terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sobre linguagem, ser, existência e liberdade.


Um texto que escrevi em 2010, quando tranquei a matrícula na faculdade dehoniana, onde estudei filosofia.
05/10/2010


Depois de ter trancado a matrícula na faculdade, li poucos livros de filosofia e não senti o declínio do exercício de filosofar, pois aproveitei de tudo o que estudei e pesquisei durante os últimos três anos como matéria prima para construir o meu próprio pensamento.
Devo reconhecer que muita coisa mudou nestes curtos e conturbados anos de faculdade; experimentei um pouco (às vezes muito) de tudo e isso somente acrescentou maturidade.
Infelizmente, esta maturidade apenas eu a percebo, pois a gravidade e seriedade de um adulto normal estão completamente enraizados nos poços obscuros da moral cristã.
Tenho para mim – e talvez, exatamente nesse aspecto, eu tenha descoberto minha liberdade e alegria – que um verdadeiro filósofo, amante da luz (sofos) e de tudo o que é vivo e ascendente, jamais poderia levar a vida tão a sério... De um camelo domesticado, carregador de fardos alheios, tornei-me leão dominante com vontade de destruição, sangue e caos; de leão orgulhoso passei a viver como criança, desapegado de moral, regras e deveres sociais.
Cheguei a um determinado momento em que não pude resistir o desejo de olhar o abismo; olhei e ele me devolveu o olhar de tal modo amedrontador e apavorante que tive de cerrar os olhos com esforço. As palavras que giram em torno do abismo são todas cruéis e terríveis: medo, morte, escuridão, desespero, angústia. E não é de se espantar, dado o número de pessoas caindo nele! De fato, grande é o poder do abismo, diria a “aranha”, e não há quem não o testifique.
Contudo, observei todas as pessoas caindo no abismo, gemiam e choravam sem saber o que fazer. É preciso, como diria o espírito zaratustriano, estender uma corda entre uma e outra margem do abismo, rindo de seu penetrante olhar.
Rir com sarcasmo, ironia e desdém, pois rir de felicidade é como nuvem afugentada pelo vento, logo some e não se lembra mais de novamente existir.
Todos os que nascem são humanos porque são inseridos em sua linguagem humana. E no final, tudo não passa apenas de proposições, argumentos e balbucias sem sentido causal.
Entretanto, se todos são humanos por participarem da mesma forma verbal de proferir o mundo, não deveríamos ser iguais? Mas há na própria linguagem as brechas necessárias para encontrar a resistência ou a oposição. Existem, desta forma, dois tipos de linguagem: uma da maioria, massificada e outra da que a resiste e que, por ser uma pequena parcela da coletividade, é colocada às margens. Daí que se possa compreender a diferença crassa entre as linguagens de uma determinada cultura, a massificada, inglesa por exemplo (em meados dos anos 70) e o modo verbal de pronunciamento do real dentro de uma subcultura, como o movimento punk britânico. Existem outros exemplos que poderiam ser adicionados aqui, mas basta olhar com mais atenção para a linguagem de uma cidade e para a linguagem marginal que foi construída para perceber facilmente essa variedade.
Pode ser que membros que estiveram uma vez embolados na massa tornem-se força de resistência em outras partes, mas nunca isso ocorre por vontade própria, o processo é lento e diz respeito ao próprio mal-estar cultural existente em paralelo ao desenvolvimento técnico. Foi o que Freud explicou em “Mal-estar na cultura”, provando que o aprimoramento da técnica cria automaticamente uma sensação de desconforto a nível de “inconsciente coletivo” (emprestando o termo jungiano).
Os que fogem das normas prontas e já estabelecidas no âmbito social, os anormais (que literalmente estão fora da norma), são jogados ou se isolam por perceberem que são diferentes demais. Existem várias formas de escapar num momento desses, como a música e a arte em geral, por exemplo, ou mesmo as drogas (ambas com a mesma função). Um fato curioso sobre este aspecto é a existência de mendigos na cidade. Na verdade, não se trata de uma existência mesmo, mas de uma falsa existência, já que ninguém se comunica com eles, eles estão privados de quaisquer relações (no sentido lógico, apesar de metafórico... Explico: Na lógica A pode se relacionar com todas as outras letras, menos ela mesma. A não pode se relacionar com A. Para que a existência de A seja afirmada é crucial sua relação com as demais letras, por exemplo: A-B. A identidade de A só é encontrada por causa da existência de B, ou seja, é uma identidade criada por meio da negação: “Eu não sou B, nem C, nem D... por isso, sou A, existo como A.” O caso dos mendigos é bem parecido. Eles não sabem que existem, pois estão privados de todas as relações possíveis. Eles não podem se reconhecer mutuamente, seria uma incoerência lógica, posto que A não pode se relacionar consigo mesmo. Isso se torna tanto mais verídico quando olhamos para o papel que os demais países possuem para a construção de uma “identidade brasileira”. Como seria possível construir uma identidade brasileira se não existisse nenhum outro país que lhe provocasse alguma cisão lógica com potencial de afirmação? Se somente eu existisse e nada mais... Se eu apenas existisse no meio de um Nada absoluto... Como eu saberia diferenciar Eu do Nada? De fato, eu estaria em um determinado lugar do Nada, pensando alguma coisa... então esta comparação seria inverossímil... Mas, apenas por suposição, pensemos que fosse possível apenas eu existir e mais ninguém, nenhuma outra criatura ou objeto, nenhum ente... Se assim fosse Eu seria o Nada, ou seja, eu não existiria, não há negação e é exatamente por meio da negação que se pode criar identidades!)
O que interessa, porém, é que ao encontrarmos a face do diferente poderemos sempre ter certeza de que algum acidente de percurso aconteceu. Em sã consciência ninguém quer se afastar da sociedade. Fora da sociedade há desequilíbrio, desordem e violência; em outras palavras: “fora do frágil castelo de areia que construímos há uma natureza e um cosmo imenso cuja preocupação não é nem de longe a comunidade planetária terráquea”.
Por isso mesmo nós, homens e mulheres, nos unimos para não ter de enfrentar, cada qual no seu devido galho, o tormento de existir.
Concluímos que, se conseguíssemos tal façanha, voltaríamos para a tranqüila normalidade, onde tudo já está pronto, onde tudo é estável... Mas uma vez que se experimenta este sentimento que convencionamos nomear como liberdade, nunca se consegue livrar do peso de ser estranho e bizarro... Se eles fossem em menor número, nós seríamos os normais, de acordo com este critério, e eles, os marginais.
Vemos, portanto, duas coisas bem distintas: a liberdade é, ao mesmo tempo, a melhor sensação dessa existência fugaz e a mais opressora, porquanto aqueles que são livres estão em número absurdamente pequeno; e que tanto faz estar deste ou daquele lado, pois o critério utilizado para estar ou não livre é relativo apenas ao grupo “geograficamente” localizado, ou seja, se você estiver aqui é livre, se ali, é parte da massa, mas se a ordem e o lugar invertessem seria o mesmo que nada, porque todos são humanos e estão destinados à podridão do túmulo.
A proposição final, penso, é: a linguagem é quem dá existência às coisas, aos objetos de conhecimento. Não há como o homem conhecer as coisas fora se ele não aplicar um raciocínio lógico para este intento, se ele não outorgar nome, se ele não delimitar objetivamente os entes então eles não existem. Não é que não existem fora do ser humano, mas não existem dentro da mente, dentro do humano, pois o humano só pode reconhecer as coisas que estão à altura de seu poder de conhecimento, o que só ocorre por causa da linguagem. Em outras palavras, a linguagem, como já disse Heidegger, dá Ser às coisas.
Existência, Ser e Linguagem também são palavras... Mais um dos joguinhos macabros da hermenêutica!

3 comentários:

  1. Gostei do blog!
    Estou tentando seguir, mas minha internet não deixa. Bom, mas eu vou seguir, vou mandar uma solicitação de amizade pra você no facebook, mas se ela não chegar até amanhã é porque provavelmente estou sem tempo, mande-me uma, caso isso aconteça. Sempre vou voltar por aqui.
    Ah, tenho um blog também, se puderes faça-me uma visita.
    http://alleineinsam68.blogspot.com

    Gosto de filosofia, principalmente de Nietzshe, por falar nele, gostei muito da resenha de "A genealógia da moral".
    até mais. :)

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    Respostas
    1. Olá, Flávio! Estamos no mesmo barco então, meu caro! Nietzsche é um dos que eu mais me dou bem! rs

      Ainda não recebi a solicitação, mas eu vou te procurar no face!

      Um abração, cara!

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Obrigado pelo comentário!