tratar.
Há de se fazer algumas considerações importantes acerca deste assunto, pois a educação bilíngüe, em relação aos surdos, surge tal como, por exemplo, a necessidade que a sociedade atual evoca no ensino do inglês e do uso urgente deste idioma como parte da comunicação entre os povos, a globalização e mesmo o aprendizado e evolução do conhecimento humano em suas possibilidades infinitas na experiência da alteridade. 
Libras, portanto, coexistindo com a língua materna portuguesa, por isso bilingüismo, não deveria, suspeito, ser uma exigência feita apenas aos professores em sua finalidade de ensino das matérias escolares direcionados aos surdos, mas também parte do ensino dado aos próprios alunos não-surdos, pois a total inclusão dos surdos implica, fundamentalmente, o acesso destes aos vínculos normais de amizade e coleguismo dentro do próprio ambiente escolar e fora dele.
Felizmente os passos primeiros estão sendo dados nesta direção, e ainda temos uma longa jornada pela frente, mas não podemos nos esquecer de que até agora os surdos, por questão de sobrevivência mesmo, precisaram se fechar em seus grupos (quando os possuem...) e ficaram fadados a um tipo de existência indigna, sem ter apoio institucional e, de um ponto de vista psicológico, sem bases estruturais para manterem uma vida comum de relacionamentos entre as pessoas não-surdas.
A comunicação feita entre os surdos é a comunicação acessível apenas aos surdos, poucos familiares e uma minoria de educadores dispostos a realmente apreender este idioma, essa linguagem de uma minoria oprimida e excluída por uma sociedade altamente sectarista e cruel. Esta intolerância diante do diverso, do múltiplo, daquilo que não está prescrito nos modelos sociais normais ocorre com qualquer um que fuja aos padrões estabelecidos (não apenas surdos, portanto, mas negros, deficientes físicos, portadores de síndrome de down, cegos, homoafetivos, pessoas de credos e religiões não-cristãs etc.).
Hoje, principalmente, faz-se necessário, especialmente dentro da formação de professores, independente de quais áreas, o diálogo com todos estes que são considerados pela sociedade, em sua estrutura mais internamente desumana, como os fora da norma, isto é, os a-normais, que foram banidos da convivência social, que são tratados como moribundos ou simplesmente condenados a um assistencialismo dos mais torpes.
A própria noção de inclusão social, considerada em-si-mesma, já nos oferece um leque imenso de argumentos consistentes para comprovar que a exclusão social é uma característica interna da sociedade atual.  Os passos, neste sentido, são pequenos e tímidos, pois ainda se postula subliminarmente que esta sociedade excludente é a correta e as minorias precisam se adequar e não o contrário.
Concluo tal assunto intrigante com um questionamento que considero pertinente a posteriores reflexões: porque os surdos precisam se esforçar a se adequar a uma sociedade que os excluiu por tanto tempo, porque se amoldar à sociedade excludente? Por que não o contrário, isto é, por quais justificativas coesas a sociedade não se adéqua aos surdos e às demais minorias existentes? Afinal, não se soluciona a ruína de bases estruturais de um prédio trocando-lhe os telhados!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Angústia de um peregrino de sófos

Quando as esperanças se confundem com o desespero e a angústia
No exato instante que o Ser e o Nada se interpelam
Definitivamente o confronto não pode ser evitado
E o caos se instala entre as costelas, na medula,
nas lacunas e nos espaços da coluna vertebral

A sensação da morte próxima
E a vida manifestando sua face sombria
Porque viver é saber morrer todo dia
Viver é viver a morte sem deixá-la vencer
sem morrer completamente
Porque o que não mata fortalece!

No limbo terrestre não há espaço para super-homens
Ao menos, não por enquanto!
Os que se alegam força além-humana
Não passam dos mais famigerados escravos
Que na auto-afirmação de sua intrépida arrogância
Decretam estruturalmente sua própria queda.

Tudo o que sobe, cai
Mas nem tudo o que cai torna a subir!

Eu estou caído na cadeira,
como entre o céu e a terra
quase como um crucificado
Sofrendo os algozes elementos
dos quadrantes da matéria densa

Mas há de chegar a hora da transmutação
A luz que surge de ninguém mais que eu mesmo
Para alumiar meu próprio caminho
com a doce finalidade de descobrir
dentro da morte o germe da vida
dentro das minhas mais densas trevas
a minha expansão luciferiana mais completa

Nos caminhos tortuosos do labirinto iniciático
ou nos becos e ruas sem saída que nos leva
Hécate nos testa com as dores e os terrores
os assombros mais secretos, ocultados aos berros
com nossa mais tenra covardia...

E assim, quem vencer as provas no fogo,
não se queimará
Na água, não se afogará
no ar, conseguirá voar
na terra, superará a própria tumba

E só poderá compreender o grande mistério final
Após ter consciência de que aqui, enquanto vivos,
as forças negativas serão sempre mais intensas
Estamos jogados no mundo para fazer o que não fizemos
o que recusamos por tanto tempo:
assumir nossas responsabilidades existenciais
Amar primeiro a mim, porque eu sou o meu mais próximo
E amar aos demais somente se eu estiver em lua de mel comigo mesmo
Porque não há amor fora, se não houver amor dentro!

Dói-me a cabeça, os dentes, os olhos em sua órbita
Mas nenhuma dor é tão forte quanto a morte
E até agora ela não me enviou convite!
Porque ter medo!?

Sentirei medo ao som da trombeta desafinada do além
ecoando no espaço vazio da existência fragmentada
o sonido do anjo com foice com o arcano 13 na mão?

Não, certamente eu morrerei e só.
Mas até lá, lutarei contra ela,
pois esta é a sina de todo herói,
e também sua tragédia:
lutar contra seu inimigo mais forte
tendo consciência da derrota iminente,
e mesmo assim;. LUTAR.


E o herói morre! Morre como guerreiro!
E se fazem canções ao herói, e saúdam seu túmulo,
E os bardos cantam enquanto se embriagam
e as mulheres dançam e transam sob o túmulo
no respeito natural mais puro e sagrado do sexo
o sexo que irá permitir que a morte complete o círculo
e que outra vida desabroche da terra.... e assim até o infinito!

estou triste, pois quando morrer
gostaria de não ter de voltar mais
neste mundo de lágrimas
e por outro lado...
certamente vou sentir profunda saudade
das energias de Gaia, de seus filhos, meus irmãos
e principalmente de suas atitudes defeituosas
de suas maldades, de seus mais estéticos erros...
porque se tem algo riquíssimo que configura nossa dimensão
é o poder do riso, o sarcasmo, a ironia, a leviandade de zombar
de tudo quanto é corretinho demais...


Talvez eu reencarne aqui de novo, pra matar a saudade...

Apesar do meu desejo inconfessável ser o de me fundir com a fonte e aniquilar qualquer resquício de consciência
servindo apenas com a bagagem que tive até aqui.

Mas quem sabe a qual dimensão nos levarão, quais surpresas nos aguardam, e quais novos prazeres e sofrimentos nos estão destinados?

É como eu sempre digo: quero mudar de círculo social, porque se a próxima etapa revelar mais mediocridade, ao menos ela será de um tipo diverso e completamente novo. E quanto maior o número de mediocridades que eu puder obter, mais fácil será a conhecer profundamente o que é, de fato, medíocre ou o que se apresenta como mediocridade e esconde, volitivamente, a alma de toda genialidade... eis o segredo de todo bobo da corte: parecer medíocre, fazer as entranhas alheias rirem de suas próprias desgraças - deixe que a massa pense que riem de quem lhes conta a piada, pois esta é nossa mais doce diversão, ter convicção da seriedade da vida, da seriedade de nossas piadas... Os que foram iluminados certamente não se confundirão e reconhecerão o perfume.

Oh, Sofos, que fizeste tu a mim como troca de minha completa dedicação a ti? Porque, oh Sófos, me fazes sorver fel a noite e amargura nas manhãs!?

É muito desgastante a vida do corpo, e também do astral, pois tem alguma densidade sutil em mim
Algo que brada e que clama por coisas mais altas,
por coisas inacessíveis, que na sua inacessibilidade
lançam um olhar sedutor aos meus plexos
e me convidam a visitá-los... mas não me oferecem asas!
Oh paradoxo do conhecimento!

Minhas forças estão acabando
Sinto-me como um no meio do zero
Mas quem sabe eu não possa dividir-me
cabalisticamente no 2, depois no 3
e assim por diante, até que eu consiga
alcançar a deus no infinito dos números mágikos?

Seja como for! Eu já estou convicto que
por mais que eu ande e me projete
no fim, o caminho distante que fizer
me trará exatamente para mim mesmo!

E, deste modo, portanto, o simples é a configuração da Fonte e nós teimamos em complica-la apenas para aumentar nossa arrogância estúpida, nosso orgulho infantilizado pedindo poderes!
O poder é mal e corrompe, não quero poder!

Eu quero Luz, não quero nada mais que Luz!



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Fixa no Sol!

Não é só isso.
O mundo é muito grande
Posso viajar até as pontas da via lactea
Dobrar a luz no túnel da minhoca
E visitar as constelações distantes

Olhe aquela estrela no céu, linda nao?
Ah. Bonita... Então, eu não aguento mais
Fulano falou isso pra ciclano,
depois armou pra cima de não sei quem...

Sim, mas você viu que bonita a lua hoje
Após chuva forte por quase uma semana inteira
Ela está perfeita, como se estivesse sorrindo

Ah, mas ta osso, olhar pra estrela...
Eu to é preocupado com meu emprego

Tudo bem, e deve ficar mesmo,
mas não abra mão dessa oportunidade
De olhar as coisas simples e as complexas
e não pensar nelas, apenas admirá-las
Como se admira um por do sol
Ou o suave correr da névoa.

Não sei, não consigo ficar parado
Não vejo sentido em ficar olhando pro céu

Será que não é por você não ver sentido na sua vida?
às vezes isso atrapalha um pouco, sabe?

Para de pensar por um tempinho
relaxa e curte isto
Isto que nos é oferecido gratuitamente
A gratuidade do belo, do prazer
da admiração da maravilha do mundo

Porque o mundo humano é podre
não significa que você deve se assemelhar
Foge do humano, existe mais do que isso
Mais que essa futilidade cotidiana, meu caro
Foge e voa para acima, para o alto, além até das nuvens
e respira ar puro, sozinho por um tempo
e fixa na paisagem tonteante que se revelará a você
como nunca vistes nenhuma outra vez em sua vida!


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Lúcifer andando de fusca!

O cotidiano oprime e desvela a frivolidade das relações virtuais
O cotidiano pode levar à loucura daquele que sorver sua taça de vinho superficial
A membrana que segura e prende a todos é frágil demais
Mas ninguém há que queira rompê-la
Pelo contrário, a sociedade inteira luta continuamente
Para tornar a membrana algo mais pesado, denso, resistente
De modo que todos fiquem presos, pois esta é a vontade dos pobres
(o feitiço que se voltou contra o feiticeiro)
Afinal, escravos não sabem viver sem senhores,
já que por toda a vida foi somente esta vida que tiveram

Condenam, no entanto, os que os interpelam com a luz
Pois luz é um incômodo inaceitável para quem mora na caverna
Matam e escondem o corpo de quem quis se libertar

A esperança reside, assim,
exatamente na ação de matar o libertário
porque seu corpo irá apodrecer
causará náuseas torrenciais
mal estar geral e completo

Eles vão ter que tirar o defunto da caverna
E ali, enfim, ele terá a paz que desejou.

Paz profunda após ter conseguido morrer para uma sociedade que, em verdade, já se putrefazia em vermes e larvas cemiteriais...
Paz profunda, pois conseguiu se libertar de um peso da ignorância cega e absurda, conseguiu enxergar Sofos na cara!

Dóem-se-lhe os olhos por causa da luz
Mas isso não importa
pois a Luz me revela um mundo totalmente aberto
Sem fronteiras, sem delimitações...

Sem moralismos irritantes como um violino desafinado e sem técnica!

Sim, somente é possível a liberdade dessa futilidade social moderna
Bebericando aos goles o cianeto proibido aos incultos
Cianeto para matar de dentro para fora do filósofo
Veneno para morrer, pois morrendo para esta podre e estúpida, tediosa e vexamosa existência humana moderna de mercadorias que conversam sobre as economias de mercado!!!!

Nããããooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!

Não é este o meu caminho
Meu caminho é o caminho que devo seguir
E que vem do alvorecer daquela luz mais forte,
não me refiro ao Sol, seus imbecis!
Mas a Vênus! A Lúcifer! E a todos os meus irmãos e irmãs que de lá surgem!
Arte, Música e Dança!
E vinho sempre em vossa companhia
E de lá do alto (do alto que encontramos em nós mesmos)
Rimos de todos os que nunca riram de si mesmos


Oh, Lucifer! Eu quero luz!
Mais Luz!

sábado, 29 de dezembro de 2012

Dionysus

Um poema que foi publicado no facebook, no grupo Sinto, logo existo (https://www.facebook.com/groups/305655482863264/), pelo Bruno Sanctus (https://www.facebook.com/sophisticus), que eu li e achei perfeito! Degustem essa deliciosa loucura dionisíaca!

Dionysus

Fui Dioniso,
de sentimentos mastigados
e cuspidos.
De pedaços enrolados
em boatos e pelo mundo
espalhados.
De amores impudicos
amarrados aos cadarços.

Fui Dioniso,
educado em prostíbulos
por ninfas e sátiros.
Personificação da líbido
e alguns desejos
embriagados.
De ritos em motéis
cultuados.

Fui Dioniso,
Amante dos prazeres,
apreciador de um bom vinho.
Das vestes feitas da pele
de um inimigo.
Pai de Priapo,
de dotes descomunais
que invejavam os felinos.

Fui Dioniso,
deitado em lençóis
de cetim noturno.
E a insanidade
dentro dos cachos
de uva soturno.
Amaldiçoado, andarilho
de armadura com furo.
De pactos com beijos
selados.
E de orgasmos redigidos
em contratos.

Fui Dioniso,
nas noites boêmias
em guardanapos de boteco
escrevendo poemas.
Filosofias hedonistas,
nos meus teatros
que imitam a vida.
Ou após a bebida,
nas conversas que viravam
monólogos aos quais ninguém
entendia.


Fui Dioniso,
de intertextualidade subliminar.
Cheio de erros,
para arte me tornar perfeito
em seu limiar.
Contrastado com nuances
fertilizantes.
Num quadro de risos elegante,
à falar:

É... eu fui Dioniso!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Zero Caótico Absoluto (ou Utopia II - projeto para concretização)

Tenho me permitido experimentar todos os meus pensamentos tal como uma experimentação de minhas melhores e mais nobres riquezas, sem direcionamento, sem procurar enquadrá-los em um objetivo específico, tentando ao máximo não submetê-los, nem subjugá-los a algum recorte maior ou a algum juízo moral decepante, porque suspeito que apenas por meio desta atitude poderei chegar a algum lugar (ou, o que parece ser mais coerente, uma meta que esteja além - utopia - e que seja capaz de determinar mais ou menos minhas pesquisas e aprofundamentos posteriores) se eu  puder ser influenciado e perpassado por tantas experiências e perspectivas que estiverem e se apresentarem ao meu alcance - sem reduzir, nem definir ou engessar - aceitar fluidicamente o Devir e o contínuo acontecer ígneo de minha própria vida/pensamento.

Tendo agido desta forma, pude descobrir coisas realmente interessantes. O mais importante, entretanto, foi conseguir encontrar em mim potencialidades e capacidades que jamais teria noção  a não ser por meio desse intenso borbulhar de sofrimento e infernalidade; perceber que a infinitude ocorre tanto para fora quanto para dentro e apreender que as medidas e proporções se desenvolvem para cima, para baixo, para os lados, em direções tortuosas, lineares, circulares, ondulantes e espiralares com uma flexibilidade e maleabilidade peculiares de uma espécie etérea do próprio Ser, que, no entanto, revelando-se como tal e com tais características, só posso dizê-lo (assumindo inclusive a própria contradição do discurso) como o Não-Ser, o Nada, o Vazio.

Esta vacuidade, mostra-se, porém, não como uma ausência completa, não como o nihil cristão/moderno propriamente dito, muito menos com o termo encontrado em Gênesis  "Bereshit bara Elohim et hashamaim veet haarets" (bara - com o significado parecido com o que grande parte da teologia chama de creatio ex nihilo - o que já é suficientemente capaz de revelar o caráter dissociativo e descompensado de um deus fora e distante de sua própria criação, ou seja, com uma separação primordial e um distanciamento próprio de um deus patologizado); revela-se, antes, como um elo, uma teia, uma infinita multiplicidade que não pode ser separada por que intrinsecamente é uma totalidade, um caos de diversas formas, e cores, e nuances, e trilhas e qualquer coisa imaginável e inimaginável, ou seja, é o o Vazio que se perfaz e que perpassa todas as coisas, o éter que dá condições tanto de surgimento quanto de manutenção, como aquilo que os antigos chamavam de Princípio Impricipiado, como o elemento que dá homogeneidade e que propicia sustentação à própria História...

Não se trata tanto de uma fonte, mas também como um perpétuo movimentar-se, um eterno penetrar, interpenetrar e transpenetrar. De fato, não consegui encontrar nenhum termo, símbolo ou conceito que dê conta de ex-pressar esta minha intuição (que não deixa de ser uma usufruição) e que não poderia desconectar sequer dos processos racionais e não-racionais.

É-TUDO-O-QUE-É
É-TUDO-O-QUE-ESTÁ
É-TUDO-O-QUE-ESTÁ-SENDO-AQUI-ALI-AQUÉM-E-ALÉM

Daí que eu tenha necessitado desbravar áreas do conhecimento tão diversas e considerar todos os caminhos viáveis, degustando tudo quanto pude degustar, algumas coisas aparentemente distantes umas das outras, sem nexo ou sentido, pois se tornou urgente desvelar mais...

Luz, mais luz!

A impressão que me marcou e que, como uma cicatriz, aparece e incomoda todo o tempo é que esta Luz, o Sóphos que evoquei deliberadamente, apresenta-se como uma amplitude assaz oceânica (por vezes assustadora) de lugares escuros, obscuros e ocultos que existem na inexistência superficial do saber instituído e dado em livros, escolas, tradições, culturas etc.. É como se agora, nos dizeres crísticos, eu fosse livre, verdadeiramente livre.

Esta liberdade não me foi concedida por uma entidade fora de mim, não foi outorgada, doada, mas encontrada com um esforço e uma angústia que quase me levaram à insanidade completa, uma conquista que ainda se dá e me joga diante dos meus limiares abismais, mostrando-me uma sabedoria trágica e ao mesmo tempo vivificante. A Luz a que me refiro (aquela que permite ver as coisas que outrora não se viam), não exclui, no entanto, de modo algum e sob quaisquer perspectivas, a própria escuridão, o lado sombrio e oculto. Pelo contrário, apenas agora é que consigo enxergar mais nitidamente que a Luz mais forte é tão densa e escura quanto a noite mais tenebrosa; que o branco cega tanto quanto o preto; e que a realidade é, na verdade, a mistura daquilo que nós separamos por diversos motivos; que nossos 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 são o 1, e que o 1 é apenas uma manifestação, a primeira, do Zero, de algo que é tanto muito maior quanto muito menor; que dificilmente poderemos um dia tornarmo-nos completos sob os signos da razão humana, justamente porque qualquer linguagem se desfaria dentro do Zero Caótico Absoluto!

sábado, 8 de dezembro de 2012

Pensamento agonizante

Escrever antes de dormir tem sido meu antídoto de sanidade, sem o qual estaria totalmente abandonado à solidão do meu próprio pensamento, pois tem sido extremamente difícil encontrar pessoas que estejam dispostas a especular e refletir mais profundamente os grandes temas, a existência, a sociedade, o mundo, o ser humano e outras questões que se relacionam com coisas que estão para além do discutir se o vizinho do facebook postou alguma imagem de um cãozinho dando indiretas imbecis ou piadinhas tortas. Questões que tratem não apenas de temas do cotidiano, porque já estou farto de discutir elementos que em nada irão contribuir para um pensamento que seja capaz de gerar uma mudança grandiosa, a longo ou médio prazo (o cotidiano é um ponto de partida, precisamos ir além disso, caso contrário ficaremos patinando nessa mesmice ridícula e entediante!)

Não se trata de um mero idealismo ou utopia individual, mas de relações integrais, de enxergar esta geração que agora envelhece e crianças que agora crescem em um mundo borbulhante e escorregadio, sem nenhuma perspectiva de projeto, destituídas totalmente de fundamentação ou valores nobres e grandes; entristeço-me o tempo todo por dialogar apenas comigo mesmo assuntos que muita gente considera secundariamente, como se refletir ou pensar fosse uma atitude não-humana, desprezível ou, convenientemente patológica!

Estes temas são secundários, sim, se cristalizarmos a mentalidade de que só o que temos é essa nossa rotina mesmídica e frívola, essa bolha diária que se perfaz de forma grotesca e se postura eterna e jovialmente nova como as mercadorias que não possuem, ao estilo melquisedequiano, nem origem, nem fim.

Reconheço que exercitar as regiões da mente que podem nos ajudar a evoluir como seres humanos (e, acredito, além-humanos) é extremamente incômodo, pois nessa viajem não há nada de muito estável, nada tão sólido que não possa sofrer mutações e, entretanto, reside nesse próprio elemento de mutação, mais precisamente de transmutação, a característica peculiar do movimento que o conhecimento pode promover, o caos a partir do qual é possível tudo, o caldeirão de onde todas as coisas podem surgir, nossas infinitas possibilidades, ou mais precisamente, nossa maior e mais brilhante nobreza.

A despeito de toda essa amplitude que temos à nossa disposição diante do contínuo movimentar das estruturas do conhecimento, historicamente a grande massa, a maior parte de todos os homens e mulheres prefere aprisionar-se, acomodar-se a tudo o que já foi padronizado, ao establishment, ao que já foi dado, às trilhas que já foram batidas pelos pés de outras pessoas.
Existem várias gratificações em andar o caminho que já está feito, não devemos desprezar isso de maneira alguma. Há segurança nestes velhos caminhos, algumas coisas e algumas consequências já são adequadamente previstas, há uma certa invariabilidade de reações e efeitos.
Por outro lado, a doença da modernidade é como uma grande inflamação que ocorreu por meio dessa incapacidade de dialogar com a realidade, com o movimento da história, ou da pretensão de acreditar que podemos colocar toda a realidade dentro de uma forma, quase como se fizéssemos dela uma massa modelável e controlável, tal como a de um grande bolo...

Aventurar-se em fazer e desbravar novos caminhos, conhecer e ter acesso a novos espaços, a novas perspectivas, ter a sensação de espreitar lugares (materiais ou não) completamente diversos daqueles que todos já sabem... Isso, definitivamente, não é para todos.

Isso não é para todos, não por pre-destinação, ou por que os outros não sejam capazes, pois se um é capaz, todos são, fazemos parte de uma mesma espécie, todos tem dedo opositor, todos andam eretos, todos pensam. Trata-se de um elemento de necessidade, de utilidade e também de gosto.
As pessoas não querem trilhar outros caminhos, porque já estão incluídos, já tem sentimento de pertencer a um grupo que também percorre nas mesmas direções; não é rentável; não é transitável e desgastaria muita energia, é mais fácil acumular energia (sim, porque o capitalismo não é apenas uma acumulação de dinheiro, mais do que isso, é uma acumulação dentro dos próprios trabalhadores com a intenção de focar a utilização de suas energias apenas para a produção de valor/capital); é gostoso estar em lugares conhecidos, é prazeroso o conforto da permanência.

O conhecimento traz um prazer que é fruto de persistência diante do movimento, ou seja, existe um atrito entre o sujeito que conhece e o próprio conhecimento, é um prazer que advém necessariamente da luta, do embate criador, das forças que vão se interpelando. Daí que possamos compreender porque motivos mais claros o conhecimento causa tanto sofrimento, pois surge das contradições, da luz que atinge os olhos que antes estavam acostumados à escuridão, ou da escuridão que aparece como o contrário da iluminação total, da luz extrema que também pode cegar. De uma ou de outra forma, o conhecimento é fruto de guerra, de jogos, de dunamis (aquilo que é dinâmico, dinamite, força), de agon (combate, luta, de onde surge também agonia, antagonico, protagonista, proto-agonista - primeiro combatente -, antagonista, anti-agonista -  o combatente contrário).

O pensador, ou aquele que assume a postura de pensar, se constitui de forma diversa de todos os outros tipos, porque não pode fugir da agonia de sua intensa vontade de conhecer, muito pelo contrário, ele sabe que é a própria agonia que pode propiciar o conhecimento, é a agonia que lhe dará capacidade para avistar novas direções e os instrumentos necessários para construir um novo caminho!

Sinto-me angustiado diante de tudo isso! Na verdade, sinto-me agoniado! Entretanto, não dá para enquadrar essa sensação em termos de bom ou ruim, necessariamente porque é ambas as coisas, e aqui está o grande mistério de um pensamento agonizante.




sábado, 1 de dezembro de 2012

Vazio e sem forma

Olho o papel branco e só após as curvas que vou delineando começo a preencher com riscos de caneta, tornando a folha cheia de palavras e significados, rasos ou profundos, mas que se encontram precisamente na ponta aguda da culminância e no ápice do meu desejo mais secreto que se constitui em dessacralizar o próprio segredo.

Sozinho na noite, debruçado sobre o caderno, ouvindo a cidade turbilhar num movimento de vira e desvira nas camas, percebendo que agora as ações são todas inofensivas e que refletem a extrema fragilidade urbana de uma província sob a turva claridade noturna e lunar... Sinto-me forte agora, sinto-me criador, sinto-me filósofo, sinto-me deus.

Como agora já o papel branco não é, também eu, a partir do Vazio que encontrei, vislumbro os clarins de minha maior angústia! E é somente deste complexo ribombar de vozes mudas, dentro de um âmago de paradoxo do não-existente vejo a maravilhosa força do Nada e do Não-Ser, posto que do Nada Caótico Original é que descobri meu mistério primeiro:

Todo artista é um deus que cria não apenas a partir da matéria-prima do mundo, mas de sua própria profundeza mais escura e labiríntica; que apenas os artistas, verdadeiramente artistas, podem ser deuses, pois só nós sabemos o poder de transformar e remodelar nosso mundo.

O artista é um deus que dança o caos primário do Kosmos!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ode aos meus infernos

Escrito dia 11.11.2012

Gratidão e tristeza se misturam em mim todo o tempo, sem que exista ao menos um interstício de silêncio na mente. É assombroso o modo como lembranças de saudades já tão remotas conseguem aprisionar expectativas longínquas.

O meu presente é um fato, é um fado, é uma sina. Uma sina voluptuosa das moiras que traçam as linhas do meu irônico e gracioso destino, moiras que se unem a deuses e deusas da lua minguante, conduzindo-me no caronte do meu próprio inferno para desnudar minha lua negra de lilith com seu deus de chifres... e eles dançam sobre mim, rindo e entoando cantos maravilhosos da contradição interna da minha própria natureza cínica.

Baco espiralar da minha mais doce e íntima tragédia, teus sátiros e tuas ninfas nuas se encontram selvagemente no meu plexo solar, riem e choram aos gritos de um desespero embriagado da hybris alegre-triste que corrói por fora e germina dentro de mim uma semente sagrada de tua loucura mais densa e labiríntica!

Gratidão e tristeza são as duas forças que, entre tapas e beijos, ejaculam e cospem no meu pâncreas... O som mais enigmático da dança macabramente divina dos deuses do meu próprio olimpo, indo e vindo, do céu ao hades mais recôndito,

minha festa de sofrimento e disparates de euforia no acasalamento com a antiga serpente luciferiana,
meu inferno particular, saturnália, ditirambos orgiásticos que me jogam continuamente no meu eterno devir!

domingo, 25 de novembro de 2012

Música como degustação

Assisti, agora há pouco, o programa Clássicos, da TV Cultura, com Andras Schiff interpretando J. S. Bach.
http://tvcultura.cmais.com.br/classicos/andras-schiff-interpreta-j-s-bach

Um toque perfeito, com um som límpido, aveludado, frases claríssimas, enfim... uma interpretação emocionante.

E, para além da música de Bach, fiquei me questionando sobre aquela grande dificuldade em dizer que existe uma música boa e uma música ruim, assim como no âmbito moral existe o bem e o mal e a dificuldade em se caminhar em direção a um entendimento mais mutável e relativo (do caráter relacional dos preceitos da moral).

Ouvindo Bach, só o que eu consigo pensar é que sua música é capaz de provocar em mim uma sensação de prazer visceral, um arrebatamento que não ouso nomear para evitar que se perca alguma impressão sensível que capto na música e naquele instante em que meu corpo assimila os sons.

Ouvir música é mais que utilizar apenas a audição, é preciso degustar integralmente cada elemento musical como se estivesse experimentando um sorvete num dia de verão infernal, ou um vinho delicioso no frio áspero do inverno.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Reflexões sobre bife parmenediano no fogão a lenha heraclitiano

Historicamente, vivemos num estado de luta desesperada constante. Essa luta, em geral, é reduzida a dois elementos, aquelas duas grandes questões filosóficas que giram em torno do Repouso parmenediano (não, não confundam com bife a parmegiano) e do Movimento heraclitiano.
A liberdade e a igualdade, no âmbito político; o bem e o mal, no âmbito moral; o sofrimento e a satisfação, o homem e a natureza, o feminino e o masculino, o claro e o escuro, acima e abaixo... São os desdobramentos do Ser.

O Ser-É? ou o Ser-Não-É?

Não-sei!

Como um dos leitores do blog (Vitríolo de Marte comentou no meu texto, não se trata de um isto Ou aquilo, mas de um isto E um aquilo!

Não há antagonismo nessa dualidade de ser e não-ser, de repouso e movimento.
Platão, na sua definição do ser, acabou por conseguir unir estes dois processos, e apesar das cristalizações e engessamentos próprios de seu sistema, precisamos reconhecer que ele foi o primeiro a pensar o Ser abarcando estes dois momentos, sem que um negasse o outro, sem que houvesse a exclusão de um ou de outro, ou seja, o Ser é movimento E repouso.

Esta é uma das formas universais de encarar Aquilo-Que-Tudo-Perpassa, o Ser.

O problema é: como agir quando um confronto destas alturas (níveis) se aproxima tanto que precisamos, no âmago de nossa perspectiva imediatamente solitária, encarar esse enigma emblemático?
Quando o absurdo da conciliação dos vários opostos existentes surgem, aparecem diante de nós no meio da realidade concreta do nosso cotidiano, como se o verbo tivesse abruptamente decidido se encarnar embaixo do nosso nariz?
Como solucionar um problema de tal complexidade macrocósmica a nível de microcosmos?
Tudo o que é acima é também abaixo...
E nos níveis superiores... esse problema não encontrou uma solução...

Mas agora penso se a solução é mesmo um ponto final. Questiono se a solução é realmente a necessidade da definição, pois a solução de um problema surge sempre como a definição dele, isto é, de dar um fim ao problema. E é justamente nesse momento em que vários filósofos se equivocaram.

Diante da luta universal dos grandes temas, das grandes forças titânicas, só a ação possível é o assumir contínuamente as contra-adições, sem as quais não haveria movimento.

Temos de ser corajosos o suficiente para praticar o amor facti nietzscheano! O agon grego! Não se nega nem o repouso, nem o movimento! Assumimos ambos como dois elementos necessários que se interpenetram, que se degladiam, mas que se necessitam mutuamente.

Os grandes problemas da humanidade às vezes acabam surgindo na vida das partes, dos entes que existem... E é exatamente aqui que começam as crises existenciais, pois estamos lutando uma guerra que nos remete a um duelo muito mais antigo, o da humanidade com a realidade, da humanidade com a natureza.

É preciso aceitar a decadência da vida e o seu porvir na morte, e mesmo assim encarar a morte com orgulho e lutar contra ela! O herói sabe que vai morrer, mas nem por isso se afasta da luta contra a morte, pois sabe que é essa luta que o mantém vivo, vivo por causa da morte!

A morte e a vida também são reflexos dos dois grandes problemas do Ser, e dizem respeito a tudo e a todos.

Viver é um viver para a morte, todos os dias, sem exceção. E este é, exatamente, o escopo da nossa existência...

Mas devo confessar... Essa luta é também a luta do Si conSigo mesmo... e quando chega essa parte...
O calo aperta mais dolorosamente!

E dói!


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Alquimia de um Idoso




O acúmulo incerto, mais ou menos ordenado, mais ou menos caótico, mais ou menos intenso ou mais ou menos doloroso de memórias fica estampado no definhamento do rosto, no pestanejar dos olhos, na descoloração ou na queda dos cabelos de um idoso.

O presente é a contínua manifestação de mortes: morre o padeiro que era tio do pai do meu irmão, a conhecida antiga da família, o coveiro que enterrou fulano de tal e o tal que enterrou uma faca naquele rapaz que era filho da senhora que morava na rua de cima.

Não há ouvidos para ouvir, e o coração que vai envelhecendo caminha a trilha de um silêncio abafado, mais ou menos reprimido ou mais ou menos orgulhoso... Um silêncio incômodo parecido com uma mosca, mais ou menos sorrateiro ou abrupto como a morte.

Ao encontrar alguém mais velho que eu, com mais de setenta, oitenta anos, vejo sempre um lapso de faísca profunda que flui como uma pequena nascente, mais ou menos igual à calmaria que borbulha nas montanhas solitárias e distantes, mais ou menos indecifrável como uma estrela cadente ou como o sol poente no horizonte...

Nada, entretanto, é tão certo quanto a sábia corrente de sabedoria de vários anos, e luas, e estações, e virações do dia que sempre nos revelam o eterno vir a ser de todas as coisas, mais ou menos violento, mais ou menos pacífico sem jamais assimilar um ponto final; sem aceitar sequer alguma origem...

É um movimento eterno do mais ou menos isso, mais ou menos aquilo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Utopia I - projeto para concretização


Nossa Utopia! ParteI
por Daniel Alabarce, Quarta, 15 de Agosto de 2012 às 03:25 ·
                                                                                                                 
Ideologia, eu quero uma pra viver!                                                                                                                                                           Cazuza


O nosso problema talvez seja ter nascido numa sociedade como esta, em que não há individualidade, existe apenas uma carnificina mútua e escamoteada, onde todos mantém as regras do “bem viver”, mas que o fundamento essencial da sociedade é a competição, a guerra ao próximo, não o amor!
Sociedade falida, insalubre, medíocre! Vivendo uma vida inautêntica, porque não é nem isso nem aquilo, não há rótulos, não há direções, não existe aqui nem ali, existem apenas meios-termos, meias medidas, meio isso meio aquilo, é ali, mas não é.

E não acho que este seja o niilismo nietzschiano, não aquele niilismo positivo, que parte da constatação do nada para a constatação das oportunidades infinitas para criar direções, criar termos, criar!
Um niilismo que poderia nos curar era exatamente o que é realista: “Sim, nós não temos mais nenhum valor absoluto, não temos para onde fugir na modernidade, tudo é liquefeito, tudo é fugaz, tudo se nos apresentou como um imenso nadismo, a nadificação de todas as coisas devorou tudo o que tínhamos, todas as nossas estruturas de conhecimento, todas as bases do nosso saber, devorou a política, se transformou em sistema econômico e intensificou a esquizofrenia da roda de morte, mas é exatamente por causa disso que iremos nos levantar e fazer a coisa toda como quisermos e como bem entendermos, porque estamos, neste contexto, jogados completamente na nossa liberdade mais responsável e angustiante. É o momento perfeito para o surgimento dos fortes da natureza, os selvagens do pensamento e do corpo, é hora de levantarmos nossas armas e pincéis e tintas, e notas e lápis, e todo tipo de criação artística, intelectual, social e revolucionária para ditar um outro mundo, o mundo nosso, a nossa vez de construir essa droga de mundo. E se as gerações futuras rejeitarem isso, que façam elas a sua própria versão! Nós iremos criar essa! E vamos criá-la até o fim.

Respaldamos agora, depois de ter olhado para a história de nossas relações sociais, tendo olhado também que as próprias relações sociais nossas se transmutaram em relações puramente econômicas, que as relações existentes nesta nova sociedade será primeiramente individualista, construtivista no indivíduo, por que é o indivíduo a força motriz da criação de todas as coisas, é ele, pois, quem deve estar bem estruturado e centralizado primeiramente para fazer alguma coisa. É este indivíduo que deverá estudar até cair o último sangue todas as matérias humanas, porque somos humanos, exatas, biológicas etc, porque construiremos tudo, mas não de novo. Agora é a hora de modificar a pedra fundamental, não será a religião, nem o amor ao próximo, afinal o mais próximo sou eu mesmo. Inverteremos assim as palavras de Jesus e: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” será o seguinte: “Ama você, você mesmo, tudo que fizer, faça somente pra você.”  Como a ti mesmo será: Só depois que você amar a si mesmo e ter percebido que no mundo só importa você, pois você está em um determinado ponto de espaço/tempo, num contexto cultural, em que você uma matéria que ocupa apenas um espaço e tempo, portanto possui uma visão originalíssima do mundo e da vida, apenas depois dessa vivência é que você vai agora se dirigir ao outro (que também passou por todas essas tarefas, sem nenhum ponto de equivoco. E agora, tendo sido educados como seres individuais (que não podem ser divididos – mais importante: que não enxergam o mundo fragmentado, mas como uma teia de relações contínuas e totalizantes que acabam esbarrando sutilmente nas relações do próprio Kosmo, aí sim, esse indivíduo poderá se preocupar com as nuances existentes entre um e outro indivíduo, compartilhando aquela visão peculiar que cada pessoa tem durante todo percurso a que foi submetida para fazer e construir agora relações concretas, baseadas naquilo que aprenderam na vivência prática do Si Mesmo.

A base real, óbvia e o pivô formal de toda esta nossa sociedade é o indivíduo crítico, que só se torna crítico por estes caminhos que apresentamos. Reconhecer em si mesmo o valor e a capacidade e reconhecer no outro a impossibilidade de controle. Não é possível criar mecanismos de controle no pensamento alheio sobre um individuo nosso, então, nós geramos nossos indivíduos de tal forma que eles consigam lidar com o mundo cruel como ele é, mas sem destruir as pessoas, destruir o sistema, esta é a força oculta que nos move. Não existe amor uns pelos outros, apenas medo e interesse. Contornar esta questão é complicada se partirmos de um ponto de vista emotional, e principalmente se for de uma analise moral.
Foda-se, nossa análise não é de forma alguma moral, queremos apenas que os indivíduos sejam aquilo que eles já o são no nome, seres que não se dividem por nada, que mantém a consistência de sua afirmação, de seu ideal –já que não dá pra viver sem um mínimo de ideal

Prestem atenção senhores e senhoras, porque um novo modo de governo vai chegar, e é o jeito nietzschiano. Preparemos os caminhos para o Uber Mansh, o Ser que vai dar um Salto na história da humanidade, saltando a própria humanidade, desprezando o que nós chamamos de homem. Vejam ele está ali no topo daquela montanha vermelha, verde, azul e preta, é o Além-Homem.
Sim, porque precisamos de tudo novo. HOMEM é um conceito velho, será substituído por ALEM HOMEM,
Escola deverá ser chamado de ACADEMIA, quase ao modo grego pré-socrático, onde terão aulas de todas as coisas relevantes, física, matemática, biologia, filosofia, psicologia, arquitetura, música, dança, teatro, onde os professores vão se responsabilizar por no máximo 15 alunos por classe, cada classe vai ter todos os professores, professores e alunos vão se conhecendo e se tornando próximos, e vão criando linhas de pesquisas sobre o tema que iniciaram na pesquisa. Professores serão autônomos em suas aulas, em seus grupos, e daí sim professores poderão participar, caso queiram, do modo de pesquisa para acrescentar algum saber novo ou mesmo conflituoso, de onde possa surgir uma síntese e um novo ponto de estudo.

Temos que implodir as estruturas sociais e educacionais agora, aniquilá-las completamente sem um resquício de piedade, pois piedade é sinal de decadência! Destruição, Radicalização, Confronto, Enfrentamento, e se preciso até a morte deles ou nossas! Porque é nosso direito criar e instaurar outra forma de se fazer educação no Brasil e nós vamos fazer isso, queiram ou nãol
                                                                                                                                   
Esta é a lógica e a garantia da sobrevivência do sistema, que haja expansão, e no meio da expansão crie-se contradições e que destas contradições surjam novos campos de saber, e essas contradições surgem cada vez em maior número e quando se percebe estaremos suplantando toda a velha estrutura dominante, com tnts nas mãos, armas, facas e punhais... Foices para mim, katanas para meus amigos!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Pesquisando e preparando a próxima postagem!


Galera, eu e o Felipe Tavares Justen estávamos conversando no MSN, e ele acabou tendo uma sacada muito interessante. Eu acabei me convencendo sobre o assunto e resolvi aprofundar os pensamentos. Estou pesquisando, refletindo bastante, analisando e observando as coisas, e espero conseguir escrever um artigo bem legal sobre o riso.

A pesquisa está sendo interessante, porque fiz questão de ir a fontes antropológicas, biológicas, psicológicas e, claro, filosóficas, né!

Consegui coletar vários elementos, e consegui chegar a algumas conclusões interessantes.

Estou relacionando também temas como censura do riso, a seriedade do trabalho nos modos de produção capitalista, que pelo que vejo influenciou até nessa questão.

enfim... espero que vcs gostem!

Assim que terminar, posto aqui!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Esboço para uma Teoria da aniquilação completa!


"Não há classes sociais, não há raça, não há sexo! Nada há que não seja sofrimento! Todo o resto são ilusões construídas pela nossa espécie para tentar diminuir nossa angústia, nosso desespero! Todo o resto são modos que encontramos e criamos para fugir da verdade que nos persegue: a morte!"
Daniel Alabarce


Independente da existência dos deuses ou não, fato é que nós existimos aqui, e, concretamente, visivelmente só temos uns aos outros. Esse meu desabafo é externalização dos sentimentos que tenho em relação ao mundo, minha visão de mundo, minha dor contínua, minha sede de justiça que nunca é saciada e que, pelo visto, jamais será. Por perceber que minhas ações em nada colaboram, já que nem mesmo a humanidade toda, com seus 7 bilhões de seres, conseguiria modificar a ordem natural, o que chamamos na filosofia de “estado de coisas”. Temos que concordar que mesmo 7 bilhões de pessoas são, diante da imensidão do Universo que nós muito mal conhecemos, um fervilhar de vermes rastejantes, um leve empecilho para a Natureza... Empecilho este que está muito próximo de ser completamente arrancado!

Tenho apenas 25 anos, mas já fui exposto a tantas nuances da realidade humana. Apesar desta parte da realidade a que tive acesso ser pequena em comparação ao todo existente, é possível conjecturar algumas possibilidades com base nestas experiências que tive.
Para tornar minha constatação um pouco mais forte, possuo ao meu lado a experiência das pessoas com quem me relacionei e me relaciono nestes 25 anos que vivi.
A grande parte das pessoas são otimistas, mas otimismo não garante absolutamente nada, apenas dá condições psicológicas às pessoas para que permaneçam existindo e vivendo com relativa tranqüilidade.
Se todos estes otimistas, aceitassem a realidade do jeito que é (e, no fundo, todos eles sabem da crueldade da existência humana – apenas fingem que não sentem isso, que desconhecem qualquer coisa que vá de encontro ao otimismo idealista que eles mantém a todo esforço); se eles, objetivamente, aprendessem a observar a vida humana, suas relações, suas ações sobre o planeta Terra, veriam com facilidade que fizemos muito mais mal do que bem, e que a grande parte das nossas relações (pra não dizer todas, já que não temos acesso a toda a realidade) estão fundamentadas em mentiras, interesses egoístas e inveja.

O problema não é o capitalismo, nem quaisquer sistemas filosóficos/políticos/sociais, o problema é o próprio ser humano, que, atuando o tempo todo no palco da sociedade demonstra ser aquilo que ele não é, nunca foi e nunca será! O ser humano é tal qual os demais animais. E tal qual as outras animálias, nós também somos controlados essencialmente pelos nossos instintos. Estes instintos são instintos básicos de sobrevivência que são encontrados em todos os seres viventes, inclusive no funcionamento do Cosmos, dos Planetas e das estrelas. Parece, portanto, que esta é uma verdade universal (parece, não podemos afirmar muita coisa, certo?).
Partindo dos dados que temos, aqueles que nos são oferecidos pelas relações humanas, podemos perceber que nossos instintos foram condicionados para além da nossa necessidade de sobrevivência, e isto foi feito socialmente e culturalmente num processo histórico muito lento, porém por demais eficaz!


Agora, não lutamos instintivamente apenas por nossa sobrevivência, mas lutamos também para obter mais coisas do que todos os demais. (querer ter mais, ser mais, obter mais, é também uma característica natural que também pode ser encontrada nos outros animais, só que no ser humano, esse caracter se sofisticou, assumiu uma condição anti-natural, já que não respeita, ao modo natural, os ciclos, as cadeias alimentares e leva o planeta terra – que é um planeta pertencente não apenas aos humanos, mas a milhares de espécies – ao completo esgotamento, à completa destruição).

Temos que reconhecer, paradoxalmente, que a auto-destruição também é um elemento muito presente na nossa dimensão. Todas as coisas, se olharmos de uma forma mais ampla, tendem à destruição exatamente a partir do momento em que começam a existir. Nada é eterno, a não ser o contínuo fluir de construção e desconstrução, nascimento e morte, existência e aniquilação.

O problema, de fato, é que nós não respeitamos a ordem natural de destruição das coisas, não respeitamos mais o tempo de perenidade a que estão sujeitos todas as coisas! Nós, não satisfeitos com toda a desordem e caos da Natureza, decidimos acelerar o processo de aniquilamento.

Não estou querendo fazer julgamentos morais em relação a esta atitude coletiva da humanidade, já que, a estas alturas e com estas considerações, não há mais espaço para qualquer moralismo. Entretanto, eu preciso constatar, mesmo que para efeito consolador interno do meu ego, que, em verdade, nada há de tão bom que não possua em si um germe de destruição, tédio e caos!

Não que isso me console (se tal constatação me consolasse, seria uma contradição, já que se acredita que consolo só pode ser fruto de bons sentimentos, ordem, estabilidade etc...), mas isso me dá um pouco de satisfação. De algum modo, não sei explicar bem como, constatar que nada pode ser feito me dá a sensação de que posso assistir toda a destruição sem me envolver. Quer dizer, eu estou incluído no processo de destruição de tudo, mas não me desespero, permaneço em meu lugar como um observador, como apreciador das catástofres. Talvez seja uma espécie de apreciação estética mórbida, mas qualquer pessoa terá de concordar comigo que este prazer mórbido também está presente em todos os humanos. Se não fosse assim o Coliseu não teria tanto sucesso, as torturas públicas não atrairiam tantas pessoas, programas de televisão como “Amazing Vídeos” não fariam tanto sucesso. Todos nós adoramos ver desastres, desde que eles não estejam acontecendo com a gente, nem com as pessoas que nós amamos ou com pessoas que, moralmente, acreditamos serem inocentes!

A cada dia tenho experimentado um conglomerado de sentimentos. A impressão que eu tenho é que de uns dois ou três anos para cá, eu tenho ficado extremamente aberto a quaisquer experiências, sensações e fenômenos. E não tenho me fechado para absolutamente nada, tenho deixado o fluir das coisas acontecerem, tento apenas manter a apreciação estética sempre alerta, para poder usufruir ao máximo de todos os prazeres que eu puder, pois já cheguei à conclusão (particular, mas é uma conclusão minha) de que a única coisa que me resta na vida é vivenciar todos os tipos de prazeres que eu puder, e isto se deve a esta constatação de tudo tende ao pior, nunca à evolução. (Não estou aqui falando de evolução/reencarnação, nem de coisas espirituais, pois é uma outra esfera, uma outra dimensão – me atenho apenas a esta realidade material a que estamos subjugados... Se existe outra dimensão, e eu até acredito que exista, temo que ela não siga exatamente a mesma lógica, e dizendo que não segue a mesma lógica também não estou dizendo que esta outra lógica é melhor do que esta, pois eu estaria me baseando apenas no meu desejo para afirmar isso, o que não seria muito interessante).

Vejo o sofrimento de meus amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos e até dos meus inimigos (o sofrimento dos meus inimigos me dá muito prazer...), e me sinto condoído, entristecido, quase que com as mãos amarradas, querendo fazer alguma coisa, mas impedido por força maior. Não há forças em mim para ajudá-los! Não há muito o que fazer para diminuir o sofrimento alheio, pois nem mesmo o meu sofrimento eu consigo diminuir. De certa forma, aprendi a lidar com o meu próprio sofrimento, transportando-o a um nível mais universal, porque tornando meu sofrimento universal, torno-o igualmente vazio e, portanto, desprezível, assim como Amor, Felicidade e outros universais!

Gostaria que meus amigos e familiares partilhassem da mesma maneira de encarar o mundo, pois acredito que, ao menos assim, seria mais fácil encarar o medo, os sofrimentos e as angústias da nossa vida. Acredito que pessoas que chegam a estas mesmas constatações ficam mais desinteressadas com seus próprios problemas, ficam mais sensíveis ao sofrimento alheio, pois acaba por enxergar que todos, impreterivelmente, estão no mesmo barco! Não há classes sociais, não há raça, não há sexo! Nada há que não seja sofrimento! Todo o resto são ilusões construídas pela nossa espécie para tentar diminuir nossa angústia, nosso desespero! Todo o resto são modos que encontramos e criamos para fugir da verdade que nos persegue: a morte! Desde que nascemos enfrentamos o nosso corpo ao invés de usufruir ao máximo dele. Desde que nascemos somos ensinados a odiar o nosso corpo, justamente porque é o corpo quem aponta nossa finitude. Consideramos mal o corpo que morre, o corpo que adoece, o corpo que se desfaz e apodrece. Não temos coragem de reconhecer que não há escapatória para a morte, queremos acreditar que podemos vencê-la! Mas para vencer a morte (e morte aqui está ligado ao conceito mais profundo de destruição e aniquilamento cósmico) precisamos abandonar aquilo que nos condiciona à morte, aquilo que nos torna aptos para morrer, ou seja, nosso corpo!

Algumas pessoas me questionam sobre toda esse meu pensamento, duvidam mesmo de que eu acredite piamente nisso, já que me vêem sempre a sorrir, brincar e me divertir. Dizem que este pensamento não combina comigo.
Na verdade, não acredito que não combine, acredito que, verdadeiramente, eles não querem acreditar que eu possa pensar desta forma, afinal, como pode uma pessoa aparentemente feliz acreditar na destruição de tudo! Não é possível! Mas esta sensação que as pessoas tem em relação a mim, só corrobora tudo o que eu disse: não somos capazes de usufruir de tudo, de todos os prazeres, não acreditamos que podemos ser felizes, o sofrimento que experimentamos nessa vida é tão grande que (junto com o maldito cristianismo) acabamos por acreditar que temos que sofrer aqui para lograr algum prazer em outra vida. Acreditamos piamente que neste lugar não é possível ser feliz diante de nossa triste situação! Ou seja, todos, como eu disse antes, sabem do extremo e infeliz infortúnio de existir, mas não aceitam isso, lutam o tempo todo para fingir que estão bem, e, paralelamente, acreditam que este sofrimento é a justificativa de que eles um dia merecerão algum tipo de alegria eterna, em troca de toda as mazelas terrestres. Quando na verdade seria muito mais saudável para nós fazer o que nossos psiquiatras e psicanalistas nos ensinaram a fazer em relação a nossas doença psicológicas, aceitando-as, e tentar usufruir de uma parcela de alegrias ainda em vida... Desta forma, poderíamos nos curar de uma boa parte de nossos hematomas existenciais.

Quer dizer... Não basta não pedir pra existir, nem nunca ter sido levado a corte alguma para defender nosso direito de não vir a este mundo... Nós precisamos sofrer ainda mais do que isso! Isso é um absurdo! Eu não aceito sofrimento deste tipo! Sofrimento maior que existir é um contrasenso! Daí que eu seja a favor de aceitar nosso sofrimento existencial (isso inclui a constatação do aniquilamento total das coisas), e a partir dessa aceitação construir um novo modo de encarar a própria existência, ou seja, um lugar de aproveitar desesperadamente de todos os tipos de prazeres que possam surgir! E digo “aproveitar desesperadamente”, pois é desespero mesmo! A nossa busca por prazer está entranhada de dor e sofrimento. Buscamos prazer justamente porque não o possuímos em nós mesmos. Não é constitutivo de nossa biologia humana o prazer![1] O prazer está sempre nas coisas que nos dão prazer, pois não possuímos, além do prazer sexual, nenhuma outra forma de prazer individual, todos os outros tipos de prazeres são originados daquilo que nos é externo![2]



[1] De fato, o prazer sexual é um tipo de prazer que nós possuímos em nós mesmos. Talvez um dos únicos! Daí que nós possamos, a partir disso, compreender o desespero sexual na modernidade! O sexo é (sempre foi, porém num grau muito maior agora), atualmente, a principal forma de entretenimento e lucratividade!
[2] Aqui precisamos reconhecer que podemos sentir prazer sozinhos de forma sexual, tanto homem quanto mulher, mas que o prazer sexual maior se dá por meio da relação com um outro que não nós mesmos. Sexo a dois, a três ou em grupo, não importa, sexo (masturbação ou outros meios de se dar prazer) a um nunca é tão prazeroso quanto o sexo feito com outro(s).